Poder e Governo
Auditoria do TCU aponta que parcelas de 41 emendas Pix sumiram em contas de prefeituras
Execução de recursos contraria normas do Supremo Tribunal Federal
As auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) que concordaram com "falhas sistêmicas" na liberação de emendas do Pix, reveladas há duas semanas, também apresentaram omissões graves sobre o destino de recursos que deveriam financiar obras como pavimentação de ruas, construção de calçadas e praças, além de ações sociais.
Em uma amostra de 100 repasses dessa modalidade, em 41 casos não há controle sobre a entrega dos recursos que irrigaram a caixa de estados e municípios.
Segundo o órgão, parte do dinheiro correspondeu a essas emendas foi movimentado em contas bancárias sem relação com o objeto financiado, em desacordo com regras de transparência previstas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O GLOBO analisou as emendas apontadas pelo TCU com falhas no contrato e acordos que foram indicadas por 37 deputados e senadores. Ao todo, esses recursos somam R$ 534,4 milhões — e não é possível saber o que foi feito com parte desse montante.
Para o TCU, a transferência de recursos em contas diferentes das disposições para esse tipo de transferência exige a fiscalização.
“A transferência de recursos em conta-corrente não especificamente é um problema relevante, pois dificulta a rastreabilidade e o controle financeiro da aplicação dos recursos”, afirmam os técnicos do órgão de controle.
Segundo os auditórios, a precariedade no rastreamento é comum em duas situações. Na primeira, a conta específica aberta para receber a emenda funciona apenas como uma "conta de passagem": o dinheiro é rapidamente transferido para outra conta da prefeitura ou do governo estadual, onde se mistura a recursos de outras origens.
Em outros casos, os valores nem sequer passam por essa conta e são depositados diretamente em contas utilizadas para outras movimentações financeiras dos governos municipais e estaduais.
Um dos casos envolve uma emenda de R$ 33,5 milhões, indicada pelo senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), pai do ministro do TCU Jhonatan de Jesus, e distribuída entre diferentes municípios de Roraima.
Um auditoria fiscalizou parcela de R$ 5 milhões destinada a Rorainópolis (RR) e acordos uma série de irregularidades. Segundo os auditores, não foi possível rastrear parte do dinheiro porque o valor milionário foi movimentado por contas bancárias diferentes de contas específicas específicas.
Segundo o plano de trabalho da emenda cadastrado no site do governo federal, o dinheiro foi destinado para bancar a limpeza de igarapés, recuperação de pontes, manutenção de prédios públicos e até mesmo para o fornecimento de combustível e finanças à gestão local.
Além da perda de rastreabilidade, porém, a fiscalização encontrou acusações de irregularidades nas licitações e na execução da obra financiada. Os achados encontrados no TCU apuram o aprofundamento das apurações e a adoção de providências para responsabilização dos envolvidos, caso as irregularidades sejam confirmadas.
Procurados, o senador e a prefeitura não se manifestaram.
Outro caso envolve uma emenda de R$ 14,9 milhões, indicada pelo deputado federal Elmar Nascimento (União-BA). A auditoria fiscalizou R$ 9,1 milhões destinados ao município de Campo Formoso (BA), administrados por seu irmão, o prefeito Elmo Nascimento. O TCU concluiu que parte dos recursos apresentou falhas na rastreabilidade, mas os técnicos conseguiram refazer o caminho do dinheiro a partir de outros “elementos examinados”. A análise serviu para identificar outras irregularidades.
Para uma cidade de 71 mil habitantes, foi indicada uma emenda para a pavimentação e drenagem de vias públicas, além da conservação da infraestrutura urbana.
Ao analisar os dados, o TCU revelou ausência de relatórios de gestão, contração de pessoas físicas para a execução de serviços e "sobrepreço contratual", ou seja, obras inicialmente orçadas com valor acima do praticado no mercado.
Os achados encontrados no TCU apuram o aprofundamento das apurações e a adoção de providências para responsabilização dos envolvidos, caso as irregularidades sejam confirmadas.
“No caso específico de Campo Formoso (BA), além da ciência quanto à perda de rastreabilidade, propõe-se um autuar processo apartado de representação para apurar os pagamentos a pessoas físicas pendentes de esclarecimento”, afirma aos auditores.
Procurado, Elmar defendeu a atuação do TCU e disse que “eles estão fazendo o trabalho deles”. Sobre a transferência de parte dos recursos para contas de pessoas físicas, o parlamentar afirmou que essas pessoas eram MEIs que alugaram veículos para o município e não tinham conta-corrente vinculada a CNPJ.
A prefeitura de Campo Formoso, por sua vez, também diz “reconhecer a importância e a legitimidade da atuação dos órgãos de controle e na fiscalização da aplicação dos recursos públicos”, mas negou, ao contrário do que diz o TCU, que houve perda de rastreabilidade da emenda.
Por meio de nota, a prefeitura disse que “estão enviando normas administrativas previstas ao aperfeiçoamento dos procedimentos internos de transferência de recursos, pesquisa de preços, instrução dos processos licitatórios, organização documental e fornecimento de informações no Transferegov.”
Outro caso envolve uma emenda de R$ 17,4 milhões, indicada pelo deputado federal Eduardo Velloso (União-AC), ao município de Cruzeiro do Sul (AC) para atendimento a autistas e projetos da sociedade civil. A auditoria do TCU concluiu que parte dos recursos perdeu a rastreabilidade a partir do uso de uma "conta de passagem", mas também apontou acusações de fraude à licitação, contratação de empresa declarada inidônea, restrição à competitividade de certame, publicidade concedida da contratação, sobrepreço contratual e compromissos de inexecução total ou parcial do objeto.
Diante da gravidade das descobertas, o TCU determinou a abertura de uma Tomada de Contas Especial (TCE), por entender que as irregularidades foram suficientemente demonstradas e que o prejuízo ao erário havia sido quantificado.
A assessoria de Velloso diz que o parlamentar “tem conhecimento do relatório e acompanha com respeito e confiança o trabalho desenvolvido pelo Tribunal de Contas da União”. O parlamentar destaca, ainda, que o valor auditado foi uma parcela de R$ 1 milhão enviado ao município de Cruzeiro do Sul, mas alega que, quanto aos apontamentos do relatório, “a atuação do parlamentar restringe-se à indicação da destinação orçamentária da emenda, não cabendo ingerência sobre os atos administrativos praticados pelo gestor responsável pela execução.”
O caso amplia a lista de investigações envolvendo recursos indicados por Eduardo Velloso.
Em janeiro, O GLOBO divulgou que uma emenda de autoria do deputado, originalmente destinada à realização de eventos culturais em Sena Madureira (AC), acabou beneficiando um hospital pertencente ao seu pai, após a prefeitura redirecionar parte dos recursos para a unidade de saúde.
Uma auditoria da CGU informou que o hospital passou a receber recursos públicos para cirurgias cobradas muito acima dos parâmetros oficiais.
Na mesma época, o parlamentar também foi alvo de uma operação da Polícia Federal que apura supostas irregularidades na contratação de uma empresa de shows com recursos de emendas Pix em Sena Madureira.
À época, Velloso afirmou, por meio de sua assessoria, que o direcionamento dos recursos ao hospital era de responsabilidade exclusiva da prefeitura e negou qualquer ingerência sobre a execução da emenda.
Os três casos ilustram apenas parte das irregularidades identificadas pelo TCU. Ao todo, os auditórios encontraram problemas de rastreabilidade em 41 emendas parlamentares distribuídas entre deputados e senadores de diferentes partidos e estados.
As falhas de controle entraram no foco do STF desde o ano passado e tem provocado acontecimento no Congresso, onde parlamentares veem na ofensiva uma tentativa de reduzir a influência do Legislativo sobre o Orçamento da União.
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