Finanças

Por que o Brasil está sendo taxado de novo? Entenda a tarifa de 12,5% que começa a valer hoje nos EUA

Governo americano alega que país falha em combater práticas de trabalho forçado nos setores produtivos

Agência O Globo - 24/07/2026

O Brasil tem sido um dos principais alvos das medidas protecionistas do presidente dos EUA, Donald Trump, desde o ano passado. Ontem, sob a alegação de que o país falha em combater práticas de trabalho forçado nos setores produtivos, a nova barreira tarifária foi implementada. Contudo, essa taxa se aplicará também a outras 59 economias do mundo.

Com taxa de até 12,5%, a nova tarifa foi estabelecida após as primeiras conclusões da investigação aberta especificamente sobre o Brasil em julho do ano passado pelo Escritório do Representante Especial de Comércio (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

Neste novo tarifaço, Brasil e outros 53 países tiveram seus produtos sobretaxados em 12,5%. Países como Canadá, Equador, União Europeia, Indonésia, México e Paquistão tiveram propostas com tarifas de 10%. Ao todo, 60 países foram investigados pelo USTR sob a acusação de negligenciar produtos gerados por trabalhos forçados, o que analistas interpretam como uma desculpa para reposicionar as tarifas criadas por Trump no ano passado e posteriormente derrubadas pela Suprema Corte.

Em uma semana, vários alvos: A nova rodada de tarifas que afeta o Brasil visa o mesmo que orienta a política comercial de Trump desde que ele assumiu a Casa Branca: reaver déficits comerciais, reindustrializar a economia americana, recuperar empregos nas fábricas e atrair investimentos para o país.

Entretanto, a trajetória até aqui foi marcada por mudanças nas alíquotas. A primeira taxa foi imposta em abril de 2025, com uma tarifa global de 10% sobre produtos adquiridos de outros países, incluindo o Brasil, com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).

Governo Lula reage a nova tarifa, e em julho os produtos importados do Brasil passaram a sofrer uma tarifa adicional de 40%, apesar de uma lista de isenções. Também nesse mês, o USTR abriu uma investigação sobre as práticas comerciais brasileiras sob a seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Após um encontro com o presidente Lula em novembro, Trump retirou a sobretaxa de 40% sobre produtos agrícolas exportados pelo Brasil, mantendo apenas os 10% globais.

Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas globais de 10%. Em resposta, o presidente americano instituiu uma tarifa básica de 10% amparada na Seção 122 da Lei de Comércio. Essa foi uma solução provisória, que não pode permanecer por mais de 150 dias sem prorrogação do Congresso e que expira nesta sexta-feira.

Para substituir essa medida temporária por algo mais duradouro, o governo americano abriu novas investigações comerciais com base na Seção 301 da Lei de Comércio. Uma delas está apurando as práticas de trabalho forçado em dezenas de economias, e é essa investigação que originou a tarifa de 12,5% imposta ao Brasil.

Duas investigações, duas alegações diferentes: As tarifas atualmente aplicadas ao Brasil surgem de investigações distintas. Os 25% em vigor desde o dia 22 resultam da investigação aberta em julho de 2025, que investigou supostas práticas desleais de comércio e avaliou se ações do governo brasileiro prejudicavam empresas americanas.

Apesar do tarifaço, a lista de produtos isentos é extensa: mais de 2.100 itens brasileiros ficaram de fora da nova taxa, incluindo carne bovina, suco de laranja e componentes para aeronaves, além de açaí e água de coco.

Os 12,5% recém-anunciados têm origem na investigação sobre trabalho forçado, que abrange 60 países. No caso brasileiro, o foco é em cinco produtos - alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco - supostamente importados entre 2021 e 2025 de nações com práticas trabalhistas questionáveis. Para o governo americano, essas importações mais baratas geram concorrência desleal com o mercado dos EUA.

Um embate politizado desde o início: As negociações entre Brasil e Estados Unidos têm sido tensas desde o início do processo. Em julho de 2025, quando a investigação foi aberta, Trump criticou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por se tornar réu em um processo de tentativa de golpe de Estado e classificou a investigação como uma 'caça às bruxas'.

No mês passado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho de Jair Bolsonaro, esteve nos Estados Unidos para participar de uma audiência pública do USTR e enviou um documento ao órgão americano pedindo que as tarifas fossem adiadas até depois das eleições brasileiras de outubro, argumentando que a medida favoreceria o presidente Lula.