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O verdadeiro motivo pelo qual os EUA têm medo do fim da hegemonia do dólar
Ascensão da economia chinesa, crises geopolíticas e iniciativas de países em lançar novas moedas para transações internacionais colocam em risco o papel do dólar como principal moeda de reserva, e como decorrência a sustentabilidade da própria economia dos Estados Unidos.
Em 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou-se publicamente contra a possibilidade do BRICS avançar na criação de uma moeda comum para transações internacionais.
A reação foi dura: Trump chegou a ameaçar os países-membros com sanções econômicas e retaliações comerciais caso a proposta saísse do papel, sinalizando que Washington enxergava a iniciativa não apenas como um debate técnico-financeiro, mas como um desafio direto à ordem econômica internacional liderada pelos Estados Unidos desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
O posicionamento, no entanto, não parece ser algo apenas do governo Trump. Reiteradamente esse e outros governos instalados na Casa Branca têm deixado claro que não pretendem permitir que o BRICS avance em políticas de desdolarização do comércio global
A explicação mais imediata e visível está ligada à perda de influência geopolítica: o dólar funciona como uma poderosa ferramenta de coerção econômica, permitindo aos EUA aplicar sanções, bloquear transações internacionais e pressionar governos adversários sem recorrer ao uso direto da força militar.
Ao reduzir a centralidade da moeda norte-americana, iniciativas de desdolarização enfraquecem esse instrumento estratégico e ampliam a margem de autonomia econômica e política dos países envolvidos.
No entanto, há um fator estrutural ainda mais profundo por trás dessa resistência. O papel hegemônico do dólar permite que o país financie déficits comerciais crônicos e uma dívida pública colossal, uma vez que o restante do mundo demanda dólares e títulos do Tesouro como reserva de valor.
Caso o dólar deixe de ser a principal moeda internacional para reservas e trocas globais, a própria sustentação da economia dos Estados Unidos entra em risco. Á Sputnik Brasil, o economista e professor livre-docente de Economia Internacional da Universidade de Campinas (Unicamp), Bruno de Conti, explica os mecanismos por trás dessa ligação.
Tudo se baseia nos títulos públicos norte-americanos, principal instrumento de financiamento da dívida pública de Washington. Segundo o especialista, eles são "o refúgio" da economia global em momentos de incerteza. "São o ativo financeiro com maior liquidez no mercado internacional."
"Isso faz com que, na prática, praticamente não haja limite para a possibilidade de expansão da dívida interna estadunidense. Eles podem emitir título público e sempre haverá demanda", explica de Conti.
Repetidamente na história, e bastante recentemente com a crise dos subprime de 2008, investidores e governos correram para comprar títulos públicos norte-americanos. "Veja que interessante, a crise nasceu nos Estados Unidos, mas todo mundo corre para colocar a capital lá, tira a capital da periferia e coloca a capital lá, porque eles são a âncora da riqueza financeira internacional."
Outro momento foi durante a pandemia de COVID-19, quando os Estados Unidos foram o país que mais ampliou sua dívida interna, isto é, denominada em sua própria moeda, o dólar, ao gastar de forma agressiva com políticas anticíclicas voltadas à contenção da recessão. Essa despreocupação com o crescimento da dívida está diretamente ligada ao papel do dólar como moeda global.
Isto porque como todos os países precisam de dólar para transacionar, é preciso manter uma boa reserva da moeda norte-americana. No entanto, em vez de deixar o dinheiro parado, ele é investido nos títulos públicos norte-americanos, retornando dólares ao Tesouro estadunidense e financiando mais uma rodada de dívidas.
Em estudo realizado com colegas da Unicamp, o economista aponta que, mesmo diante de um aumento expressivo do endividamento, as agências internacionais de avaliação de risco são tolerantes com os Estados Unidos.
"Os relatórios reconheciam que os Estados Unidos têm a moeda reserva do globo e, portanto, maior flexibilidade financeira e maior autonomia para aumentar a dívida", explica.
Contudo, sem essa posição privilegiada os Estados Unidos teriam dificuldades para rolar suas dívidas, e estariam mais constrangidos do ponto de vista da capacidade de endividamento, expondo as fragilidades de um modelo sustentado, em grande medida, pela centralidade global de sua moeda.
Além disso, como destaca Bruno de Conti, o país ficaria "mais sujeito à volatilidade dos fluxos de capital e, portanto, a uma maior volatilidade da taxa de câmbio". Atualmente, explica o economista, os Estados Unidos não precisam se preocupar com variações cambiais da mesma forma que outras economias, já que o comércio internacional é majoritariamente denominado em dólar.
Caso essa condição se alterasse e as transações passassem a ser feitas em outras moedas, o país teria de lidar diretamente com as flutuações do valor do dólar frente a moedas estrangeiras, introduzindo um elemento de instabilidade macroeconômica até então incomum para a economia norte-americana.
Agora, poderiam iniciativas do BRICS por si serem suficientes para destronar o dólar? Não necessariamente, sendo que a moeda americana continua, de longe, dominante na avaliação de de Conti. O economista diz que, embora louváveis as ideias do grupo, ainda são tímidas para tal ambição e que "poderia haver um pouco mais de ousadia". Ainda assim, ele ver movimentos no cenário internacional que já dão sinais de que o dólar está ameaçado.
"Primeiro, uma reconfiguração do papel ou do peso de distintas economias, sobretudo a ascensão da China; segundo, os conflitos geopolíticos crescentes e o uso do dólar e do sistema financeiro como uma arma de forma mais explicita pelos Estados Unidos; terceiro, cada vez mais países no mundo estão buscando reduzir sua dependência do dólar, do sistema monetário financeiro estadunidense e de plataformas de pagamento dos EUA".
"Trump, em julho [de 2025], declarou que perder a hegemonia do dólar seria como perder uma guerra mundial, o que mostra até onde ele está disposto a defender a hegemonia"
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