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Santa Casa restaura mais de quatro séculos de história no Rio; acervo será aberto à visitação

Nomeada em março, nova direção da irmandade planeja valorizar capela, salão nobre e farmácia, transformada num pequeno museu

Agência O Globo - 15/07/2026
Santa Casa restaura mais de quatro séculos de história no Rio; acervo será aberto à visitação
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os corredores da Santa Casa de Misericórdia, no Centro, podem levar a destinos diversos dos departamentos médicos pelos quais a instituição é renomada desde sua fundação, em 1582. Logo na entrada, o pé-direito alto e as colunas de mármore chamam a atenção. Há uma escultura do padre José de Anchieta, idealizador da instituição no Brasil, e um brilho dourado exuberante, herança daquele tempo. Os olhares percorrem cada detalhe, passando pelos andares superiores e superiores, todos em reforma desde março, quando uma nova direção assumiu a responsabilidade de traçar o futuro da irmandade. O passado, entretanto, permanece presente em um extenso acervo, que deverá ser aberto ao público em breve. Os dados dependerão do término das obras, realizadas com recursos de ações e com a participação em editais de incentivo à cultura.

O imóvel da Santa Casa, localizado na Rua Santa Luzia, é, por si só, um convite à visita. Com cerca de 61 mil metros quadrados, abriga, por exemplo, uma capela utilizada quase exclusivamente pela Família Imperial no século XIX. Os detalhes dourados estão presentes por toda parte, das paredes ao teto, intensificando-se no altar. Há também uma claraboia esculpida, por onde a luz do sol passa e ilumina suavemente o pequeno santuário. A ideia é que as missas voltem a acontecer todos os domingos, porém com restrições, devido à capacidade limitada a 18 assentos.

O salão nobre também merece destaque. Localizado no segundo andar, onde todo o sinteco está sendo revitalizado, o cômodo é composto por uma extensa mesa com 20 lugares, atualmente utilizado para reuniões da instituição. Além dela, há um pequeno altar com a imagem de Jesus, uma tela da Santa Ceia e pinturas dos 12 apóstolos intercaladas entre as janelas. Do lado de fora, o corredor está repleto de retratos daqueles que, ao longo dos séculos, doaram fortunas à irmandade.

Mais afastada do acervo religioso, uma sala no térreo guarda o que será o Museu da Farmácia. Já em fase de catalogação de frascos, ferramentas e substâncias, o local é um retrato da produção de remédios e insumos de época — e mais parece cenário de novela das seis. Ao lado dela, será inaugurada a Farmácia do Hospital da Santa Casa, iniciativa já aprovada pela Vigilância Sanitária, como ressalta a direção-geral da irmandade. Os remédios estocados serão exclusivamente para uso dos pacientes.

O planejamento de valorização histórica do local está sendo realizado por novo trio de gestores voluntários, nomeados para as cargas em março por Francisco Horta, atual provedor da irmandade. O médico Ricardo Cavalcanti, que nasceu como diretor-geral do Hospital da Santa Casa, é professor e coordenador da Unirio e presidente do Instituto Carlos Chagas. Com ele, trabalham os advogados Mauricio Osthoff, responsável pelo departamento jurídico da instituição, e Juliana de Simone, diretora-geral da Santa Casa.

— A Santa Casa já foi uma referência em saúde no Rio de Janeiro. Com o passar dos anos, foi se deteriorando, contraiu dívidas. Nossa missão é recuperar seu valor perante a sociedade, voltar com o legado de excelência e modernizar o que for possível dentro do imóvel tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) — explica Cavalcanti, que está ligado à instituição há mais de 40 anos.

Além de ampliar a referência histórica da Santa Casa, os gestores buscam novas parcerias público-privadas, principalmente na área de ensino. A proposta é trazer alunos de medicina para realizar pesquisas e clínicas no hospital que, em 1856, chegou à sede da Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia, embrião da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No século XX, o espaço também foi utilizado pelas faculdades de Medicina de Souza Marques e Gama Filho.

— O DNA da Santa Casa sempre foi a educação. Eu mesmo estudei aqui. Era como um centro de treinamento, onde havia uma boa troca entre alunos, professores e pacientes. Portanto, reforçamos investir ao máximo em parcerias, mostrar para as universidades que temos estrutura para atender estudantes e realizar projetos — completa Cavalcanti.

Atualmente, há seis especializações no hospital: Cirurgia Plástica, Cirurgia Geral, Clínica Médica, Oftalmologia, Ginecologia e Psicologia Oncológica.

A reforma na irmandade também inclui a instalação de catracas eletrônicas para controle e segurança de pacientes, profissionais e visitantes, bem como a implementação de um centro de diagnóstico por imagem, com aparelhos de raios X, ultrassom, mamografia, densitometria óssea, tomografia e ressonância magnética. Uma empresa parceira fará a instalação dos equipamentos em até 90 dias, explica o diretor-geral da unidade.

Atualmente, cerca de 13 mil pacientes são atendidos por mês na Santa Casa, que oferece acesso a mais de 30 serviços de saúde. As consultas têm valores entre R$ 100 e R$ 150 e podem ser agendadas de segunda a sexta, das 13h às 16h. O horário de atendimento, contudo, é por ordem de chegada, a partir das 7h30.

A Santa Casa mantém o caráter beneficente herdado da irmandade portuguesa de 1498, baseado nas “14 obras de caridade”, regidas por São Mateus. No Rio, a instituição foi a principal unidade de saúde por séculos, atendendo, inicialmente, marinheiros, escravizados e desamparados. Para fazer doações e saber sobre visitas, o contato é pelo e-mail [email protected] .