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Flip 2026 começa com anedotas durante homenagem à poesia universal de Orides Fontela

Mesa de abertura da festa destacou a relevância da escritora com apresentações poéticas e análises críticas.

Estadao Conteudo 22/07/2026
Flip 2026 começa com anedotas durante homenagem à poesia universal de Orides Fontela
Orides Fontela - Foto: Fritz Nagib / Divulgação.

Uma homenagem a uma poeta que sempre priorizou a palavra não poderia começar de outra forma se não com a própria poesia. Foi essa a ideia para a mesa sobre Orides Fontela (1940-1998) que abriu a 24ª Flip (Festa Internacional de Paraty) na noite desta quarta-feira, 22, que teve início marcado por uma performance e leitura poética da poeta e ensaísta Marília Garcia.

Ela foi escolhida para, ao lado do crítico literário Augusto Massi, conduzir a mesa de abertura da Flip dedicada a Orides, que foi a autora homenageada desta edição e segue até o domingo, 26, na cidade histórica fluminense, com participação de diversos escritores brasileiros e internacionais.

A abertura foi a largada para praticamente cinco dias repletos de poesia. Marília, que participou da Flip no ano passado para falar de sua própria obra poética, iniciou esta edição com uma apresentação que relacionou o trabalho de Orides com o de outros intelectuais e poetas, com anedotas diversas e com a sua própria vida, inclusive citando uma forte doença que enfrentou há dois anos e a perda do amigo Aníbal Cristobo, escritor argentino que faleceu em março de 2026.

Uma história que chamou a atenção foi a de um leitor que enviou uma mensagem para Marília informando ter encontrado um recibo da poeta no livro Enigma e Comentário, do crítico literário Davi Arrigucci Júnior, alugado na biblioteca da Puc-Rio em 2012. Ao saber da homenagem a Orides, Marília retornou à biblioteca e procurou o mesmo livro. Por acaso do destino, encontrou um papel com um poema de Orides: "Leio minha mão. Livro único". O papel vinha com um recado: "passe adiante". Assim, Marília fez, agora na Flip.

A menção a Davi Arrigucci Júnior é simbólica. Conterrâneo de Orides na cidade de São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, foi ele quem "descobriu" a poeta após ler um poema seu no jornal O Município. Ele apresentou a poeta ao Antonio Candido, fundador do Suplemento Literário do Estadão e um dos mais importantes intelectuais brasileiros. Candido, que também foi um dos principais impulsionadores da obra de Orides, destacou Massi mais tarde na mesa. Foi um ensaio de Candido sobre Alba, o terceiro livro de Orides, que ajudou a popularizar seu trabalho entre outros críticos.

Antes da performance de Marília e da aula de Massi, foi exibido um vídeo de Arrigucci, que não pôde estar presente na Flip. Ele e Orides foram colegas na escola, onde a escritora já apresentava sua poesia para os colegas.

"Esses poemas não me chamaram a atenção, pois não escapavam do gosto médio das pessoas", disse ele, até reencontrar a poesia de Orides anos mais tarde, quando ela já tinha quase 30 anos. "Aquilo era grande poesia. E, de fato, durante a longa convivência que estabelecemos depois, percebi que os poemas ótimos eram muitos", contou. "Tive a impressão de que ela tinha um conjunto formidável, fora do comum".

Esse conjunto foi analisado por Massi ao concluir a mesa. Ele ressaltou como, mesmo com um corpo de trabalho conciso (apenas cinco livros e pouco mais de 200 poemas), Orides já se tornou uma autora digna de análises complexas. Para o crítico, o gosto de Orides era "por uma poesia visual e plástica".

Ele escolheu destrinchar um poema de cada um de seus livros (Rebeca, São Sebastião, Penélope, Gatha e Vésper, respectivamente) para mostrar que, mesmo que sua biografia pouco aparecesse em seu trabalho, seus livros acompanharam a evolução de sua trajetória. "É uma poeta universal, algo que perdemos de vista diante do anedotário de sua vida".

*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.