Finanças

Com guerra no Irã e tarifas americanas, exportação de petróleo do Brasil para a Ásia mais que dobra

Índia e Indonésia registraram mais de 100% de aumento na compra do óleo brasileiro. Continente dependia fortemente dos barris produzidos no Oriente Médio

Agência O Globo - 04/08/2026
Com guerra no Irã e tarifas americanas, exportação de petróleo do Brasil para a Ásia mais que dobra
Petróleo - Foto: Depositphotos

Enquanto as exportações de petróleo brasileiro cresceram 11,4% neste ano, alcançando 51,1 milhões de toneladas, quatro países da Ásia aumentaram de maneira expressiva seu apetite pelo óleo produzido aqui.

O movimento, que já vinha crescendo nos últimos anos, intensificou-se com o conflito no Oriente Médio. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a Índia foi o país que mais aumentou as compras do óleo brasileiro, com alta de 157% na primeira metade deste ano.

No Brasil, o segundo país que mais ampliou a compra do óleo brasileiro foi a Indonésia, com um avanço de 132%. Com a China, o maior parceiro comercial do Brasil e principal comprador do petróleo brasileiro, a alta foi de 41% no período, totalizando 27,9 milhões de toneladas. Esse número representa 54% de todo o óleo produzido aqui e enviado ao exterior.

Cingapura também expandiu em 28% a compra de petróleo brasileiro no primeiro semestre, alcançando 1,5 megatonelada. Foram US$ 18,7 bilhões em vendas de combustível para esses quatro países de janeiro a junho, ante US$ 10,88 bilhões no mesmo período do ano anterior, um avanço de 72%. Essa alta também foi provocada pela elevação na cotação da commodity.

— O crescimento das exportações brasileiras para a Ásia resulta da combinação entre a expansão da produção nacional, a busca asiática por maior diversificação de fornecedores e o aumento da importância da Índia como mercado importador, sem desconsiderar a relevância da China, que permanece como o principal destino do petróleo brasileiro — afirma Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE.

Com o avanço do preço do barril por conta da restrição de oferta, o valor exportado do óleo cru subiu de US$ 21,6 bilhões para US$ 27,9 bilhões nos seis primeiros meses de 2026, uma alta de 28%. No semestre, o óleo cru foi o segundo item mais exportado na balança comercial em valor, totalizando US$ 15,1 bilhões, ficando atrás apenas da soja, que somou US$ 20,2 bilhões em negócios.

Esse movimento deve se intensificar, avalia Hamad Hussain, analista de commodities da consultoria inglesa Capital Economics. Com o aumento na produção brasileira nos últimos anos, “é provável que uma parcela significativa dessa oferta adicional seja destinada a compradores na Ásia, onde a demanda por petróleo deverá crescer em ritmo mais acelerado do que na Europa e nos Estados Unidos”, disse ele.

Dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP) mostram que, em maio, o Brasil produziu 5,6 milhões de barris por dia, enquanto um ano antes o país extraía 4,7 milhões.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), a demanda de petróleo pela Ásia deve saltar de 38,9 milhões de barris por dia em 2025 para 40,7 milhões em 2030. Somente a Índia será responsável por um aumento de um milhão de barris por dia em consumo até o início da próxima década, afirma a IEA.

Mianmar, no Sudeste da Ásia, que não havia registrado compra de petróleo do Brasil neste século, importou 600 mil toneladas este ano. As Filipinas estavam desde 2020 sem adquirir o óleo brasileiro e compraram 72 mil toneladas neste ano.

O conflito no Golfo Pérsico explica esse movimento dos países asiáticos: 40% do petróleo consumido por eles vinham da região. O tarifaço do presidente americano Donald Trump também contribuiu, ao induzir os países a buscar a diversificação de seus parceiros, avalia Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX:

— Já havia um cenário em que o mercado asiático era um importante destino de exportação do óleo brasileiro, e essa tendência se ampliou com a interrupção do tráfego pelo Golfo Pérsico e pelas tarifas americanas — diz ele.

Nos seis primeiros meses do ano passado, os EUA eram o segundo principal comprador do óleo brasileiro, com 5,2 milhões de toneladas. Neste ano, o país foi ultrapassado pela Índia, e, com uma queda de 42,8% nas compras, somou apenas 2,97 milhões de toneladas entre janeiro e junho.

Cordeiro lembra que, após os EUA, os países que mais possuem potencial de refino são China, Índia, Japão e Coreia do Sul. As tarifas americanas, avalia Cordeiro, levaram os exportadores de petróleo brasileiros a procurar novos mercados:

— As tarifas geram incerteza regulatória. Quando olhamos os produtores brasileiros, eles preferem ter contratos firmados previsíveis, o que incentiva a venda para o mercado asiático. Por mais que, atualmente, haja isenção (dos EUA) sobre o petróleo brasileiro, essas incertezas regulatórias tornam desejável o escoamento para a Ásia e União Europeia — afirma o analista da StoneX.

O aumento das exportações brasileiras de petróleo não se restringiu aos asiáticos. França e Itália foram dois países europeus que também elevaram as compras do óleo bruto brasileiro. A França quase triplicou a importação do petróleo do Brasil, aumentando em 180%, totalizando 1,09 milhão de toneladas. Nos seis meses de 2025, o país havia comprado 390 mil toneladas de óleo brasileiro.

A Itália também aumentou em quase 50% suas importações do Brasil, chegando a 930 mil toneladas, ante 625,7 mil toneladas no primeiro semestre de 2025.

Para Pedro Rodrigues, da consultoria CBIE, esse crescimento do comércio com os países europeus também resulta “das condições de mercado, da demanda das refinarias e dos fluxos internacionais de comércio”.

Para a economista Iana Ferrão, do BTG Pactual, o aumento expressivo das exportações contribuiu para o superávit comercial da balança do país em junho, que registrou US$ 8,8 bilhões, um nível recorde para o mês.