Finanças
Pedidos de recuperação judicial no agronegócio sobem 21,9% no primeiro trimestre, diz Serasa Experian
Quadro de crise financeira, com custos em alta e receitas pressionadas, se mantém este ano
A crise financeira do agronegócio piorou no início deste ano: no primeiro trimestre, houve 474 pedidos de recuperação judicial de produtores rurais e empresas do setor, um salto de 21,9% em relação aos três primeiros meses de 2025, informou a consultoria de dados Serasa Experian .
Remediar, em vez de prevenir:
O movimento, que disparou de 2024 em diante, assola os produtores há duas safras.
Isso porque a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã levou ainda mais o custo dos insumos, como fertilizantes e combustíveis, que já vinham em alta, ao mesmo tempo em que as cotações de grãos como soja e milho estão pressionadas para baixo.
Tarifaço:
Mesmo que as fazendas colham mais grãos, o que sobra para o bolso do produtor mal fecha as contas.
Jurosglés atrapalham:
Os juros elevados também vêm na demanda, porque aumentaram os custos financeiros para os produtores, ressaltou o chefe da Serasa Experian , Marcelo Pimenta, em nota divulgada pela consultoria.
“O ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, continua afetando o fluxo de caixa no campo”, diz a nota.
Desconfiança fiscal:
Ainda assim, Pimenta ressaltou que os dados do primeiro trimestre não foram tão ruins quando os de meados do ano passado. No segundo trimestre de 2025, foram 565 pedidos de recuperação judicial. No terceiro trimestre, 628.
No ano passado como um todo, o número de pedidos de recuperação bateu o recorde desde que a Serasa Experian passou a monitorar os processos. Foram 1.990 pedidos, um salto de 56% em relação a 2024.
"Daqui para o meio e o fim do ano, a evolução do cenário dependerá da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições de renegociação dos compromissos. Por isso, reforçamos que renegociar e manter um planejamento financeiro deve ser prioridade, enquanto a recuperação judicial precisa permanecer como o último recurso", afirma Pimenta, na nota.
Trimestres com mais registros de 2021 e 2022 inteiros:
Mesmo com menos registros do que em meados do ano passado, os pedidos do primeiro trimestre deste ano superaram todos os que foram feitos em 2022 e em 2021, de janeiro a dezembro.
A partir de 2027:
— No fim das contas, o que vemos hoje é resultado de anos de pressão, desde 2022 — disse a advogada Natalia Yazbek , sócia da área de Reestruturação e Insolvência do escritório BMA .
Nos últimos anos, houve uma invasão da Ucrânia pela Rússia — a Ucrânia é importante produtora de fertilizantes —, uma quebra de safra por causa de problemas climáticos, aumento dos juros e queda nas cotações de grãos. A guerra no Irã foi o último capítulo do encarecimento de insumos.
O monitoramento da Serasa Experian considera pedidos de recuperação judicial tanto de produtores pessoais quanto de empresas agrícolas.
Perfil predominante:
Em maio, o gerente de soluções agro da consultoria, Dyego Santos , disse ao GLOBO que os casos típicos de pedidos de recuperação judicial envolvem grandes proprietários, que usam o aluguel de terras como modelo de expansão, têm uma produção muito técnica na soja e se individualizaram demais nas safras anteriores.
Enel SP:
Os dados dos pedidos de recuperação do primeiro trimestre sinalizam a continuidade dessa tendência.
Tanto que as empresas rurais registraram 196 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre, um salto de 73,5% na comparação anual. Já os produtores humanos fizeram 182, uma queda de 6,7% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
As empresas com atuação relacionada ao agro, como lojas de insumos, registraram 96 pedidos, um aumento de 18,5% na comparação com o primeiro trimestre de 2025.
Ainda assim, Natália, do BMA , vê uma queda no valor médio das dívidas incluídas nos pedidos de recuperação. É um sinal de que todo o setor, com produtores de todos os portes, está em apuros.
— Não é mais um interesse de grandes grupos, o problema vem descendo para produtores de menor porte — disse a advogada.
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