Poder e Governo
Governo Lula vê ataques de Milei como estratégia para liderança da extrema direita na América Latina
Presidente argentino busca ampliar popularidade às custas de Lula, que evita respostas diretas
O Palácio do Planalto avalia que os ataques do presidente argentino Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva são uma tentativa do mandatário vizinho se colocar como líder da extrema direita na América Latina, reforçando uma "onda azul" na região, em uma linha auxiliar ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Essa é uma das razões que levaram Lula a não responder diretamente nenhuma das investidas de Milei contra ele. A estratégia em busca não considera Milei como líder para que a tática do presidente argentino não se complete. A expectativa, no entanto, é que o chefe do Estado argentino insista nas agressões a Lula como forma de se colocar como voz conjunta com líderes progressistas e manter as falas durante o período eleitoral brasileiro.
Na semana passada, ao ser questionado como via o episódio da vinda de Milei ao Brasil para convenção do PL, Lula ironizou:
— Eu? Quem é esse cara?
O entorno de Lula também vê os movimentos de Milei com foco em sua própria candidatura à reeleição. Esses interlocutores afirmaram que uma eventual vitória de Lula em outubro poderia animar setores progressistas da Argentina e criar obstáculos a Milei, que enfrentassem o desgaste político, com a queda da popularidade.
Na convenção do PL que formalizou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, em 25 de julho, em São Paulo, Milei chamou Lula de “presidiário” . Dias depois, durante entrevista à emissora local LN+, Milei retomou os ataques contra Lula e chamou o petista de “ladrão” e “corrupto” . Na mesma entrevista, o argentino também defendeu o tom das declarações dadas durante a convenção.
— O que é agressivo é quando alguém rouba. É muito menos grave chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar.
Na última terça-feira, o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com a Argentina. Com a decisão, o embaixador brasileiro Julio Bitelli não voltará para Buenos Aires. A representação diplomática do Brasil no país passará a ser comandada por um encarregado de negócios. Com isso, o embaixador da Argentina no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, perde, na prática, suas funções como representante argentino no território brasileiro.
A partir de agora, o governo Lula vai considerar apenas o encarregado de negócios como representante oficial da Argentina. De acordo com auxiliares de Lula, Raimondi não será declarado persona non grata nem foi dado prazo a ele para deixar o Brasil. A expectativa, no entanto, é que ele retorne a Buenos Aires.
Em entrevista a uma TV argentina, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que Milei "agrediu de forma grosseira o governo brasileiro como um todo" .
— Foram quatro manifestações consecutivas no espaço de uma semana em que o presidente argentino, de uma forma muito grosseira, direta, agressiva, nunca vista, criticou o Brasil, as instituições e a pessoa do presidente Lula. Embora não haja explicações satisfatórias, vamos manter nosso embaixador no Brasil e a embaixada na Argentina serão dirigidas por um encarregado de negócios — disse.
Ele afirmou que o presidente Lula não se interessa pela questão partidária na relação com outros países, mas que o diálogo precisa ser "correto e de alto nível" .
— As relações do Brasil são mantidas com base em critérios, em padrões de respeito às posições e de procura pelo interesse nacional pelos dois lados. A educação e o respeito são fundamentais, sem isso não pode haver diálogo. A questão ideológica é totalmente secundária — colaboramos com o ministro.
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