Poder e Governo
Deputado argentino apresenta projeto para repudiar ataques de Milei a Lula
Ex-ministro nos governos dos Kirchner e Fernández critica postura do presidente argentino.
O deputado argentino Jorge Taiana, membro da coalizão peronista "Unión por la Patria", protocolou um projeto no Congresso para repudiar os insultos proferidos por Javier Milei. No último final de semana, durante sua visita a São Paulo para a convenção do PL, Milei se referiu a Lula como "presidiário" e atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
"As declarações de Milei nos envergonham como argentinos. Hoje apresentei na Câmara dos Deputados da Argentina um projeto de repúdio diante das gravíssimas declarações de Milei contra Lula e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, durante sua visita ao Brasil para apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro", escreveu Taiana nas redes sociais.
O documento, denominado "projeto de declaração", serve para expressar a opinião do Congresso sobre determinado tema. Até o momento, segundo o portal UOL, ao menos 30 deputados já apoiaram Taiana na apresentação do projeto na Câmara de Deputados da Nação Argentina, que possui um total de 257 parlamentares.
A proposta contempla um "enérgico repúdio às calúnias e injúrias violentas" proferidas por Milei, que, segundo Taiana, representam "um grave prejuízo" para as relações diplomáticas bilaterais e para a política externa da Argentina.
O documento ressalta ainda "a profunda preocupação com a ingerência nos assuntos internos e no processo político-institucional de outro Estado soberano, violando princípios fundamentais do direito internacional, da autodeterminação dos povos e da não intervenção consagrados na Carta das Nações Unidas, comprometendo gravemente a convivência pacífica entre ambos os países".
Taiana, que foi ministro de Relações Exteriores nos governos de Cristina Kirchner e Néstor Kirchner, além de ter comandado o Ministério da Defesa na gestão de Alberto Fernández, também criticou a presença do atual Chanceler, Pablo Quirno, e do diplomata Luis María Kreckler em um ato de caráter "estritamente político-partidário" no Brasil, o que, segundo ele, "coloca em risco os laços históricos de fraternidade e cooperação estratégica entre ambas as nações".
"A preocupação torna-se ainda mais evidente ao considerar a importância estratégica que o Brasil possui para a Argentina, sendo o principal parceiro comercial do nosso país e o principal destino das exportações industriais argentinas", conclui Taiana. "Qualquer conduta que deteriore deliberadamente a relação bilateral compromete interesses econômicos, políticos e estratégicos permanentes da República Argentina."
Como noticiado pelo GLOBO, o episódio envolvendo Milei se seguiu após o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, manifestar pessoalmente o repúdio do Brasil ao embaixador argentino, Daniel Raimondi. Nos dias seguintes, integrantes da Esplanada dispararam ofensas contra Milei, que foi chamado de "palhaço" pelo titular da Fazenda, Dario Durigan.
Além da convocação de Raimondi, Vieira determinou que o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, retornasse ao Brasil para consultas, uma medida adotada em momentos de tensão diplomática. O Ministério das Relações Exteriores ressaltou, em nota, o ineditismo do comportamento do mandatário argentino.
“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, proferiu agressões e ofensas ao chefe de Estado, às instituições democráticas, incluindo o Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de uma nação com a qual o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial”, afirmou a pasta.
No evento de sábado, Milei comentou sobre as condições econômicas de seu país ao assumir o cargo, associando isso ao socialismo. Ele criticou o Foro de São Paulo, alegando que foi "criado por Lula da Silva e Fidel Castro, uma rede internacional chave para a disseminação do comunismo no continente".
— O que quero dizer é que o Brasil ainda não viveu as consequências mais nefastas e profundas deste modelo, mas pode vivê-las se não der uma volta de rumo. Confiamos em você, Flávio, para conseguir parar o socialismo — afirmou Milei.
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