Finanças

Desenrola 2.0 deve alcançar dez milhões de famílias e 'invadir' período eleitoral

Programa de negociação de dívidas será estendido até 31 de agosto

Agência O Globo - 29/07/2026
Desenrola 2.0 deve alcançar dez milhões de famílias e 'invadir' período eleitoral

O governo decidiu prorrogar a atual edição do programa Desenrola Brasil , de renegociação de dívidas bancárias. Lançado em maio, o Desenrola 2.0 tinha previsão original de encerramento no domingo (dia 2). Mas o ministro da Fazenda, Dario Durigan , confirmou que a iniciativa ocorrerá até 31 de agosto.

Dessa forma, o programa estará em vigor quando começar a campanha eleitoral, mais próximo da eleição.

A mudança de dados ocorre também no pedido dos bancos, que avaliam ter maior demanda. Segundo o ministro, a decisão não exigirá transportes no Fundo de Garantia de Operações ( FGO ), que cobre possíveis custos, nem terá novas restrições ou alterações:

— Esse prazo adicional vai ser importante, inclusive, para que as pessoas que hoje estão tendo de acessar os programas de moto, carro, para trocar a sua moto, o seu carro, possam resolver eventuais pendências anteriormente, que é usar o Desenrola , para depois se enquadrar nas condições para as operações de carro e moto e também poderem fazer jus a essas obrigações — afirmou o ministro.

Durigan faz referência ao Move Brasil , fora da medida no âmbito do pacote de estímulo e crédito do governo em ano eleitoral, que busca reaquecer a demanda e angariar apoio junto aos segmentos estratégicos.

Dez milhões de famílias

O ministro estima que, com a prorrogação, o governo deva atingir dez milhões de famílias beneficiadas.

O autônomo Guilherme Teixeira , de 25 anos, é um dos específicos. Após cinco meses de instabilidade financeira, ele recorreu ao cartão de crédito para pagar despesas do dia a dia. Com os juros, o valor da dívida cresceu e girou em torno de R$ 10 mil. Ele já tentou negociar com o banco, mas as taxas não eram atraentes.

— O endividamento é causado pelo desequilíbrio entre o que se ganha e o que se gasta para viver minimamente bem. Não faz sentido triplicar a dívida de quem não conseguiu honrar nem o valor original — disse Teixeira, que planeja reduzir o uso do cartão depois disso.

Até o último dia 23, foram renegociados no novo Desenrola R$ 22 bilhões em dívidas, num total de 3,6 milhões de operações. Após os descontos, o volume desses subsídios caiu para cerca de R$ 4 bilhões.

Os números são da vertente do programa para dívidas de pessoas físicas no cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal ( CDC ), contratados até 31 de janeiro de 2026 e com atraso entre 91 dias e 2 anos. Os participantes podem obter descontos de até 90% e taxas máximas de juros de 1,99% ao mês, com até 48 meses para pagar.

Uso do FGTS

O desenho prevê a possibilidade de utilização de parte do saldo do FGTS para amortização parcial ou quitação de dívidas, mas a opção está sendo pouco usada. Até o momento foram realizadas 110 mil operações, com valor de apenas R$ 62,2 milhões.

O Desenrola foi recriado em um contexto de alto comprometimento e alto comprometimento de renda das famílias, que, na visão do governo, estava gerando outros riscos para a economia no médio e longo prazos — e vinha impactando qualidades a popularidade presidencial.

A lógica do programa é que os bancos renegociem os subsídios e abram uma nova dívida, menor e com garantia do FGO , o que reduz o risco de inadimplência para as instituições, ao mesmo tempo em que, no médio prazo, recupera-se a capacidade de consumo das famílias.

Estatísticas de endividamento do Banco Central mostram que as dívidas exigem 30% da renda acumulada em 12 meses pelas famílias. Esse percentual se mantém praticamente no mesmo patamar desde o final de 2021, na métrica que desconsidera o crédito habitacional. E o juro alto pesa no orçamento.

“O histórico mostra que esse tipo de rompimento, isoladamente, não interrompeu o ciclo estrutural de individualização”, diz Flávio Ataliba , pesquisador do FGV Ibre .

Inadimplência do cartão de crédito

Uma das variáveis ​​desse quadro é a taxa de inadimplência do cartão de crédito entre pessoas físicas, que chegou a 63% em maio.

Para Fábio Bentes , economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) , as famílias acumularam muitas dívidas em cinco anos, período que inclui a fase da pandemia. O quadro, pondera, é de renda apertada, com parte do aumento real consumido pelos juros.

Bentes considera a prorrogação bem-vinda, mesmo com a percepção de que não ataca o cerne do problema, o juro alto. A taxa média de juros no crédito livre para as famílias supera 60% ao ano, maior patamar desde 2017.

— A pessoa adere ao programa e limpa a dívida, mas depois acaba pedindo um novo cartão e se pendurando em uma nova. O vetor da educação financeira é importante. Se o sujeito tem quatro ou cinco cartões, não tem Desenrola que dê jeito — afirmou.

Problema estrutural

Flávio Ataliba , pesquisador do FGV Ibre , diz que esta edição trouxe regras mais azeitadas e citações de descontos mais agressivos, veto ao uso de apostas e possibilidade de uso do saldo do FGTS . Segundo ele, o anúncio da prorrogação antes do fim do prazo do programa mostra que a equipe econômica conta com o Desenrola como parte da estratégia de sustentação do consumo no segundo semestre.

Mas ressalta que a medida não resolve o problema estrutural. A primeira edição do Desenrola negociou R$ 53 bilhões em dívidas entre junho de 2023 e maio de 2024.

— O histórico mostra que esse tipo de rompimento, isoladamente, não interrompeu o ciclo estrutural de individualização. Sem mudar os fatores que alimentam esse fluxo, como os juros do crédito rotativo, do cheque especial, do crédito pessoal e do crédito não consignado, além da própria Taxa Selic , o endividamento vai continuar elevado — disse.

O governo já criou uma versão do Desenrola para pessoas em dia com dívidas. Rejeitado pelos bancos privados, o programa não decolou. Mesmo os bancos públicos não estariam tão agressivos quanto o governo gostaria, disse um interlocutor ao GLOBO .

Na versão para as empresas, o programa já renegociou R$ 25 bilhões em dívidas, em um total de 200 mil operações. A maior parte foi via Pronampe , com R$ 23,4 bilhões.

*Estagiária, sob a supervisão de Danielle Nogueira