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Estudo aponta que o Rio abriga ilhas de calor e de frescor simultaneamente

Enquanto um ponto do Alto da Boa Vista registrou média de 23,5ºC nos últimos verões, outra localidade, no Jacarezinho, beirou 50ºC.

Agência O Globo - 02/08/2026
Estudo aponta que o Rio abriga ilhas de calor e de frescor simultaneamente
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Um oásis no Rio, aconchegado pela Floresta da Tijuca, na Estrada do Soberbo, no Alto da Boa Vista, registrado, em cinco anos, média de 23,56ºC nos meses tradicionais de calor: dezembro, janeiro e fevereiro. Na mesma cidade, a 14 quilômetros de distância, uma aferição semelhante realizada na Portelinha, no bairro do Jacarezinho, na Zona Norte, atingiu média de 49,74°C — mais que o dobro. Faça frio ou calor, seja qual for a estação, a experiência com o clima carioca — palco cada vez mais frequente de características naturais extremos, como o vendaval inédito da última quarta-feira — é marcado por diferenças bruscas a depender da localidade, com uma disparidade ainda mais acentuada no verão. Esse é o quadro desenhado por um estudo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que analisou a evolução da temperatura no município entre 2001 e 2022.

Preparar insuficiente:

Previsão do tempo:

— Aqui, o asfalto esquenta muito, e a quentura sobe. Quando é verão, eu passo muito mal. Me dá até tontura. Como as casas são muito coladas, janeiro e fevereiro são os últimos meses para mim — confirma a moradora do Jacarezinho, Maria de Lourdes Nascimento, de 70 anos.

A pesquisa “Espaços de calor na cidade do Rio no século XXI” aponta que a Zona Norte, a cada ano que passa, se consolida como a mais quente do município, enquanto a Zona Sul continua sendo a mais amena, em virtude da cobertura vegetal. O trabalho também faz um alerta: embora ainda possuam áreas verdes e funcionem mais como uma “ilha de frescor”, a Zona Sudoeste, que inclui Barra e adjacências, caminha para se tornar a “ilha de calor” que hoje caracteriza a Zona Norte, em função da expansão acelerada urbana e imobiliária. O aviso também se estende à Zona Oeste.

Entre o trauma eo alívio:

Imagens de ﷡

O estudo concluído em junho, coordenado pelo professor Andrews José de Lucena, do Departamento de Geografia da UFRRJ, utilizou imagens de satélite para medir a temperatura da superfície (impactando a temperatura do ar), o índice de crescimento e o índice de área construída em bairros, favelas, áreas de planejamento e regiões administrativas da capital. O relatório apresenta as médias anuais, quinquenais, sazonais e gerais do período analisado (2001-2025).

— Os dados mostram que, com exceção da Grande Tijuca, a Zona Norte é uma bomba de calor, com temperaturas e índices de urbanização mais altos e índices de vegetação mais baixos. Entre os bairros que se destacam estão Vila da Penha, Penha Circular, Inhaúma, Pavuna, Del Castilho e Anchieta, que regularmente se alternam entre os mais quentes, com temperaturas médias acima de 40ºC — observa o professor. — Por outro lado, ainda que timidamente, surgem alguns núcleos de calor na Barra, no Recreio e em Jacarepaguá, o que deve causar preocupação, já que são áreas em franco processo de urbanização e precisam de ampla atenção do poder público para não se tornarem uma “Zona Norte” do ponto de vista climático.

Mesmo perto do mar, a Avenida das Américas desempenha um papel importante na propagação do calor urbano, assim como as avenidas Brasil e Dom Hélder Câmara, a Linha Amarela e os corredores de BRT: Transolímpica, Transoeste, Transbrasil e Transcarioca. Todos esses locais são apontados pela pesquisa — a incidência de calor, nesses casos, é atribuída a ampla área de asfalto e à ausência de natureza.

— O urbanismo consome a energia emitida pelo sol, a tendência é que o entorno seja mais fresco, ao contrário do que ocorre em áreas sem vida, onde a energia solar toca o asfalto, sendo absorvida e espalhada para o ambiente — resume o especialista.

A professora de Educação Física, Beatriz Rosa, de 27 anos, circula diariamente pela Avenida das Américas e reclama do desconforto térmico enfrentado na via.

— A avenida está descampada. São poucas árvores, a sensação térmica é bem incômoda. Notamos a diferença em relação às ruas internas do bairro, que são mais arborizadas — diz. — A cada dia, a gente vê mais prédios sendo construídos, o que agrava a situação. É necessário haver algum controle sobre essas questões.

Mais de 10ºC de diferença

No ranking dos bairros com as médias mais quentes do período de 2001 até 2025, Del Castilho ( 37,72ºC ), Vila da Penha ( 35,96ºC ), Higienópolis ( 35,63ºC ), Jabour ( 35,61ºC ) e Jacaré ( 35,59ºC ) figuram entre os cinco primeiros lugares. Já entre os cinco mais afrescos estão Alto da Boa Vista ( 21,4ºC ), Grumari ( 22,59ºC ), Vargem Grande ( 22,73ºC ), São Conrado ( 23,26ºC ) e Joá ( 23,34ºC ). Nas médias somente de inverno, uma curiosidade: a diferença entre o bairro mais abafado da cidade (Del Castilho, 29,16ºC ) e o mais ameno (Alto da Boa Vista, 18,64ºC ) ultrapassa os 10ºC. Essas temperaturas são médias de bairros inteiros.

— Eu caminho todos os dias aqui, respirando este ar puro. Sinto até frio. No verão, fica um pouco mais quente, mas sempre há uma frescura. É gostoso — Zilmar Barcello, de 69 anos, morador do Alto da Boa Vista.

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A dinamarquesa Maria Hiort Petersen, de 63 anos, também residente do bairro mais arejado do Rio, faz elogios:

— Morar aqui é a melhor coisa do mundo. É muito saudável. Diante daquele friozinho, você até reza para que algo esquisito em casa. É ar limpo, é cachoeira, e bebemos água diretamente da bica. É um luxo. Não troco isso por nada.

Para quem vive no extremo oposto, o caldeirão carioca, os impactos na saúde são significativos, como observa o professor Heitor Soares de Farias, também do Departamento de Geografia da UFRRJ e participante do estudo:

— O corpo humano trabalha em uma zona de conforto térmico ambiental que varia de 20ºC a 25ºC na temperatura do ar. Na cidade do Rio, verificamos temperaturas muito superiores a esse intervalo. As pessoas de baixa renda sofrem ainda mais devido às características das construções onde habitam, com telhas de fibrocimento ou metálicas, e ausência de laje, resultando em temperaturas ainda mais elevadas no interior das casas. O cenário dificulta uma plena recuperação física e mental durante o sono, levando à exaustão. A sobrecarga térmica pode desencadear problemas como infartos, arritmias, queda na pressão arterial e fraqueza muscular.

Realizado a pedido do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Gaema/MPRJ), o estudo servirá como apoio a um inquérito civil instaurado no primeiro semestre, que acompanha e fiscaliza o cumprimento de medidas compensatórias ambientais na capital. Também poderá orientar a atuação do órgão na cobrança de políticas públicas baseadas na natureza, como a ampliação da arborização e a preservação de unidades de conservação.

— O que já identificamos é que muitas medidas compensatórias não estão sendo cumpridas. O município autoriza a supressão de vegetação, mas não consegue ter a mesma eficiência na recuperação desse passivo ambiental. E o estudo nos ajuda a demonstrar que esse déficit traz prejuízos — afirma José Alexandre Maximino, promotor de Justiça e coordenador do Gaema. — Estamos buscando junto ao município uma alteração normativa para prever, por exemplo, que se o particular que obteve a licença para construção não cumprir a medida compensatória, o empreendimento ficou suspenso até que ele mude de conduta.

O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), Sydnei Menezes, avalia que uma solução para melhorar o microclima nas regiões mais áridas passa pela implantação da “infraestrutura verde”.

— Isso vai além de um plantio de árvore aqui e acolá. Na prática, quer dizer uma política planejada e permanente de implantação de praças e arborização urbana — explica o arquiteto e urbanista. — Outro aspecto importante é manter a permeabilidade do solo. As cidades foram vítimas de uma visão rodoviáriarista, sendo asfaltadas e qualificadas para os automóveis.

Em nota, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (Smac) afirma que desenvolve políticas “para promover maior conforto térmico à população”. O texto cita o Mutirão Reflorestamento e o plantio de árvores em calçadas, praças e outras áreas públicas, além de um projeto que prevê a implantação de duas novas Unidades de Conservação em Jacarepaguá.