Poder e Governo

Vorcaro amplia equipe de defesa e determina devassa em arquivos para apresentar nova delação

Dono do Master se reúne diariamente com advogados em busca de mais tempo para negociações com banqueiro

Agência O Globo - 12/08/2026
Vorcaro amplia equipe de defesa e determina devassa em arquivos para apresentar nova delação
Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução

Com duas propostas de delação rejeitadas e há cinco meses de prisão, o banqueiro Daniel Vorcaro determinou que sua equipe de defesa faça uma nova devassa em documentos para apresentar à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma terceira versão da colaboração. O dono do Banco Master tem recebido advogados diariamente na cela de 65 metros quadrados que ocupa desde o fim de junho na Papudinha, em Brasília — antes de ele estar na Superintendência da PF, também na capital federal. Vorcaro passa boa parte dos dias discutindo estratégias para convencer as autoridades a aceitarem a delação.

O banco reunido por Vorcaro tem especialistas nas áreas criminal , empresarial e financeira . O criminalista Daniel Bialski é contratado mais recentemente e pediu uma audiência com o ministro André Mendonça , relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). Nessa nova tentativa de colaboração, a defesa de Vorcaro tenta desfazer a impressão das duas anteriores, quando o investigador viu pouca disposição em fato de ajudar nas investigações.

Para isso, a ordem de Vorcaro é buscar mensagens, e-mails, contratos e rastrear pen drives, HDs e telefones cujas íntegras ainda não tenham sido acessadas por policiais — oito celulares do banqueiro foram apreendidos em diferentes fases da Operação Compliance Zero. O objetivo é indicar evidências que possam corroborar linhas de apuração já em andamento ou abrir novas frentes. Há na tática também um braço defensivo: segundos interlocutores, Vorcaro insiste que os fundos do Master não foram inflados por ativos ativos, como sustenta a investigação, e quer comprovar essa tese.

Bialski, que já defendeu a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL), deseja levar a Mendonça um pedido para que os advogados assumam mais horas por dia com Vorcaro. A rotina na Papudinha prevê visitas diárias de uma hora de advogados e familiares no parlatório, o que, na visão da defesa, não é suficiente para a complexidade dos processos envolvidos em Vorcaro. Na terça-feira, Bialski disse à GloboNews que o banqueiro “quer falar e colaborar”. A intenção da defesa é destravar a tentativa de delação ainda neste mês, para minimizar a possibilidade de o caso sofrer influência do calendário eleitoral.

— Por ora, seguimos esperando o adiamento de vistas de todos os inquéritos e cautelares para depois pensar na melhor linha de defesa — afirmou Bialski ao GLOBO.

Para construir essa saída jurídica, Vorcaro recebeu sete advogados diferentes nas últimas semanas. Além de Bialski e de Sérgio Leonardo , amigo do banqueiro e integrante da defesa desde o início do caso, passou pela Papudinha o advogado Cézar Bittencourt . O banqueiro avalia que é necessário construir uma relação menos turbulenta com o STF. Em maio, por exemplo, o criminalista José Luis Oliveira Lima , o Juca, deixou a defesa de Vorcaro após um desentendimento com Mendonça.

Nesse contexto, Bittencourt pode servir também como uma espécie de conselheiro sobre a relação com a Corte. Ele foi o responsável pela delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid , uma das bases da denúncia que levou às denúncias do ex-presidente Jair Bolsonaro na Corte pela trama golpista.

Integrantes do círculo próximo ao banqueiro dizem que ele está "hiperfocado" em responder às suspeitas que o colocam como chefe do esquema de fraudes financeiras e demonstram abatimento e desconfiança com a decisão da PF e PGR em não querer ouvi-lo.

Integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República rejeitaram duas propostas de delação feitas pelos advogados de Vorcaro — a primeira encampada por Juca, e a segunda, por Sergio Leonardo — sob o argumento de que elas não traziam novos elementos de prova.

Segundo a percepção do pesquisador, o banqueiro não estaria disposto a cooperar e teria poucas condições de corroborar os seus relatos com documentos, pois já não tinha o controle do Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. Além disso, eles também avaliaram que os anexos entregues não apresentavam fatos suficientemente inéditos.

Os dias de Vorcaro

Instalado em uma das oito celas de 65 metros da Papudinha, ganhou um direito que ele não tinha na Superintendência da Polícia Federal: uma televisão com acesso aos canais abertos, já que o aparelho não pode ter conexão com a internet. No alojamento, tem acesso a banheiro com box, chuveiro, cozinha, lavanderia, quarto e sala. Ele está há 48 dias no local.

Uma das preocupações do banqueiro é a possibilidade de Bolsonaro perder o direito da prisão domiciliar, o que poderia fazer com que o ex-mandatário voltasse a ocupar a cela onde hoje o Vorcaro está. No passado, o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou que Bolsonaro descumpriu medidas cautelares impostas por ele, mas, no fim, mês manteve-o em casa. Com o reforço na equipe de advogados e tentando passar o recado que agora quer falar, Vorcaro ainda nutre esperança de obter uma prisão domiciliar do Supremo.