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Como o cinema brasileiro pode ser o novo 'cartão de visita' do Brasil

21/01/2026
Como o cinema brasileiro pode ser o novo 'cartão de visita' do Brasil
Foto: © Valter Campanato/Agência Brasil

Sucessos no exterior do audiovisual no Brasil podem mostrar uma maturidade cultural e engajamento democrático do país, mas o segmento só pode virar um recurso estratégico se consolidado como política de Estado, como fizeram os Estados Unidos e França.

O cinema brasileiro está vivendo sua "Era de Ouro": em 2025, o filme "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático – com a atuação de Fernanda Torres – e o Oscar de Melhor Filme Internacional – o primeiro prêmio da cerimônia conquistado pelo Brasil.

Em 2026, repetimos com dose em dobro na primeira cerimônia, com a vitória de "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, com o prêmio Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Ator em Filme Dramático, dessa vez com a atuação de Wagner Moura no longa-metragem. Além deles, outras produções estão alcançando festivais de cinema de Cannes, Berlim e Veneza, como "Manas", "O Último Azul" e "Baby".

O sucesso se consolida graças a iniciativas estruturadas, como o convênio "Cinema do Brasil", firmado entre ApexBrasil e o Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (SIAESP), que nos últimos dois anos ampliou a presença das empresas nacionais nos principais mercados e festivais internacionais.

Além do carnaval e do futebol, pode o cinema se tornar uma nova forma de soft power, promovendo a imagem do Brasil no exterior?

Brasil, país do cinema?

"Filmes como 'Ainda Estou Aqui' e 'O Agente Secreto' sinalizam uma mudança relevante na forma como o cinema brasileiro vem sendo percebido no exterior", segundo Luiz Fernando da Silva Jr., professor e supervisor do curso de graduação em Cinema e Audiovisual da ESPM-SP.

Em ambos os filmes são combinados temas universais – memória, violência política – com questões culturais. Essas narrativas, aponta, dialogam com o mercado global sem perder a identidade brasileira.

"Plataformas, festivais e premiações estão mais atentos a histórias que tragam autenticidade e diversidade, e o Brasil tem abundância disso."

"A força do audiovisual brasileiro está justamente na pluralidade, tais como: histórias que atravessam questões sociais, comédias populares, narrativas afro-brasileiras, produções indígenas, animações, documentários e, claro, filmes de forte conteúdo político. Essa diversidade reflete a complexidade do país e amplia o interesse internacional."

Complementando essa visão, Paola Gonçalves Rangel do Prado Juliano, doutora e professora do curso de relações internacionais da ESPM-SP, diz que o cinema pode apresentar o Brasil mais do que um destino turístico recheado de estereótipos culturais, mas um país com uma maturidade cultural e engajamento democrático.

"Abordar abertamente temas como o autoritarismo é importante, a meu ver, pois projeta o Brasil como um país que reflete sobre si mesmo e enfrenta os problemas do passado, apontando claramente erros que nossa sociedade não pode mais cometer", diz Rangel.

Cinema como política de Estado

Esse momento, pontua ontua Luiz Fernando, deve ser acompanhado de políticas que desenvolvam e e incentivem a produção audiovisual no país. "O Brasil tem talento, diversidade e capacidade técnica. Cabe seguir aproveitando tais avanços na percepção geral para estruturação e consolidação de política pública permanente."

"Países que desenvolveram seu cinema como vitrine global - tais como Estados Unidos, França e Coreia do Sul - assim fizeram porque tratam o audiovisual como política de Estado, com financiamento estável, regulação clara e visão estratégica de longo prazo."

Um exemplo de filme que se viu dificuldado por políticas de governo foi Marighella (2019), que ue conta a vida do guerrilheiro e dirigido por Wagner Moura. O longa teve sua estreia cancelada após a Ancine recusar dois recursos da produtora.

"O Brasil vive um cenário de alta polarização política, e isso afeta diretamente a recepção de obras que tratam de temas sensíveis", ressalta Luiz Fernando, dizendo que essa instabilidade impacta toda a cadeia do audiovisual, do desenvolvimento até a distribuição. Por outro lado, o Brasil tem um público historicamente interessado em narrativas que reflitam sua realidade social e política, ilustrado em "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto".

Embora reconheça que o fortalecimento do cinema político no Brasil se deve, em parte, uma resposta à polarização política atual, Rangel pontua que o engajamento político sempre foi um elemento central da produção cinematográfica brasileira, como "Terra em Transe" (1967) e "O que é Isso, Companheiro?" (1997).

"A polarização recente, entretanto, intensificou a necessidade de tratar certos temas de forma mais explícita e urgente. Diante desse histórico, considero que o cinema político não é apenas conjuntural, mas sim adaptável e atento ao contexto social e político em que vivemos."

Cinema do Sul Global

Fora dos circuitos tradicionais do cinema ocidental, o Brasil encontra oportunidades para projetar seu audiovisual em iniciativas como o Festival de Cinema do BRICS. Embora o reconhecimento nos grandes festivais internacionais continue sendo relevante, como aponta o professor, o eixo ocidental é marcado por uma competição intensa e pela hegemonia de grandes estúdios norte-americanos e europeus.

Nesse contexto, o fortalecimento do cinema entre os países do BRICS pode representar não apenas a ampliação de novos mercados, mas também a construção de uma autonomia simbólica e econômica por meio da cooperação cultural. "O Festival de Cinema do BRICS é um exemplo claro dessa estratégia: ele cria um ambiente de circulação, coprodução e visibilidade que favorece cinematografias que compartilham desafios e ambições semelhantes."

Luiz Fernando, contudo, lembra o ponto de transformar o audiovisual em política de Estado para consolidar essas oportunidades, citando a Índia, um dos países do BRICS, como um que criou sua própria "vitrine" com filmes de "Bollywood", a indústria cinematográfica indiana.

Na mesma linha, Rangel vê que há uma afinidade temática entre o cinema brasileiro e países do Sul Global, uma vez que estes países compartilham questões como desigualdade social, heranças coloniais, autoritarismo, pobreza urbana, entre outros desafios.

"Esses temas dialogam com experiências vividas na América Latina, na África e em partes da Ásia, o que pode gerar identificação e proximidade com esses públicos."


Por Sputinik Brasil