Poder e Governo
Lula fez cartas e recebeu Haddad 21 vezes na prisão, mas não tinha condenação no STF e restrições como as de Bolsonaro
Detenção do petista se deu sem trânsito em julgado e numa cela da PF, enquanto Bolsonaro foi condenado no Supremo e está em domiciliar
Após uma nova restrição imposta pelo ministro Alexandre de Moraes, que proibiu visitas do presidente Flávio Bolsonaro (PL) ao pai, os aliados correram para comparar essa situação com a do presidente Lula (PT), que esteve preso pela Lava Jato. Na verdade, o petista utilizou a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba como espaço para sua construção política e para articular a candidatura à presidência em 2018, fazendo uso até de cartas.
As diferenças jurídicas entre os dois casos são notórias.
'Não passa no psicotécnico':
A prisão de Lula não foi fruto de um processo com trânsito em julgado. Naquela ocasião, permitiu-se a detenção após condenações em segunda instância, o que levou o petista a ser preso após ser condenado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) no caso do triplex do Guarujá.
Do dia da prisão, em abril de 2018, até o primeiro turno das eleições, Haddad esteve 21 vezes na cela de Lula, conforme levantamento realizado pela PF. Tal como Flávio Bolsonaro, Haddad também é advogado e, portanto, teve acesso livre ao ex-presidente em Curitiba. As conversas totalizaram cerca de 400 horas, de acordo com registros oficiais.
Lula manteve sua candidatura à Presidência até o limite legal. Quando este prazo foi mudado, formalizou suas substituições — amplamente divulgadas — através de uma carta escrita na cela, que foi lida em frente à superintendência por seus aliados. Na missiva, proclamava-se injustiçado e exaltava Haddad, pedindo votos para ele.
Na carta, escreveu: "Fui incluído artificialmente na Lei da Ficha Limpa para ser arbitrariamente arrancado da disputa eleitoral, mas não deixei que fizesse disto pretexto para aprisionar o futuro do Brasil. Nós já somos milhões de 'Lulas' e, de hoje em diante, Fernando Haddad será Lula para milhões de brasileiros."
Além de Haddad, diversas figuras do PT , políticos internacionais e artistas visitavam frequentemente o ex-presidente. Outro hábito de Lula foi a divulgação de cartas durante a Copa do Mundo de 2018, nas quais analisa os jogos da seleção brasileira. Ele, inclusive, defendeu Neymar em 2018, após alfinetá-lo nas edições de 2026 por ser o primeiro jogador “home office” em uma Copa.
Em janeiro de 2019, a juíza federal Carolina Lebbos Moura suportou as regras de visitação. Haddad, que antes tinha trânsito livre durante qualquer dia da semana, passou a poder visitá-lo apenas às quintas-feiras. Visitas de líderes religiosos também foram proibidas às segundas-feiras.
O professor da FGV Direito Rio, Thiago Bottino , comentou que as naturezas jurídicas das duas prisões são distintas.
— Trata-se de dois tipos diferentes de prisão. A natureza jurídica varia, e cada uma possui suas vantagens e vantagens. Lula não estava preso com trânsito em julgado e cumprindo pena — esclarece. — A comunicação com o mundo exterior é muito mais restrita em casos de condenações definitivas.
Descumprimento de
Bottino acrescenta que Bolsonaro descumpriu uma medida judicial relacionada à prisão domiciliar, que afeta diretamente as investigações em andamento, onde as redes sociais desempenham papel central.
— Quando um condenado é transferido para prisão domiciliar, as condições são condicionais, como o uso de monitoramento eletrônico. No caso de Bolsonaro, uma dessas condições foi a manifestação de manifestações em redes sociais, mesmo através de terceiros. Independentemente da decisão ter sido considerada “absurda” ou não, ela não pode ser ignorada — afirma. — Isso foi uma condição imposta justamente por ter ligação direta com as investigações.
A carta lida por Flávio em vídeo para as redes sociais, segundo o ministro Moraes, configura violação da medida imposta. Agora, o presidente está proibido de visitar o pai por 90 dias, o que significa que o encontro só ocorrerá após as eleições.
Entre os pontos ressaltados por Moraes, a afirmação de Flávio de que o texto seria “imperdível” e um recado “muito importante” do pai demonstrou que Bolsonaro estava ciente da divulgação nas redes.
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