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Ministério Público compara a 'quadrilha de ladrões' policiais que depenaram carro durante megaoperação no Rio; entenda

Órgão classificou como inadmissível ação dos agentes. Eles ainda pontuaram o contexto da ação que 'cobrou altíssimo tributo em vidas humanas'

Agência O Globo - 02/12/2025
Ministério Público compara a 'quadrilha de ladrões' policiais que depenaram carro durante megaoperação no Rio; entenda
Ministério Público do Rio de Janeiro - Foto: Reprodução / Agência Brasil

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou seis policiais militares do Batalhão de Choque por peculato e furto qualificado durante a megaoperação que aconteceu no dia 28 de outubro. Os delitos foram identificados a partir das imagens das câmeras operacionais portáteis (COPs), que flagraram agentes furtando armas e peças de carro na comunidade do Alemão e da Vila Cruzeiro. No documento, os promotores afirmaram que os PMs agiram “como se fossem verdadeira quadrilha de ladrões de carros” ao depenar um veículo que “encontraram estacionado em plena via pública”.

PM do Bope também foi flagrado cometendo furtos na megaoperação:

Segurança:

O subtenente Marcelo Luiz do Amaral, o sargento Eduardo de Oliveira Coutinho e outros dois policiais militares foram denunciados pelo crime de furto qualificado em razão do desmanche de um veículo Fiat Toro. O veículo estava estacionado na Vila Cruzeiro.

Em uma das gravações, Coutinho mexe em um carro e diz: “Estou precisando bem de um farol”. Nas filmagens, Coutinho chega perto do subtenente e diz: “Tem uma pecinha aqui que eu preciso”. E o subtenente Amaral responde: “A hora é essa”.

Segundo o MPRJ, Coutinho retirou o tampão do motor, um farol e as capas dos retrovisores. Amaral e outro policial teriam garantido condições para o furto, inclusive tentando impedir o registro das imagens pelas COPs. Outro agente identificado como Machado, embora presente, não teria tomado qualquer atitude para impedir o crime.

Fuzil AK-47

Já os sargentos Marcos Vinicius Pereira Silva Vieira e Charles William Gomes dos Santos foram denunciados por peculato após o suposto furto e uma arma durante a megaoperação. Segundo o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, o armamento foi encontrado em uma residência onde cerca de 25 homens já haviam se rendido.

As câmeras corporais mostram que Silva Vieira pegou o fuzil e se afastou do grupo de policiais que registrava o material apreendido. Minutos depois, ele se encontrou com Charles Santos, e ambos esconderam a arma em uma mochila, sem a contabilizar entre os itens oficiais da operação.

Além das imagens, o inquérito da polícia também constatou uma discrepância entre a documentação oficial e o conteúdo registrado. As gravações indicaram que os agentes encontraram no local um fuzil AK-47 e uma pistola calibre 9 mm. Porém, no Registro Policial Militar, foi apresentada somente a arma curta, sem qualquer referência ao fuzil.

Em decisão no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o juiz afirmou que as atitudes indicam, em tese, “omissão de informações e possível conduta dolosa destinada à ocultação de parte do material bélico apreendido, havendo ainda suspeita de eventual conluio para direcionamento dos resultados da operação”.

A comparação indica omissão de informações e possível conduta dolosa destinada à ocultação de parte do material bélico apreendido, havendo ainda suspeita de eventual conluio para direcionamento dos resultados da operação.

As imagens analisadas pela Corregedoria e pelo MPRJ mostram, ainda, que o sargento Silva Vieira comentou sobre a arma por áudio:

"É o quê? É ruim de eu entregar esse daqui. Esse aqui vai ficar para a gente”, afirma, segundo o vídeo exibido no Fantástico, da TV Globo. Ele também ressalta que o modelo não aparece entre os armamentos apreendidos: “Ninguém tem esse AK aqui, não", disse.

Em seguida, a dupla chega a discutir como esconder o fuzil e cogita desmontá-lo. Como não tinham ferramentas, decidem mantê-lo inteiro na mochila.

“Fecha de qualquer jeito. Já é, vamos sair daqui”, diz o sargento, conforme o material divulgado pela TV.

Dos seis denunciados, quatro já foram presos. São eles: subtenente Marcelo Luiz do Amaral e os sargentos Eduardo de Oliveira Coutinho, Charles William Gomes dos Santos, Marcus Vinicius Ferreira Silva Vieira e Diogo da Silva Souza. O nome dos outros dois policiais não foi divulgado.

Luto:

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Manipulação das câmeras

O MPRJ ressalta que, nos dois casos, houve tentativas deliberadas de manipular as câmeras corporais. O Termo de Análise de Vídeo cita episódios em que os denunciados tentam desligar, cobrir ou desviar o campo de visão das COPs, com o objetivo de dificultar o controle interno e externo da atividade policial e comprometer a produção de provas. O Ministério Público afirma que continua analisando todas as imagens gravadas durante a megaoperação, considerada a mais letal da história do estado, com 122 mortos.

Durante a coletiva sobre a Operação Barricada Zero, o governador Cláudio Castro (PL) foi questionado sobre as imagens. Ele elogiou a investigação da Corregedoria da PM:

— O governo não tem compromisso nenhum com o erro. Pode ser os maus policiais ou criminosos: aqueles que estiverem andando do lado errado serão exemplarmente punidos. A velocidade da investigação mostra o comprometimento da corporação de não tolerar erros.

O secretário da PM, Marcelo de Menezes, também defendeu a investigação interna:

— Nosso compromisso com o erro é zero. Temos compromisso com os bons policiais. A gente identificou o erro, e num tempo o mais rápido possível, nós apresentamos as punições e realmente deixamos o recado que nós estamos ao lado dos bons policiais, e é assim que nós iremos trabalhar.