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Morte de Henry Borel: novo laudo anexado ao processo descarta queda e aponta agressões na morte da criança

Documento produzido como assistência técnica do Ministério Público reúne reconstrução tridimensional das lesões

Agência O Globo - 21/01/2026
Morte de Henry Borel: novo laudo anexado ao processo descarta queda e aponta agressões na morte da criança
Henry Borel - Foto: YOUTUBE/Reprodução Fonte: Agência Senado

Um novo laudo pericial com reconstrução 3D, anexado ao processo que tramita no II Tribunal do Júri da Capital, conclui que a morte de Henry Borel, de 4 anos, foi provocada por agressões físicas e descarta a hipótese de queda acidental. Elaborado pela Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (Dedit), como assistência técnica do Ministério Público do Rio, o documento descreve um padrão de lesões externas e internas incompatível com acidente doméstico. Henry morreu em março de 2021 no apartamento onde vivia com a mãe, Monique Medeiros, e o padrasto, o médico e ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, na Zona Sudoeste do Rio.

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De acordo com o laudo, as agressões encontradas no corpo do menino ocorreram no interior do apartamento do casal. A análise técnica aponta que todas as evidências médico-legais, periciais e circunstanciais convergem para a ocorrência dos fatos no imóvel.

Segundo os peritos, o conjunto de lesões externas e internas, junto da cronologia dos acontecimentos descritos em depoimentos e prontuários médicos, sustenta que Henry foi submetido a violência no ambiente doméstico.

Causa da morte e lesões incompatíveis com acidente

Uma das principais conclusões do laudo é que a causa da morte de Henry foi laceração hepática com consequente hemorragia interna, produzida por ação contundente. O laudo ressalta que esse tipo de lesão não provoca morte imediata, podendo levar de duas a quatro horas até o óbito, intervalo considerado compatível com a dinâmica dos fatos descrita no processo.

O laudo estima que a morte ocorreu entre duas e três horas antes da entrada do Henry no Hospital Barra D'Or, na Zona Sudoeste, isto é, entre 1h30 e 2h30 da madrugada do dia 8 de março de 2021. Ele já teria chegado sem vida à unidade de saúde, por volta das 4h30, apresentando sinais iniciais de rigidez cadavérica — que costuma surgir entre uma e duas horas após a morte. Além disso, a temperatura corporal registrada seria de 34ºC, três graus abaixo dos 37 considerados para o corpo humano.

No texto, os peritos afirmam que a temperatura corporal tem queda de um grau Celsius a cada hora. Assim, segundo os peritos, a combinação desses fatores é compatível com um intervalo máximo de três horas desde o óbito no momento do atendimento hospitalar.

Durante o atendimento médico, ainda foram observadas múltiplas equimoses — manchas causadas geralmente após um trauma — em diversas partes do corpo de Henry. Para os peritos, a multiplicidade de lesões descarta a versão de queda da cama.

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Múltiplas lesões e padrão de brutalidade

O laudo mostra um panorama de diversas lesões distribuídas em várias regiões do corpo. Elas apresentam características morfológicas compatíveis com a ação de instrumentos ou superfícies contundentes. A natureza e a disposição dos traumatismos indicam que as injúrias não decorreram de um evento só, mas de uma série de ações.

A gravidade e a extensão dos achados demonstram a aplicação de força significativa e repetida, o que configura em um padrão de brutalidade na dinâmica dos eventos traumáticos. De acordo com o laudo, a vítima foi submetida a um episódio de violência intensa e generalizada, incompatível com a narrativa de acidente doméstico.

O exame cadavérico e os laudos complementares descrevem equimoses arredondadas com cerca de 10 milímetros, de coloração vermelho-violácea, localizadas em diversas partes do corpo. Ao todo, foram identificadas ao menos 13 lesões externas distribuídas por membros superiores, inferiores e costas.

Outro ponto que chamou atenção dos peritos foi o agrupamento de seis lesões na região toracolombar direita, compatível com ação contundente sequencial ou com o uso de objeto com múltiplas pontas.

Queda descartada pela perícia

Os peritos criminais analisaram o atendimento hospitalar e a perícia realizada no apartamento onde vivia Henry. Medições realizadas no local indicam que a altura da cama, da poltrona encostrada a ela e de outros móveis não seria capaz de produzir múltiplas lesões externas e internas espalhadas pelo corpo da criança.

O que dizem a acusação e a defesa

Acusação

Pai da vítima e assistente de acusação, Leniel Borel afirmou que o novo laudo reforça a conclusão de incompatibilidade das lesões com a versão de queda ou acidente doméstico. Além disso, também Leniel afirma que o laudo surgir às vésperas do julgamento, impacta a expectativa em relação ao julgamento de Monique Medeiros e Dr Jairinho, marcado para o próximo dia 23 de março.

— Como pai do Henry e assistente de acusação, eu recebo com muita seriedade qualquer novidade técnica. Esse laudo com modelagem em 3D reforça algo que a investigação já aponta há anos: não foi acidente, não foi queda. Isso mexe comigo como pai, mas também fortalece a expectativa de que o júri irá olhar para as provas e fazer justiça pelo meu filho — afirma.

Falsos moradores

O assistente de acusação Cristiano Medina da Rocha destacou o trabalho dos peritos e acredita na robustez do documento.

— O Ministério Público juntou aos autos da ação penal que apura a morte de Henry Borel um Laudo Pericial 3D, no qual ratifica os pareceres elaborados pelos legistas da equipe de assistência da acusação, Luiz Airton Saavedra e Fernando Sbérard. Consta desses pareceres que Henry Borel foi assassinado no apartamento de Jairo e Monique, na madrugada de 7 para 8 de março de 2021. Segundo os peritos da assistência da acusação e do próprio Ministério Público, o conjunto probatório é robusto ao demonstrar a inconsistência das teses defensivas dos réus e a solidez das conclusões acusatórias, tidas como irrefutáveis — revelou Cristiano.

Procurado pelo GLOBO, o Ministério Público não se pronunciou até o momento.

Defesa

A defesa de Dr Jairinho também se posicionou. O advogado Rodrigo Faucz contestou o documento e criticou o que chamou de tentativa de influenciar a opinião pública e os potenciais jurados.

— Esse novo laudo nada mais é do que uma reconstrução feita pelo próprio MP. As conclusões são assinadas por funcionários, que desconsideram uma série de elementos e informações relevantes. Cada vez que chegamos perto da data de um júri, principalmente em casos em que a acusação não consegue comprovar sua tese com provas legítimas, eles recorrem a materiais sensacionalistas para manipular a opinião pública e influenciar os potenciais jurados — disse Rodrigo.

Rodrigo também pontuou que a defesa possui alguns recursos em andamento. São três Habeas Corpus e uma correição parcial contra a decisão da Justiça. Além disso, ele também alega que a ainda é preciso ter acesso a uma série de documentos, portanto, é possível que o julgamento sofra alguma alteração de data, embora não seja o interesse principal. O advogado também afirmou que confia no judiciário para garantir um julgamento justo e imparcial.

— Nós continuamos confiando no judiciário para garantir um julgamento justo e imparcial, e para que os jurados tenham acesso a todas as informações, não apenas àquelas selecionadas para uma única versão — concluiu.

Procurada pelo GLOBO, a defesa de Monique Medeiros não se pronunciou até o momento.