Poder e Governo

Eduardo Cunha direciona emendas para cidades onde adquiriu rádios em Minas Gerais

Prefeitos atribuem recursos a indicação direta do ex-presidente da Câmara, que afirma ter feito apenas 'sugestões' a colegas de partido.

Agência O Globo - 14/07/2026

O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos-MG) direcionou emendas parlamentares, mesmo fora do mandato, para municípios onde vem instalando emissoras de rádio em Minas Gerais. As rádios fazem parte da estratégia de Cunha para se tornar conhecido no estado, onde deseja concorrer a deputado federal neste ano, após décadas de atuação política no Rio. Parte dos prefeitos que receberam os recursos, totalizando R$ 6,1 milhões de acordo com investigação da Polícia Federal (PF), atribuiu a indicação das emendas a Cunha ao divulgar o feito.

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A afirmação dos prefeitos contradiz a versão de Cunha, que alega ter feito apenas “sugestões” a parlamentares, aos quais caberia a decisão final sobre a alocação de recursos. Na segunda-feira, em entrevista à Rádio Maravilha — a mesma rede da qual é proprietário —, Cunha afirmou ter “sugerido ao partido algumas propostas de emendas” e que “o líder da bancada acolheu parte delas”.

A PF, no entanto, identificou Cunha como o “verdadeiro solicitante da indicação” de emendas para a saúde em 21 municípios mineiros no ano passado. De acordo com os investigadores, a inclusão de outros deputados como autores, nos registros oficiais da Câmara, buscava “escamotear o real interessado” e configura “fraude de encaminhamento”.

Um dos casos que expõe esse conflito de versões é o do prefeito de Varjão de Minas, Rafael de Toni (PL), que recebeu Cunha em um “encontro de lideranças” no município em outubro de 2025. Três dias antes, a Comissão de Saúde da Câmara havia apresentado uma emenda de R$ 590 mil para custeio da área de atenção primária de saúde do município, atribuída à “liderança do Republicanos” — exercida na ocasião pelo deputado federal Gilberto Abramo (MG), aliado de Cunha.

Posteriormente, ao divulgar uma lista de autores de “recursos conquistados” pelo município, o prefeito creditou Eduardo Cunha como autor da indicação dos R$ 590 mil. Com isso, Cunha figurou como o quinto maior responsável por destinar recursos para o município. Na lista, ele foi apresentado como “deputado federal (MDB-RJ)”, cargo que ocupou até ser cassado em 2016.

“Nosso agradecimento a todos os parlamentares que destinaram emendas a Varjão de Minas nos anos de 2025 e 2026”, escreveu o prefeito.

Procurada, a prefeitura de Varjão de Minas informou que se manifestaria por meio de nota, mas não retornou até o fechamento desta edição.

‘Articulação’

Em outro caso semelhante, revelado pelo portal “O Fator”, o presidente da Câmara de Vereadores de Piau, Mica Carvalho (MDB), afirmou que “juntamente com Eduardo Cunha” articulou o envio de R$ 300 mil para a saúde municipal. O vereador publicou um vídeo de agradecimento ao lado do prefeito Wander Loures (PP). Segundo a investigação da PF, o recurso foi chancelado pela Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados em dezembro.

Já em Guarani (MG), onde Cunha adquiriu uma de suas emissoras de rádio, o prefeito Emerson Patrick (Republicanos) publicou um vídeo, em dezembro, anunciando que o município “conseguiu uma emenda parlamentar (...) através da bancada mineira”, no valor de R$ 250 mil.

Embora o prefeito não cite Cunha, a emenda aparece em uma planilha encontrada pela PF que contém os R$ 6,1 milhões indicados pelo ex-presidente da Câmara. No ano passado, antes do envio da emenda, Cunha já havia adquirido a antiga Rádio Tropical FM 92,7 no município, rebatizando-a como Rádio Maravilha. A operação da rádio foi transferida posteriormente para Ubá, município da Zona da Mata mineira com 103 mil habitantes, dez vezes mais do que Guarani, e a apenas 45 quilômetros de distância.

Cunha adotou estratégia semelhante em outras regiões de Minas, adquirindo rádios em municípios pequenos para, em seguida, ampliar a transmissão para cidades maiores. Em Raul Soares (MG), outro município da Zona da Mata que recebeu R$ 472,9 mil em emenda no fim de 2025, Cunha comprou no mesmo ano a “Rádio Sociedade Entre Rios”, com o objetivo de expandir as operações para Ipatinga e Caratinga.

Procurado pelo GLOBO, Cunha afirmou que as emendas “não têm nada a ver” com a presença das rádios nesses municípios, e que já planejava transferir as emissoras para outras cidades antes de direcionar os recursos. O ex-deputado também reiterou que não fez “indicação, e sim sugestão”. Na decisão em que bloqueou R$ 6,1 milhões em bens de Cunha, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino entendeu que Cunha exercia “acentuada ingerência” sobre a verba “sem exercer mandato”.

— Não sou autor de emenda nenhuma, nem posso sê-lo. Sou parte da sociedade, assim como os prefeitos que me procuram e pedem recursos — argumentou Cunha, na segunda-feira, à rádio 98,7 de Belo Horizonte.