Finanças

Janet Yellen prevê alta de juros do Fed e inflação elevada até 2027

Erosão gradual do dólar e desafios fiscais nos EUA são apontados pela ex-secretária do Tesouro.

Agência O Globo - 23/07/2026
Janet Yellen prevê alta de juros do Fed e inflação elevada até 2027
Janet Yellen - Foto: Reprodução / Internet

Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve, o Banco Central americano, afirmou nesta quinta-feira em São Paulo que acredita que a instituição está pronta para subir a taxa básica de juros. Durante o Expert XP, evento organizado pela XP, Yellen destacou a inteligência artificial como um novo fator de pressão inflacionária, além de mencionar a guerra contra o Irã e as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump em relação a outros países.

Ela argumentou que o avanço da tecnologia tem elevado a demanda por semicondutores e eletricidade, encarecendo esses insumos e afetando os preços ao longo da cadeia produtiva. A também ex-secretária do Tesouro dos EUA, no governo Joe Biden, avaliou que, junto a outros fatores, isso deverá fazer com que a inflação americana permaneça acima da meta do Fed (de 2%) por pelo menos dois anos, após cinco anos fora da meta.

— Agora que o impacto das tarifas está se dissipando, temos as seguidas rupturas no Oriente Médio. Parece haver uma extensão das hostilidades e um horizonte sem fim claro para a guerra. Portanto, é provável que exista um novo choque de oferta, resultando em inflação elevada por pelo menos o próximo ano ou mais — disse a economista. — Estamos, na verdade, revendo cinco anos ou mais de inflação significativamente acima do objetivo de 2% do Fed.

Yellen acrescentou que ainda não há evidências consistentes de ganhos relevantes de produtividade na economia americana em um todo, apesar dos impactos pontuais da IA em alguns setores.

Dólar mais coadjuvante no cenário global

No contexto global, Yellen observou uma erosão gradual do papel do dólar, que atualmente representa pouco mais de 50% das reservas internacionais, percentual inferior aos cerca de 70% registrados no passado. Ao mesmo tempo, a participação do ouro nas carteiras dos bancos centrais está em ascensão.

— O aumento do uso do ouro reflete em parte o desejo de ser menos dependente do dólar, uma vez que os EUA podem impor sanções. Contudo, atualmente, não há nenhuma moeda que possa substituir o dólar — afirmou a economista, uma das mais influentes e respeitadas do mundo.

Yellen também alertou sobre o problema fiscal enfrentado pelos EUA, o qual considera relevante, assim como em outras economias avançadas, incluindo Japão, países da União Europeia e Reino Unido:

— Nos EUA, a relação dívida/PIB está em cerca de 100%, um nível que no passado causou problemas para muitas economias. O que preocupa não é apenas a relação dívida/PIB, mas também o peso dos encargos com juros.

Segundo Yellen, há indícios de que a taxa de juros neutra (na qual a política monetária não exerce efeito contracionista ou expansionista) será mais alta do que antes da pandemia. Ela também elencou alguns fatores estruturais que poderão ampliar o déficit ao longo do tempo, especialmente o envelhecimento da população, que aumenta os gastos com previdência e saúde.

— É improvável que alguém se candidate na próxima eleição presidencial em 2028, seja do Partido Republicano ou Democrata, com uma agenda que imponha sacrifícios à população, em um momento em que as pessoas relatam que o custo de vida é seu maior problema. Não percebo um esforço significativo para lidar com isso, e a relação dívida/PIB pode aumentar ainda mais rapidamente. Em algum momento, os mercados prestarão atenção a isso, especialmente considerando que, segundo as tendências, os bancos centrais estão mantendo menos títulos do Tesouro dos EUA.