Finanças
Atlas da Mobilidade Social: quase metade dos filhos dos 25% mais pobres não consegue deixar essa condição na vida adulta
Levantamento mostra que 48% dos nascidos nos lares que estão entre os 25% mais pobres permanecem nesta condição na vida adulta. E apenas 8,32% chegam ao quarto mais rico da população
“Apesar de tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. A canção de Belchior, conhecida na voz de Elis Regina, expressa a realidade de muitos brasileiros que, embora tenham conseguido alguma melhoria de renda em relação aos seus pais, pouco avançaram na distribuição econômica.
Entre aqueles que nasceram em famílias pertencentes aos 25% mais pobres do país, 48% continuam nessa mesma faixa de renda ao chegar à vida adulta. Dentre este grupo dos 48% , 23,97% permanecem ainda no grupo dos mais pobres, que está entre os 10% de lares com menor renda.
Os dados fazem parte da nova do Atlas da Mobilidade Social , uma plataforma pública e interativa desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Prospera Lab.
Mesmo entre os 52% que conseguiram ver avanços na renda, 73,83% ainda permanecem na metade da população com menor renda ao atingir a faixa dos 25 aos 29 anos — o que equivale a quase três em cada quatro.
Embora haja 73,76% de chance dos filhos das famílias mais pobres alcançarem uma posição de renda ou pelo menos 10% superior à dos pais, esse número não representa necessariamente uma grande ascensão social. Como o ponto de partida é muito baixo, esse avanço pode ser insuficiente para mudar de classe.
Além disso, as chances de alcançar o topo são significativamente menores. Apenas 8,32% conseguem chegar aos 25% mais ricos, e 1,28% passam a integrar o grupo dos 10% com maior renda do país. Para Fernando Veloso , diretor de pesquisa do IMDS, esses números indicam uma grande desigualdade de oportunidades no Brasil:
— Para que esse quadro mude de forma mais significativo, é necessário oferecer melhores oportunidades para os filhos de famílias mais pobres, como educação de qualidade e empregos com salários mais elevados. Também é necessário eliminar mecanismos que favoreçam a perpetuação das desigualdades, como privilégios e isenções tributárias que beneficiam os mais ricos — destacados.
No estudo, o grupo dos 25% mais pobres reúne famílias cuja renda domiciliar mensal — soma dos rendimentos recebidos por todos os moradores da casa — era de até R$ 2.183,41 , em valores de dezembro de 2019 . A metade de menor renda, para os filhos já adultos, inclui aqueles que receberam individualmente até R$ 1.641,34 por mês, entre os 25 e os 29 anos.
As chances já mudam para os jovens da classe média. Entre eles, 17,57% chegam aos 25% mais ricos na vida adulta, mais que o dobro da proporção registrada entre os filhos das famílias mais pobres, embora ainda não seja um número tão expressivo.
Já entre os filhos dos 25% mais ricos, 56,54% continuam no mesmo estrato na vida adulta. Além disso, 30,88% chegam ao grupo dos 10% com maior renda do país. Isso indica que, assim como as desigualdades, as vantagens econômicas também tendem a ser transmitidas de pais para filhos.
A classe média, segundo o Atlas, abrange famílias com renda domiciliar mensal entre R$ 2.183,41 e R$ 7.266,03 , em valores de 2019 . Eles estavam entre os percentis 26 e 75 da distribuição de renda.
O avanço entre gerações é limitado
A comparação entre diferentes gerações mostra uma pequena melhoria na mobilidade, mas a renda dos pais continua sendo determinante para o futuro dos filhos.
Entre os nascidos em famílias mais pobres de 1983 a 1987 , 7,9% chegaram ao grupo dos 25% mais ricos. Já na geração nascida entre 1988 e 1990 , a proporção subiu para 8,8% , uma diferença de 0,9 ponto percentual.
O avanço foi um pouco maior entre os jovens da classe média. A chance de alcançar o quarto mais rico da população passou de 16,6% na primeira geração para 18,6% na segunda, alta de 2 pontos percentuais.
O Atlas acompanha cerca de 7 milhões de brasileiros nascidos entre 1983 e 1990 . O levantamento compara a renda bruta média da família durante a infância e a adolescência com os resultados alcançados pelos filhos entre os 25 e os 29 anos, combinando registros administrativos e pesquisas domiciliares do IBGE .
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