Poder e Governo
Paes e Ruas disputam prefeitos em meio a trocas de sigla e acusações de traições
Base partidária não cita apoio a pré-candidato do PL; defecções ocorrem por dificuldades de controlar máquina estadual.
Apesar de ter uma coligação que elegeu mais de metade dos 92 prefeitos do estado, o pré-candidato do PL ao governo do Rio, Douglas Ruas, enfrenta defecções em sua aliança. Isso acontece em meio a uma ofensiva do ex-prefeito da capital, Eduardo Paes (PSD), em municípios de pequeno e médio porte. A erosão do apoio a Ruas também se intensificou após a perda do controle da máquina estadual, ocorrida desde a renúncia do ex-governador Cláudio Castro, em março. Segundo especialistas, a disputa por prefeitos — que envolve mudanças de partido recentes — serve como um “termômetro” da corrida eleitoral fluminense.
Lauro Jardim:
Ex-secretário de Castro:
Paes, que tem investido em viagens pelo interior do estado desde que deixou a prefeitura do Rio, há quatro meses, filiou ao PSD em junho o prefeito de Arraial do Cabo, Marcelo Magno — que era do PL, partido de Ruas. Outro que deve se unir à sigla de Paes é o prefeito de Paraíba do Sul, Julio Canelinha (União), que foi visitado neste ano por Ruas.
Ruas contava em utilizar a base de 51 prefeitos eleitos pelo PL, União Brasil e PP, partidos que apoiam sua candidatura, para ganhar capilaridade no estado. No entanto, levantamento do GLOBO revela que, dos 49 gestores que permanecem nesses partidos, apenas 13 têm demonstrado apoio inequívoco a ele. Por outro lado, Paes já recebeu sinalizações públicas de apoio de ao menos 33 prefeitos de diferentes siglas.
— Quanto menor o município, mais próximo o prefeito tende a estar dos eleitores e maior é sua ascendência sobre eles. Esses apoios são um bom indicativo das expectativas de poder desses prefeitos, que tendem a evitar confrontos com o governo estadual — afirma Mayra Goulart, cientista política e professora da UFRJ.
'Momento'
Um dos prefeitos que optou por desembarcar da candidatura de Ruas a favor de Paes, Julio Canelinha, de Paraíba do Sul, afirma que se filiará ao PSD no próximo dia 31.
— Recebi aqui na cidade o Douglas (Ruas), mas o momento é do Eduardo (Paes). Ele tem demonstrado vontade de ser governador e se colocado à disposição para dialogar com o interior — declara.
Canelinha esteve em um encontro de prefeitos com Paes, no mês passado, organizado pelo ex-deputado André Ceciliano (PT). De acordo com participantes, a reunião contou com quase 40 gestores.
Na mesma semana, Ruas anunciou uma “reunião de alinhamento” com mais de 50 prefeitos na Assembleia Legislativa (Alerj), focada em gestores de PL, União e PP. Aliados do presidente da Alerj também tentam constranger prefeitos que optaram por apoiar Paes.
Um dos casos é o prefeito de Queimados, Glauco Kaizer (União), eleito em 2022 com o apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL). Sua esposa, Cristina Kaizer, se filiou ao PSD para concorrer à Alerj, em uma estratégia que se repete em outros municípios.
Após um evento dos Kaizer ao lado de Paes, em junho, o deputado estadual Alexandre Knoploch (PL) afirmou que o prefeito de Queimados possui “espírito de bom traidor” e ameaçou expor outros gestores em situações similares. Dentro do próprio PL, segundo o levantamento do GLOBO, dez dos 21 prefeitos da sigla não expressaram apoio a nenhum candidato nas redes sociais.
Bolas divididas
Para o cientista político Josué Medeiros, o fato de Ruas, mesmo presidindo a Alerj, não ter conseguido assumir o governo após a vacância de Castro contribuiu para “derreter” sua aliança. O Supremo Tribunal Federal (STF) bloqueou a tentativa da Alerj de eleger Ruas como governador-tampão.
— O capital político do governo não será transferido a Ruas. Isso abriu uma oportunidade para Paes, que está aproveitando muito bem — diz o professor da UFRJ.
Na busca por apoio, Paes visitou na última sexta-feira Campos dos Goytacazes, um dos maiores colégios eleitorais do estado, e posou com o prefeito Frederico Paes (MDB). Ele é aliado do ex-prefeito Wladimir Garotinho (PL), que se filiou ao partido de Ruas e é próximo ao ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos), que pretende concorrer ao governo.
Há também prefeitos que tentam manter as portas abertas com os dois lados. O prefeito de Quissamã, Marcelo Batista (PP), visitou o presidente da Alerj em abril e, posteriormente, recebeu agradecimento de Paes pela “recepção calorosa” em sua cidade. A prefeita de Silva Jardim, Maíra Figueiredo (MDB), acolheu Ruas em uma agenda política e, no dia seguinte, também recebeu Paes em seu gabinete.
*Estagiário sob supervisão de Fernanda Freitas
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