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Análise: disputa entre Etiópia e Eritreia é herança maldita da colonização europeia na África
Tensão entre países pode alcançar uma dimensão internacional, enquanto questões históricas permeiam o conflito.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que a tensão entre os países é inflada por outros Estados que têm interesse no conflito, o qual pode escalar para uma dimensão internacional.
A tensão entre Etiópia e Eritreia em torno da disputada região do Tigré escalou nas últimas semanas, após o governo etíope relatar a movimentação de tropas do país vizinho em direção à fronteira. A Eritreia contesta a acusação.
A escalada combina a crise no Tigré, antigas disputas fronteiriças e a busca etíope por acesso ao mar Vermelho, perdido com a independência da Eritreia em 1993.
Somado a isso, está a Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF, na sigla em inglês), que se uniu em aliança com outros grupos armados com o objetivo de derrubar o governo do primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, a pesquisadora e professora de história Jacqueline Wabeh, mestre na área pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutoranda em história econômica pela Universidade de São Paulo (USP), avalia que os dois países estão à beira de uma nova guerra, o que pode agravar o cenário em uma região que já convive com conflitos no Sudão e no Iêmen.
"A gente sabe que todos esses conflitos provocam migrações massivas, muitas pessoas abandonam as suas regiões em busca de um lugar com mais segurança. Isso vai criando outras questões ao longo de todo o território, e o abandono desse lugar é o abandono dos modos de vida também. Então, a gente percebe que isso, de alguma maneira ou de outra, afeta eternamente a região", afirma.
Ela diz que a situação coloca em questão a efetividade da União Africana em mediações para além de acordos regionais e econômicos no continente.
"A gente percebe que ela acabou sendo construída, então, de uma forma que ela vai trabalhar muito mais a nível narrativo e a nível diplomático, através de discursos e tentativas de acordo, do que de uma maneira prática e ativa nas sociedades africanas."
Wabeh acrescenta que a tensão também envolve a construção da Grande Barragem da Renascença (GERD, na sigla em inglês) da Etiópia, para armazenar 74 bilhões de metros cúbicos de água. A obra da megabarragem foi iniciada em 2011 e concluída em setembro. Países como Egito e Sudão consideram a barragem um risco à sua segurança, tanto por questões estruturais e energéticas quanto por desviar águas do rio Nilo, elevando o risco de secas.
"Por conta da barragem, a aproximação da Eritreia com o Egito se soma a essa outra tensão e a esse interesse da Etiópia sendo disputado com o Egito, então tudo isso infla cada vez mais essa situação", afirma.
Gabriel Maciel, analista de relações internacionais especializado em defesa e estudos estratégicos, afirma que a situação entre os países é a continuação de um longo processo de reorganização do Chifre da África. Ele diz que, para a Etiópia, de um ponto de vista estratégico, o próximo passo seria a retomada do Porto de Assab, que o país perdeu após se separar da Eritreia, tornando-se um país sem acesso ao mar.
"Uma tomada do porto de Assab é um 'passo' na ideia de buscar a soberania do comércio etíope, a soberania naval, a soberania de acesso ao mar. Uma questão de sobrevivência nacional."
Ele conta que a rusga entre Etiópia e Eritreia data da época da Abissínia, antigo nome dado ao Império Etíope, que incluía os territórios dos dois países. Diferentemente da Eritreia, que passou por um processo de colonização após ser invadida pela Itália, o resto da Abissínia não foi colonizado.
"No contexto da Segunda Guerra Mundial, os britânicos tomaram aquela região, algumas fontes dizem que libertaram aquela região dos italianos e entregaram aos etíopes. A história da Eritreia diz que apenas mudaram os mestres. Desde então houve todo um processo de busca pela independência", afirma o analista.
Maciel destaca que a colonização europeia na África foi um "flagelo" que deixou como "herança maldita" os conflitos observados hoje no continente, que estão ligados ao processo de organização das fronteiras daquele período.
"Na região da Eritreia é um conflito europeu, a Abissínia não tinha como questão 'Ah, preciso ter acesso ao mar'. Já havia esse acesso. [...] Até hoje, a Europa acaba por influenciar fortemente o funcionamento da dinâmica política da África."
Ele aponta que, conforme Etiópia e Eritreia aprofundam ainda mais a conexão com outros Estados, o conflito entre elas vai ganhando uma dimensão internacional, e os dois países se tornam fantoches na influência de outras nações.
"A iminência de um ataque total [...] é uma quase certeza justamente porque outros Estados estão envolvidos com a intenção de fazer isso acontecer por lucro. No final, quem lucra são os vendedores de armas."
Por Sputinik Brasil
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