Variedades
Natal, um gesto de amor
Natal é uma festa polissêmica. De certo modo, desconfortável. Para os cristãos, a comemoração do nascimento de Jesus, Deus feito homem. Para a indústria e o comércio, privilegiada ocasião de promissoras vendas. Para uns tantos, mini-férias de fim de ano. Para o peru, dia de finados.
O desconforto resulta da obrigatoriedade de dar presentes a quem não amamos, mal conhecemos ou fingimos amizade. Transferido o presépio de Belém para o balcão das lojas, substituído Jesus por Papai Noel, a festa perde progressivamente seu caráter religioso. O Menino da manjedoura, que evoca o sentido da existência, cede lugar ao velho barbudo e barrigudo, que simboliza o fetiche da mercadoria.
O olhar desavisado diria que o consumismo hedonista despe-nos da religiosidade. A Missa do Galo, outrora à meia-noite de 25 de dezembro, reduz-se ao galeto das celebrações, às 8 ou 9 da noite, driblando a madrugada que favorece a violência urbana. O apetite da ceia e a curiosidade em abrir presentes parecem falar mais alto que os bons e velhos costumes: a oração em família, os cânticos litúrgicos, as narrativas bíblicas e a memória dos eventos paradigmáticos de Belém da Judéia.
Uma atualização dos eventos bíblicos permite-nos imaginar, a partir do contexto brasileiro, o leitor perante a seguinte notícia: “Família de sem-terra ocupou ontem a fazenda Estrela de Davi, em cujo curral uma tal Maria, esposa do carpinteiro José, deu à luz o filho Jesus. A polícia de Herodes está no encalço dos sem-terra, que se encontram foragidos”.
A abstração da linguagem, contudo, faz do pseudolirismo natalino o inverso do que o fato histórico significa – o Verbo encarnado perde sua contundência e cede lugar ao presépio descontextualizado que serve de adorno à festa papai-noélica.
Talvez não haja, na literatura brasileira, quem melhor tenha captado o sentido do Natal do que Machado de Assis, no clássico conto Missa do Galo.
Não há propriamente missa, apenas a espera ansiosa num sertão que progressivamente transmuta, aos olhos de Nogueira, rapaz de dezessete anos, a anfitriã Conceição, que atingira os trinta.
Machado faz do coração do jovem narrador um profundo e aquiescente presépio, onde a vida renasce no sutil milagre do amor desinteressado. Um gosto de eternidade. De eterna idade.
No entanto, quebrado pelo tempo que flui incoercível ao ritmo implacável das horas. Na sala, a missa em torno da musa antecede e realiza a comunhão, eclodindo na beleza de um singelo encontro entre duas pessoas.
Isso é Natal. Uma festa rara no mais profundo de si mesmo, na qual as pessoas se fazem presentes umas às outras e entre as quais o amor refulge como uma estrela. Essa festa não tem data e é celebrada cada vez que há encontro em clima de afeto e sabor de comunhão.
Ali, as palavras são como barbante de presente desfeito pelas mãos de uma criança: a cada nó desatado, uma expectativa de surpreendente revelação. (IB)
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