Finanças

Programa de renegociação de dívida Desenrola 3 não é prioridade para o Bradesco, diz CEO

Marcelo Noronha afirma que banco não vê mérito em ter alto engajamento nesta nova etapa do Desenrola

Agência O Globo - 23/10/2026
Programa de renegociação de dívida Desenrola 3 não é prioridade para o Bradesco, diz CEO
Programa de renegociação de dívida Desenrola 3 não é prioridade para o Bradesco, diz CEO - Foto: Douglas Júnior/Cortesia, via Iplam.

O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou que a participação da instituição na nova etapa do programa de renegociações de dívidas do governo federal, o Desenrola 3, não é prioridade, embora o banco esteja analisando a proposta. Diferente das etapas anteriores, em que o cidadão negociava diretamente com os credores, agora o governo realizará leilões para a compra de carteiras de dívidas em atraso de bancos, instituições financeiras e, futuramente, de empresas não bancárias. Segundo o executivo, a equipe de análise do Bradesco avaliou a proposta e não viu mérito em ter um alto engajamento no programa.

— Existem outras alternativas e dinâmicas do próprio mercado para lidar com a inadimplência, e o banco não tem buscado sequer a venda de carteiras podres como estratégia principal no momento — disse Noronha.

Ao ser questionado sobre os impactos do cenário eleitoral na curva de juros, Noronha assegurou que o ambiente político não altera os planos estratégicos do banco. Ele ressaltou que, se houver uma política fiscal bem ajustada no novo governo, a taxa de juros naturalmente convergirá para um patamar mais baixo no médio prazo.

— Juros baixos combinados com inflação sob controle criam um verdadeiro "vento de popa" para o país. Esse ambiente reduz o custo financeiro para famílias e empresas, estimulando investimentos de longo prazo, como projetos de infraestrutura que não suportam juros elevados. A taxa de juros real no Brasil atual é altíssima — afirmou.

O executivo avaliou que o mercado financeiro enfrentará uma pressão generalizada na inadimplência e no custo de crédito. A projeção de economistas de um crescimento do PIB de apenas 1% em 2027, combinada com o elevado comprometimento de renda das famílias, desenha um cenário mais severo para todo o setor, disse o presidente do Bradesco.

Noronha destacou que o fim da carência do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) e do Fundo Garantidor de Operações (FGO), linhas com garantia governamental, mexe com os índices de inadimplência. Com a perda de ritmo no setor agro, o banco optou por reduzir o apetite ao risco para pessoas físicas e pequenas e médias empresas rurais, concentrando suas operações em produtores de grande porte e com boas avaliações de crédito.

Diante do crescimento da inadimplência e do ambiente macroeconômico mais rígido, o Bradesco classifica o momento atual como um cenário desafiador, reforçando a necessidade de controle de despesas para assegurar o cumprimento de suas metas. Para mitigar os riscos do cenário macroeconômico no crédito, o Bradesco tem direcionado sua concessão para carteiras colateralizadas (com garantias), tais como crédito imobiliário, consignado e linhas com garantias governamentais.

Lucro de R$ 7,4 bilhões

No terceiro trimestre do ano, o Bradesco registrou lucro líquido consolidado de R$ 7,435 bilhões, representando um crescimento de 33,54% em relação ao mesmo período do ano anterior. A carteira de crédito expandida encerrou o trimestre acumulando R$ 1,15 trilhão, um avanço de 1,1% na comparação trimestral e de 11,1% em 12 meses.

A carteira de crédito para pessoas físicas atingiu R$ 484,9 bilhões. O crescimento anual em 12 meses dessa carteira desacelerou nos últimos trimestres, caindo de 13,8% em setembro de 2025 para 12,7% em dezembro passado, 9,5% em março passado, 8,4% em junho e atingindo 7,4% em setembro passado. Já para grandes empresas, a carteira de crédito alcançou R$ 392,2 bilhões, com alta de 14,8% na comparação anual.

A inadimplência subiu no período, com a taxa de atraso curto (15 a 90 dias) avançando de 4% em junho para 4,2% em setembro. As despesas com Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) subiram para R$ 8,48 bilhões (+24,80% na comparação anual), levando o custo de crédito anualizado a 3,7%.