Finanças

Mistura de 32% de etanol na gasolina: entenda quais carros podem ter o motor prejudicado com a medida

A partir deste sábado (dia 1º), gasolina passará a ter adicional de 32% de etanol, e não mais de 30% como era antes.

Agência O Globo - 01/08/2026
Mistura de 32% de etanol na gasolina: entenda quais carros podem ter o motor prejudicado com a medida
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A partir deste sábado (dia 1º), passa a valer o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, aprovado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) no mês passado. Essas mudanças trazem uma preocupação aos motoristas: qual é o impacto da nova composição da gasolina nos motores dos automóveis? A resposta para essa pergunta é: depende, principalmente, do modelo e da origem e fabricação do veículo.

Entenda o impacto possível no preço do combustível:

Gasolina com mais etanol:

Ainda assim, entidades dos setores de distribuição e importação de combustíveis manifestaram preocupação com o impacto da mudança nos motores sem estudos e testes técnicos anteriores, particularmente porque 15% da frota do país não tem motores flexíveis (que rodam com gasolina ou etanol).

Na avaliação do professor Marcio D'Agosto, docente da Coppe/UFRJ, a mudança não impacta a motorização nem o ritmo de manufaturas de carros fabricados no país. No entanto, ele afirma que donos de veículos importados podem sentir a diferença na hora de pisar no acelerador.

— No Brasil já há muita frota de veículos flex. Não há diferença por conta de tecnologia, mas, para os importados, sim, porque o poder calorífico do etanol é diferente — ele diz, relembrando o início da venda de veículos bicombustíveis (flex power) no início dos anos 2000 no Brasil e a consequente popularização do modelo.

Vale frisar que o governo já estudado aumenta ainda mais os percentuais do etanol na mistura, chegando a 35%. A medida terá validade de 180 dias, com possibilidade de prorrogação, uma única vez, pelo mesmo período.

E os usados?

A alteração não deve impactar os veículos seminovos, que já possuem a tecnologia flex popularizada lá atrás. D'Agosto diz que as montadoras de veículos que trazem seus carros produzidos lá fora ao mercado brasileiro já programam a combustão dos carros com algum nível de etanol, mas o aumento do percentual pode, sim, deixar o motor menos responsivo:

— Os motores dos carros importados são feitos para serem usados ​​com a gasolina nesses países. Os fabricantes que trazem esses carros até fazem alterações eletrônicas. Mas, com o aumento do percentual do etanol aqui, pode ser que haja perda no rendimento, já que ele tem poder calorífico menor — diz.

Percentual é bem mais baixo lá fora

Nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, o etanol também é utilizado como aditivo da gasolina, mas em percentuais bem menores do que no Brasil. Na Europa, é comum a utilização de gasolina com 5% ou 10% de teor de etanol. Nos EUA, também é habitual a adição de 10% à gasolina, enquanto no Japão o teor é de 3%.

Diferentemente do impacto na alteração do etanol nos motores dos veículos de passeio, D'Agosto vê uma alteração maior em eventual mudança no percentual de biodiesel no diesel, principalmente em caminhões antigos. Isso porque o biodiesel possui características solventes e de atração de água, promovendo uma "faxina" nos sistemas de alimentação, o que exigiria maior manutenção.

— Em caminhões antigos, você terá mais gastos com manutenção, mas não terá problemas mecânicos. Ao longo do tempo, esses veículos acumulam mais resíduos, e o biodiesel limpa isso, desincrustrando a sujeira. E aí terá maior necessidade de limpeza de bicos e no filtro de diesel — afirma ele, dizendo que veículos de carga mais novos já são desenvolvidos para a mistura.

Tanques de armazenamento de gasóleo, como em garagens e postos de combustíveis, também exigiriam maior manutenção, ele diz.

Associações críticas com mudanças

A Brasilcom, que representa o setor de distribuição, a Abicom (importadores), a Fecombustíveis (postos) e o SindTRR (transporte vendedor) manifestaram, em nota conjunta, preocupação com o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina sem a conclusão prévia dos estudos e testes técnicos necessários.

Segundo as entidades, a preocupação recai sobre os impactos potenciais na frota de veículos leves, já que, de acordo com as associações, cerca de 15% dos carros do país não são flexíveis. Citam ainda efeitos em embarcações de pequeno porte e motocicletas movidas exclusivamente a gasolina.

Gasto pode subir

Entre os possíveis reflexos estão alterações no desempenho, na durabilidade dos componentes e nos custos de manutenção, com impacto para os usuários desses veículos.

“O aumento da mistura de etanol anidro na gasolina acima dos atuais 30% também requer a realização de testes específicos para que se determine, com segurança, a sua previsão”, afirmaram.

As associações destacam ainda que, embora a adição de etanol na gasolina deva baratear o litro nas bombas, como o combustível da cana-de-açúcar tem menor densidade energética, o motorista poderá ter um gasto maior para percorrer a mesma distância. Precisará abastecer mais.

Além disso, lembra que o aumento da participação do etanol exige ajustes regulatórios nas especificações da gasolina, especialmente em relação à octanagem (índice que mede a resistência do combustível à detonação prematura e influência no desempenho do motor) e à massa específica, que corresponde à densidade do combustível.