Finanças
Guerras e eleição no Brasil elevam cautela para investimentos em infraestrutura; país precisa de mais de R$ 500 bilhões anuais para o setor
Dados constam da nova edição do Barômetro da Infraestrutura Brasileira, que aponta o setor de saneamento como o mais atrativo
O cenário geopolítico, como as eleições para presidente no horizonte, além de outros fatores de risco e de incerteza como juros elevados, inflação e reforma tributária — além do protecionismo comercial — reduziram a confiança das empresas para investir em infraestrutura. O otimismo dos investidores recuou de 54,2% para 37,8% , enquanto a avaliação desfavorável subiu de 20,4% para 30,9% . Ainda assim, o país registrou, no ano passado, o maior volume de investimentos da série histórica (iniciado em 2010), totalizando R$ 280,4 bilhões , sendo 80% da iniciativa privada.
Infraestrutura:
O país que queremos:
Esses dados constam do Barômetro da Infraestrutura Brasileira , levantamento semestral realizado pela EY-Parthenon, braço de estratégia e transações da consultoria EY, e pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) . O objetivo do trabalho é captar a opinião de gestores, investidores e especialistas sobre o ânimo para investir nesses projetos. Foram consultadas mais de 230 fontes .
Mesmo com número recorde, o barômetro da infraestrutura aponta que o Brasil ainda enfrentará um hiato anual de R$ 225 bilhões extras necessários para modernizar sua infraestrutura de forma adequada nos próximos dez anos. Na prática, seriam necessários mais de R$ 500 bilhões por ano para o setor.
— Existe uma queda significativa no otimismo, mas os números de investimento real continuam em patamares recordes. A instabilidade internacional é um fator central. O prolongamento dos conflitos no Oriente Médio gera incertezas sobre o preço do petróleo, combustíveis e fretes, afetando diretamente a logística e o custo dos insumos para o setor — explica Gustavo Gusmão , sócio da EY-Parthenon para Governo e Infraestrutura.
Além disso, o pesquisador aponta o protecionismo comercial, especialmente vindo dos EUA com a imposição de taxas ao Brasil, como um gerador de insegurança. O cenário eleitoral contribui para a percepção de que os próximos meses serão mais "inertes" em investimentos, tanto pela incerteza política quanto por questões legais que restringem o anúncio e a licitação de novos projetos nos próximos períodos às eleições. A cautela, diz ele, é reforçada pela combinação de inflação, juros elevados e as incertezas operacionais trazidas pela Reforma Tributária.
Sobre o futuro político, o estudo mostra que 43,9% dos entrevistados acreditam que uma vitória da oposição impactaria positivamente os investimentos. Já em um cenário de continuidade do governo atual, a viés de cautela permanece, com 31% prevenindo um impacto negativo no volume de investimentos.
Gusmão ressalta que, independentemente do vencedor, o mercado exige previsibilidade macroeconômica e sustentabilidade fiscal como condições essenciais para a expansão dos investimentos. Segundo ele, a trajetória de domínio do setor privado deve continuar aumentando, contrastando com o investimento público que, em termos nominais, hoje é inferior ao de 15 anos atrás. Mesmo com investidores mais cautelosos, Gusmão não viu uma queda substancial em nossos investimentos este ano. Ele lembra que o pipeline de projetos continua forte e muitos contratos já assinados estão entrando agora na fase efetiva de investimento.
Os setores que lideram o interesse e a alocação de recursos são saneamento básico ( 50,4% ), que precisa atingir as metas de universalização até 2033 (com 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto). Depois do saneamento, aparece o setor de rodovias ( 45,7% ), com foco na busca de soluções para viabilizar trechos de menor demanda e inovações como o free flow . Em terceiro lugar, aparece o setor de ferrovias ( 40,9% ), com projetos de concessão do governo federal que devem começar a sair do papel em breve, além das renovações de outorgas.
Estados são referência
De acordo com o levantamento, os estados são vistos como a principal referência na atração de investimentos porque têm sido mais explícitos em suas agendas de investimento privado, navegando bem entre os três modelos principais: concessões, Parcerias Público-Privadas (PPPs) e, em alguns casos, privatizações. Além disso, os estados recebem um apoio indireto fundamental do Governo Federal (via BNDES e Casa Civil) na estruturação de bons projetos, o que reforça a capacidade estadual de atrair parceiros privados.
Já os municípios são considerados o maior gargalo ( 74% de percepção de baixo aproveitamento).
— Existe uma dificuldade significativa relacionada à capacidade de recursos humanos para estruturar projetos complexos em nível local. Os municípios também enfrentam maiores limitações de recursos financeiros para viabilizar as contraprestações permitidas em modelos de PPP — explica Gusmão, lembrando, entretanto, que há uma "onda" de crescimento de concessões nos municípios em setores específicos, como iluminação pública, agora se expandindo para a infraestrutura social, como projetos de habitação, escolas e unidades de saúde.
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