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Preta Gil: documentário ressalta escolhas e alegrias em meio ao tratamento contra o câncer

Filme inédito estreia na TV Globo, homenageando a vida e a coragem da artista durante a doença.

Estadao Conteudo 20/07/2026
Preta Gil: documentário ressalta escolhas e alegrias em meio ao tratamento contra o câncer
Preta Gil - Foto: Instagram - @pretagil

No filme documental inédito Preta - Eu Não Ando Só, que estreia nesta segunda-feira, 20, na TV Globo, após a novela Quem Ama Cuida, há uma cena em que Preta Gil (1974-2025), durante seu tratamento contra um câncer de intestino, visita o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo. Ela acende uma vela e procura um lugar para fincá-la em um velário já bastante ocupado. Um padre que a acompanha indica um espaço, entre a cera derretida e instável. Preta aceita a sugestão, ainda incerta sobre a escolha.

O documentário, por outro lado, é uma certeza corajosa de Preta. Ao iniciar o tratamento, que durou cerca de dois anos e meio até sua morte, em 20 de julho de 2025, em Nova York, aos 50 anos, Preta começou a gravar vídeos em seu celular mostrando sua rotina em casa e no hospital. Pediu que pessoas próximas fizessem o mesmo. Em 2023, confiou à Mônica Almeida, diretora artística do filme, a missão de transformar todo esse material em um documentário, independentemente de sua cura.

Sandra Kogut, que dirige Preta - Eu Não Ando Só, revela que há um áudio da cantora, em seus últimos dias de vida, reafirmando essa vontade. Contudo, ele não está no filme, que possui cerca de 1h40 de duração e faz parte do projeto Quanto Mais Preta, Melhor, da Globo, que também inclui uma série no Globoplay. A data de estreia marca um ano da morte de Preta.

Momentos íntimos e delicados, como Preta intubada na UTI do Hospital Sírio-Libanês após uma cirurgia que durou mais de 20 horas, aparecem no filme. Tudo capturado em gravações caseiras que, na edição final, são acompanhadas por depoimentos atuais de amigos e familiares, como Carolina Dieckmann, Ivete Sangalo, Luciano Huck, Angélica, Ana Carolina e Otávio Müller, ex-marido de Preta.

Sandra não sabe precisar quantos minutos ou horas de vídeos feitos por celular recebeu. Todo o material estava em estado bruto e sem filtro. "Eu tive que entender o que fazer com esse material. Não podia brigar com aquilo. Tinha uma qualidade humana, de afeto, pelo fato de as imagens serem feitas por pessoas que estavam vivendo aquilo, muito próximas a ela", explica a diretora de filmes como Mutum (2007) e Três Verões (2020). O desafio foi, então, decidir que história contar.

Diferente de Mônica, Sandra não era tão próxima de Preta. Conheceu-a na adolescência, apresentada pela atriz Regina Casé, uma das convidadas que dão depoimento no documentário. "Talvez isso tenha sido algo bom. Ao fazer um filme, precisa-se estar perto e longe, dentro e fora", explica Sandra. Ao filmar, a diretora reencontrou a essência que havia identificado na homenageada décadas antes. "Preta tinha vivacidade, inteligência, era engraçada. Uma pessoa intensa", resume.

A força pela vida durante a doença é relatada principalmente por amigos que estiveram próximos de Preta. Dois deles, Malu Barbosa e Marcello Azevedo, eram sócios da artista em empresas como Mynd e Liga Entretenimento. Outros três, os influenciadores Gominho, Jude Paulla e Duh Marinho, formavam, com Preta, a chamada Diamond's Family. Eles revezavam-se em acompanhar a artista no hospital, atender suas vontades e resolver questões burocráticas. Manter a esperança e a alegria era uma espécie de obrigação, impulsionada por Preta.

"Preta era a expressão da vida. Mesmo no momento em que estava vivendo a morte mais perto, ela afirma essa vida. O desejo do filme é isso: registrar uma maneira de ser. Para mim, isso fez todo o sentido", afirma Sandra.

A força tropicalista

Em Preta - Eu Não Ando Só, também há uma digressão do registro da doença para explorar a personalidade de Preta, decifrando quem era aquela mulher que no palco se definia como "uma preta, gorda e bissexual". Nesse segmento, os depoimentos de Fran Gil, filho de Preta, Gilberto Gil, pai, Caetano Veloso, tio, Maria Gil, irmã, e Moreno Veloso, primo, ajudam a defini-la.

Gil, em depoimento de 1977, relata ter passado oito dias chorando após o nascimento de Preta. Agora, para o filme, afirma que ela tinha "força tropicalista". "Neo, pós, trans tropicalista. Ela tinha, sim, uma força tropicalista. Flor que brotou nesse jardim", define o compositor. Caetano corrobora: "Preta era desembaraçadamente plural" e menciona que a capacidade dela para exercer funções artísticas e não artísticas vinha, em grande parte, do tropicalismo.

O filme reafirma isso ao mostrar cenas da Festa Preta, que ela realizava no Rio de Janeiro, em edições muito bem-sucedidas. No palco, a cantora, à frente da plateia, evocava algo do apresentador Chacrinha, um tropicalista em essência.

Moreno Veloso caracteriza a prima como "glutona", seja por comida ou bolsas, ou pela vida. Maria Gil revela que o amor entre ela e Preta residia nas diferenças. A mãe de Preta, Sandra Gadelha, a Drão, não depoimenta, mas aparece de forma delicada e amorosa no documentário.

A alternância entre os amigos mais próximos, desse núcleo habitual durante a doença, e a família revela que havia certo descompasso entre os dois grupos. No Réveillon de 2024 para 2025, quando a situação de Preta se agravou, Gil se encontra no hospital - e no controle. Está visível que a situação era delicada. Em outro momento, Gominho menciona que alguns amigos próximos da família se preocuparam quando Preta decidiu levar para casa, em suas palavras, "um bando de favelados" - eles moravam com a cantora antes mesmo da doença. "Queriam interditá-la. Achavam que ela estava louca."

Para Sandra Kogut, tudo isso faz parte, mais uma vez, das escolhas de Preta. "Ela escolheu o mundo no qual desejava viver, seja afetivamente ou artisticamente, com muita verdade e coragem", diz. "Preta abordou temas que, hoje, estão muito presentes no debate público, como homofobia, racismo e gordofobia, de maneira genuína", completa a diretora.

Preta - Eu Não Ando Só é dedicado a Sol de Maria, neta de Preta, atualmente com 10 anos. Há um depoimento tocante dela no filme. Uma criança entre a avó e a artista Preta: "Acho que sua avó está doente, eu vi no jornal", disseram os amigos a Sol. "Eu perguntei para minha avó. Ela disse que sim e me perguntou se eu queria saber mais sobre a doença", conta a menina. Sol faz um colar com miçangas coloridas para a avó "ficar boa". Preta usa o adereço em vários momentos de suas internações - a mais longa delas durou três meses.

A conexão entre avó e neta se torna evidente após uma das cirurgias que Preta enfrentou para tentar extirpar o câncer. A cantora, acreditando estar curada, liga para o filho, Fran, e diz, emocionada, que irá ver Sol crescer. "Imagino que parte do desejo de fazer esse filme seja deixar um registro para Sol e para tantas pessoas dessa geração que ainda vão descobrir o que Preta fez", opina Sandra. "As entrevistas foram todas muito especiais. Nunca havia vivido isso. Falar com pessoas sobre alguém que morreu há tão pouco tempo, com tudo tão à flor da pele."

Além do documentário, a série original do Globoplay, intitulada Meu Nome é Preta, integra a iniciativa Quanto Mais Preta, Melhor. Produzido pela Conspiração Filmes e dirigido por Mini Kerti, o seriado tem quatro episódios, que serão liberados semanalmente a partir desta segunda-feira, 20. O último episódio entra no ar no dia 8 de agosto.

A produção trará imagens raras de Preta, desde a infância até sua trajetória artística, incluindo registros dos projetos Noite Preta e Bloco da Preta, além de depoimentos de familiares e amigos.

Preta - Eu Não Ando Só

Na TV Globo, 20/07, após a novela Quem Ama Cuida

Meu Nome é Preta

No Globoplay a partir de 20/07, com episódios semanais até 08/08