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Escola de samba focada na inclusão de pessoas com deficiência no Rio completa 20 anos

Agremiação tem o primeiro porta-bandeira com síndrome de Down do carnaval

Agência O Globo - 19/01/2026
Escola de samba focada na inclusão de pessoas com deficiência no Rio completa 20 anos
- Foto: Reprodução / Instagram

Celebrando duas décadas de história, a escola de samba Embaixadores da Alegria retorna à Marquês de Sapucaí este ano, reafirmando seu compromisso com a inclusão. Para a agremiação, evolução vai além da tradicional passagem pela Avenida: representa uma transformação de mentalidade, como destaca Caio Leitão, cofundador da primeira escola de samba do mundo dedicada a pessoas com deficiência.

“Acessibilidade é linguagem artística, inteligência coletiva e expansão de repertório cultural. A diversidade não é apenas pauta identitária, mas potência criativa de transformação. E a inclusão não é concessão, é direito cultural e expressão plena de cidadania”, afirma Caio.

Fundada em 2006, a Embaixadores da Alegria surgiu quando a acessibilidade ainda era vista como exceção ou custo. Em 2026, ao completar 20 anos, a escola celebra um marco: o 18º desfile acessível consecutivo na Sapucaí. Essa continuidade ajudou a transformar o carnaval do Rio de Janeiro em referência mundial de acessibilidade, em parceria com a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) e a Prefeitura do Rio.

Entre as histórias marcantes, está a de Dudu, que chegou aos primeiros ensaios quase sem falar e conquistou a todos, tornando-se o primeiro porta-bandeira com síndrome de Down do carnaval carioca.

Como em todo desfile, imprevistos acontecem. Caio relembra quando a cadeira de rodas de um menino quebrou minutos antes da apresentação. A escola mobilizou bombeiros, mas, no auge da emoção, o pai fez a escolha mais simples: colocou o filho no colo e cruzou a Avenida até a Apoteose. “Ali, o amor mostrou que não precisa de rodas para atravessar a Avenida”, emociona-se Caio.

O samba-enredo “20 anos de alegria abrindo alas para a diversidade”, de Pretinho da Serrinha e Fred Camacho, vai além da trilha sonora. Para Paul Davies, cofundador inglês, “é a síntese poética de um projeto humanitário. Na Avenida com a Embaixadores da Alegria, os corpos historicamente invisibilizados não figuram — protagonizam. Pessoas com deficiência não ocupam margens — ocupam o centro da narrativa estética e simbólica do desfile”.

A escola construiu uma identidade própria: carros alegóricos integralmente acessíveis, alas inovadoras, intérpretes de Libras “cantando” o samba, rainha de bateria com síndrome de Down, mestres-sala e porta-bandeiras com e sem deficiência, além de desfiles com cão-guia entre as alas.

“Cada gesto, cada decisão artística, cada risco assumido ajudou a redefinir o que é possível — e diferente — no maior espetáculo popular do mundo”, avalia Caio.

A atuação da Embaixadores vai além do carnaval e se estende à cidade. Projetos como a Wheelchair Parade, criada para os Jogos Paralímpicos Rio 2016, reposicionaram o Rio de Janeiro no mapa das cidades que promovem a acessibilidade como ocupação simbólica, expressão artística e afirmação de identidade. A primeira exposição de cadeiras de rodas ao ar livre do mundo, ao lado do Museu do Amanhã, foi vista por quase um milhão de pessoas e destacou os temas mobilidade, autonomia e design social.

Com o Festival O Que Move Você?, realizado na Cidade das Artes, cuja segunda edição gratuita acontece nos dias 11 e 12 de abril, a Embaixadores amplia sua atuação: música, arte contemporânea, pensamento crítico e formação de público se unem para debater, na prática, o protagonismo da pessoa com deficiência. Um festival onde a diferença faz a diferença e o capacitismo perde espaço diante da convivência, do profissionalismo, da capacidade artística e da colaboração coletiva.