RJ em Foco

Polícia descobre que um clube country na Zona Norte e uma pousada em Búzios eram usados pelo CV para lavar dinheiro do tráfico

Facção assumiu informalmente a administração do clube, controlava eventos e movimentações financeiras e usava uma pousada para ocultar recursos do tráfico em um esquema que movimentou mais de R$ 11 milhões

Agência O Globo - 04/08/2026
Polícia descobre que um clube country na Zona Norte e uma pousada em Búzios eram usados pelo CV para lavar dinheiro do tráfico
Polícia descobre que clube recreativo na Zona Norte e pousada em Búzios eram usados pelo CV para lavar dinheiro do tráfico - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Comando Vermelho (CV) possuía um clube recreativo na Zona Norte do Rio e uma pousada em Armação dos Búzios para lavar dinheiro do tráfico de drogas em um esquema que movimentou mais de R$ 11 milhões, segundo a Polícia Civil. A corporação deflagrou, nesta terça-feira, a Operação Quimera para cumprir mandatos de busca e apreensão e desarticular a estrutura financeira da organização criminosa. As investigações apontam que aliados da facção chegaram a assumir, de forma informal, a administração do Várzea Country Clube, em Água Santa, controlando eventos, movimentações financeiras e decisões internacionais.

A operação é conduzida por agentes da 52ª DP (Nova Iguaçu), com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). Os policiais cumpriram mandatos de busca e apreensão em dez endereços na capital fluminense e na Região dos Lagos. Entre os alvos estão o Várzea Country Clube, imóveis próximos aos investigados e uma pousada em Armação dos Búzios. A Justiça também determinou o bloqueio de valores e investimentos financeiros, a indisponibilidade de bens móveis e imóveis, restrições sobre veículos e participações societárias, além da quebra dos sigilos bancários e fiscais das pessoas físicas e jurídicas investigadas.

A ação conta ainda com o apoio de equipes do Departamento-Geral de Polícia da Baixada Fluminense (DGPB) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e integra a Operação Contenção, estratégia do Governo do Estado revelada para conter o avanço territorial da facção criminosa Comando Vermelho.

Clube alvo de intimidação

De acordo com a investigação, o caso começou após dirigentes do Social Clube Marabú denunciarem que vinham acidentes ameaças para deixar a administração da entidade e entregar o controle do espaço a pessoas ligadas ao tráfico de drogas. Segundo a Polícia Civil, as intimidações foram determinadas por Jeam Carlos do Nascimento Santos, conhecido como "Jeam do 18", indicado como liderança do tráfico local.

Além da tentativa de assumir o comando do clube, o grupo criminoso planejou o pagamento mensal de R$ 6 mil para permitir que o estabelecimento continuasse funcionando sem sofrer represálias.

No decorrer das investigações, os agentes identificaram-se com um esquema semelhante no Várzea Country Clube, em Água Santa, que se tornou o principal alvo da Operação Quimera. Segundo a Polícia Civil, pessoas de confiança da organização criminosa reforçaram informalmente a administração do local, passando a controlar eventos, movimentações financeiras e decisões internacionais, mesmo sem qualquer vínculo jurídico ou estatutário com a instituição.

Embora permaneçasse sem diretoria formalmente registrada, a Várzea segue em plena atividade, promovendo eventos e sendo administrada por pessoas sem vínculo jurídico ou estatutário com a entidade. As comunicações comunicadas pela polícia indicam que esses administradores controlavam as decisões internas, a gestão diária e as finanças do clube sem transparência ou prestação formal de contas.

Núcleo familiar

As apurações também identificaram um núcleo familiar apontado como responsável pela gestão financeira paralelamente ao clube. Segundo a investigação, Amauri Paixão Ferreira, Rayane Ferreira Santos de Souza Paixão e Átila Paixão Ferreira atuaram como administradores de fato do Várzea Country Clube.

Amauri aparece como um dos principais elos financeiros do grupo, enquanto Rayane teria atuado conjuntamente na administração paralela do clube. Átila exerceu funções de gestão e movimentação cerca de R$ 2,4 milhões em apenas seis meses, apesar de não possuir atividade empresarial formal compatível com esse volume financeiro.

Outro investigado, Jonathan Paixão Baptista, primo de Amauri e Átila, fez 44 transferências via PIX que somaram cerca de R$ 240 mil para Átila. Conforme a Polícia Civil, ele figura como autor em pelo menos 20 procedimentos policiais, muitos deles relacionados a roubos de carga, e não possui atividade empresarial ou vínculo formal de trabalho compatível com os valores movimentados.

A investigação também contou com a atuação de Michele Arnoso, que movimentou aproximadamente R$ 2,23 milhões em seis meses, embora declarasse exercer a função de recepcionista, com renda aproximada de R$ 3,2 mil. Ainda segundo o pesquisador, ela recebeu cerca de R$ 253 mil de Amauri em seis transferências realizadas no mesmo período.

Uma análise dos Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) revelou movimentações milionárias incompatíveis com a renda oficialmente declarada pelos investigados. Os documentos apontam intensa circulação de recursos entre familiares, empresas e pessoas físicas, por meio de transferências bancárias, depósitos em espécies e operações fracionadas via PIX.

Pousada em Búzios

As investigações identificaram ainda a ligação do grupo criminoso com uma pousada em Armação dos Búzios, que, segundo a Polícia Civil, pode ter sido utilizada para lavar dinheiro oriundo do tráfico de drogas. O estabelecimento possui estrutura restrita de pequena porta, com 16 quartos, cinco funcionários e diários de aproximadamente R$ 540 durante a alta temporada. Apesar disso, a pousada movimentou cerca de R$ 3,44 milhões em pouco mais de seis meses e registrou 602 depósitos em espécie, que totalizaram aproximadamente R$ 955 mil.

Segundo a investigação, o empreendimento possui ligação direta com o núcleo do Várzea Country Clube. Embora outra pessoa figure formalmente como sociedade da empresa, o e-mail cadastrado pela pousada contém o nome de Rayane, apontada como administradora informal do clube. O investigador também identificou transferências financeiras entre Rayane, a sociedade formal e a empresa, relatando a existência de um circuito financeiro entre a administração informal da Várzea e o empreendimento em Búzios.

A hipótese da Polícia Civil é que parte dos valores ligados ao grupo tenha sido direcionado à pousada para entrada no circuito empresarial formal, dificultando a identificação de sua origem. Somadas, as movimentações financeiras identificadas pelos investigadores ultrapassaram R$ 11 milhões e apresentam, segundo a corporação, características típicas de ocultação patrimonial, concentração de recursos, mistura patrimonial e lavagem de dinheiro.