Política

Pastor em Delmiro, salário em Maceió: folha aponta jornada de 40 horas a 290 km de distância na prefeitura de JHC/Cunha

Portal da Transparência registra Alecsandro Nogueira Lemos, o pastor Sandro, como assessor comissionado da prefeitura de Maceió

Redação 03/10/2026
Pastor em Delmiro, salário em Maceió: folha aponta jornada de 40 horas a 290 km de distância na prefeitura de JHC/Cunha
Pastor Sandro Nogueira da Igreja Batista de Delmiro Gouveia recebe salário da prefeitura de Maceió, que fica a 290 quilômetros de onde mora


O Portal da Transparência da Prefeitura de Maceió revela uma situação que chama atenção e exige uma pergunta elementar: como um servidor que mora e mantém sua atuação religiosa em Delmiro Gouveia consegue cumprir uma jornada de 40 horas semanais para a Prefeitura de Maceió, a cerca de 290 quilômetros de distância?

Alecsandro Nogueira Lemos, conhecido como pastor Sandro Nogueira, aparece na folha municipal como assessor, ocupante de cargo comissionado, vinculado à Secretaria Municipal de Gestão de Pessoas e Patrimônio.


E há um detalhe que torna o caso ainda mais relevante: segundo o documento, a carga horária atribuída ao servidor é de 40 horas semanais.

Não se trata, portanto, de uma colaboração eventual ou de uma carga horária reduzida. Quarenta horas correspondem, em uma distribuição convencional de cinco dias, a oito horas de trabalho por dia.

É justamente aí que surge a incompatibilidade que precisa ser examinada.


40 horas em Maceió, vida em Delmiro


O pastor Sandro mantém sua atuação religiosa em Delmiro Gouveia, no Sertão de Alagoas. Ele é apresentado pela Primeira Igreja Batista de Delmiro Gouveia como pastor-presidente da instituição.

Entre Delmiro Gouveia e Maceió são aproximadamente 290 quilômetros por trecho. Uma eventual rotina presencial entre as duas cidades significaria algo próximo de 580 quilômetros de deslocamento em um único dia, ida e volta.

Por isso, a informação oficial de uma jornada de 40 horas semanais abre uma questão que não pode ser ignorada pelo controle social dos gastos públicos: onde essas 40 horas são efetivamente cumpridas?

A folha de pagamento não informa, no documento analisado, que o cargo seja exercido remotamente, tampouco esclarece de que maneira é realizado o controle da jornada.


E distância não é detalhe quando dinheiro público está envolvido.




Dinheiro sai todos os meses


O documento oficial registra pagamentos sucessivos ao assessor.

Em janeiro de 2026, a remuneração bruta indicada chega a aproximadamente R$ 3,85 mil. Em fevereiro, março, abril e maio, meses claramente visíveis no documento, a remuneração bruta aparece em R$ 2,89 mil.

A folha registra ainda vencimento, benefícios e contribuição previdenciária.

Ou seja: o vínculo consta dos registros oficiais e os pagamentos aparecem mês após mês.

O que o documento, sozinho, não demonstra é onde e de que maneira as 40 horas de serviço são prestadas.


A distância coloca a jornada de trabalho sob questionamento


Morar em outra cidade não torna, por si só, uma nomeação ilegal. Também não é possível afirmar exclusivamente pela folha de pagamento que alguém seja funcionário fantasma.

Mas uma distância de aproximadamente 290 quilômetros entre a cidade onde o servidor mantém sua atuação pública e religiosa e a administração que registra 40 horas semanais de trabalho constitui circunstância objetiva que merece fiscalização.

Quando salário público exige trabalho público


Cargo comissionado não significa remuneração sem contraprestação. A livre nomeação para determinada função não elimina o dever de desempenhar as atribuições correspondentes.

Caso uma investigação administrativa ou dos órgãos de controle demonstrasse que houve pagamento de remuneração sem efetiva prestação dos serviços, o episódio poderia produzir consequências administrativas, civis e, conforme as circunstâncias e as provas, eventualmente penais, inclusive para quem recebeu recursos indevidamente ou participou conscientemente de eventual irregularidade.


Mas essa conclusão depende de prova.

O que já está documentado é suficiente para colocar uma pergunta no centro da história:


como o pastor Sandro Nogueira, com atuação em Delmiro Gouveia, a cerca de 290 quilômetros da capital, cumpre as 40 horas semanais que constam na folha da Prefeitura de Maceió?

Enquanto os registros de frequência e de atividades não forem conhecidos, a distância entre Delmiro e Maceió transforma uma simples linha da folha de pagamento em uma questão relevante sobre o uso do dinheiro público.