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'Se eu não tivesse saído meia hora mais cedo, teria morrido também', diz funcionária do Cefet

Mulher, que preferiu não se identificar, se sentia perseguida por acusado pelos disparos contra colegas de trabalho

Agência O Globo - 29/11/2025
'Se eu não tivesse saído meia hora mais cedo, teria morrido também', diz funcionária do Cefet
- Foto: Reprodução

O atentado a duas mulheres dentro de uma unidade do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) Celso Suckow da Fonseca, na tarde desta sexta-feira (dia 28), deixou a comunidade escolar em luto e em choque. Para uma outra funcionária da instituição, que preferiu não se identificar, a sensação é de que ela também poderia ter sido um alvo dos tiros, pois há algum tempo se sentia perseguida pelo suspeito, seu então colega de trabalho.

— Me perseguia, vigiava a minha entrada na escola e no setor, discordava da maneira que eu trabalhava. Se eu não tivesse saído meia hora mais cedo ontem, teria morrido também — diz.

Um mês do confronto mais letal da história do país:

Encontrada morta:

De acordo com a mulher, as atitudes anteriores do acusado pelos disparos, João Antônio Miranda Tello Ramos Gonçalves, não eram direcionadas apenas a ela. O homem apresentava há anos sinais de deterioração emocional, isolamento e rigidez de comportamento, ela aponta. Mas o comportamento teria piorado nos últimos anos:

— Ficou rígido demais, perseguindo os colegas e até superiores. Tudo era motivo, o horário que chegavam na escola, o quanto trabalhavam, decisões pedagógicas — conta.

O caso aconteceu na unidade Maracanã do Cefet, na Zona Norte do Rio. Após realizar os disparos contra duas colegas de trabalho, o homem tirou a própria vida. A professora Allane de Souza Pedrotti Matos, atingida na cabeça e no ombro, e a psicóloga escolar Layse Costa Pinheiro, baleada na cabeça e no tórax, chegaram a ser levadas para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro do Rio, mas não resistiram. O caso é investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital.

Em nota, a Direção-Geral da escola decretou luto oficial por cinco dias na instituição, a partir de 1º de dezembro de 2025.

Suspeito alegou sofrer assédio moral em processo na Justiça

Suspeito de ter assassinado duas colegas de trabalho no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) e depois se matado, João Antônio Miranda Tello Ramos Gonçalves entrou há quatro meses com uma ação judicial contra a União pedindo indenização por assédio moral no trabalho. Na última terça-feira, a Justiça Federal encerrou o processo sem julgar o mérito por entender que o Cefet tem autonomia administrativa e a União não deveria fazer parte da ação.

Segundo a decisão, João Antônio disse ser servidor desde 2014 e há três anos foi transferido de setor contra sua vontade. Ele alegou que no novo setor "passou a ser vítima de retaliação administrativa, por meio do esvaziamento de suas atribuições, exclusão de espaços de decisão e isolamento progressivo no ambiente de trabalho, situação que culminou no comprometimento de sua saúde mental".

O homem ainda foi suspenso cautelarmente por 120 dias de suas funções e, ao voltar ao posto, foi enviado para um terceiro departamento.

“Laudos e atestados médicos incontestáveis que indicam o agravamento de seu quadro de saúde em decorrência direta do ambiente laboral ao qual está atualmente submetido, sendo seu retorno à DIREN (Diretoria de Ensino) ou sua remoção para a DIAPE/DEMET (Divisão de Apoio Pedagógico) não apenas medida recomendável, mas necessária e urgente para evitar o comprometimento irreversível de sua saúde mental”, alegou a defesa do homem na ação.

Allane, doutora em Letras e cantora

Allane de Souza Pedrotti Matos era doutora em Letras pela PUC-RJ, com pesquisa na área de Linguística Aplicada, concluída em 2020. Parte do seu doutoramento foi na Dinamarca, na University of Copenhagen, onde desenvolveu pesquisa e ministrou disciplina para a graduação como professora convidada. A experiência foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Formada em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2006, ela se especializou em Psicomotricidade, pela Universidade Cândido Mendes, em 2008. Já o mestrado, em Sistemas de Gestão, foi feito na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Atualmente, trabalhava como coordenadora da equipe pedagógica e acadêmica da Direção de Ensino do CEFET/RJ na Coordenação de Educação Profissional e Tecnológica de Ensino Médio, atuando com assessoria pedagógica e acadêmica. Era também presidente da comissão geral de Permanência e Êxito e integrou, coordenou todas as comissões de estudo e implantação do Ensino Profissional Técnico de Nível Médio (EPTNM) na unidade Maracanã e demais comissões gestoras, além de ter sido membro da Comissão de Heteroidentificação (CHET).

Fora do universo acadêmico, Allane tinha uma vida ativa na música. Era cantora, compositora e pandeirista. Integrava o Grupo Quilombo Urbano, que surgiu no Renascença Clube, no Andaraí. Nas redes sociais, a também artista costumava compartilhar vídeos em cima do palco. Sua última publicação, nos Stories do Instagram, foi na manhã desta sexta-feira: "Uma ótima sexta, com essa poesia", escreveu, sobre um vídeo em que cantava "Queixa", de Caetano Veloso.

Layse, 1º lugar em concurso, apaixonada por música e dança

Servidora pública federal do Cefet-RJ, Layse Costa Pinheiro foi a primeira colocada no concurso prestado em 2014 para o cargo de psicóloga

Ela teve atuação na área de Gestão de Pessoas entre 2014 e 2017 e no ramo de Psicologia Escolar a partir de novembro de 2017.

Graduada em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em 2013, ela especializou-se em Gestão de Pessoas pela Faculdade Internacional Signorelli, concluindo o curso em 2019.

A profissional tinha mestrado incompleto (interrompido em Dezembro de 2017) no Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da UERJ, sendo a primeira colocada na seleção de 2016.

Em suas redes sociais, ela se definia como "apaixonada por música e dança de salão".

Quem é o funcionário do Cefet que atirou contra as colegas

O ataque a tiros aconteceu dentro da unidade do Cefet do Maracanã nesta sexta (28). O Corpo de Bombeiros foi acionado às 15h50. De acordo com relatos, o funcionário João Antônio Miranda Tello Ramos chegou à unidade pela manhã e cumprimentou todos normalmente. À tarde, ele entrou na direção e efetuou os disparos, acertando as duas mulheres, que trabalhavam na Diretoria de Ensino. Allane foi atingida na cabeça e no ombro, e Layse, na cabeça e no tórax.

Em seguida, o autor dos disparos tirou a própria vida. As aulas do turno da noite foram canceladas.

A Polícia Militar informa que, de acordo com o comando do 6º BPM (Tijuca), policiais militares foram acionados, na tarde desta sexta-feira, após registro de disparos de arma de fogo no interior de uma unidade de ensino, no Maracanã.

No local, os agentes encontraram duas mulheres feridas, que foram atendidas pelo Corpo de Bombeiros e encaminhadas a uma unidade hospitalar. Allane e Layse não resistiram aos ferimentos.

As equipes realizaram buscas nas dependências da instituição e localizaram o corpo de um homem, que seria o suspeito de realizar os disparos, acrescenta a PM.