Curiosidades

Um maestro-psiquiatra que não trata a música como remédio

Com formação em medicina, o belga Philippe Herreweghe, que rege nesta segunda-feira (25) no Theatro Municipal do Rio, diz que compositores não se reduzem às suas biografias clínicas: 'A partitura não é uma confissão'

Agência O Globo - 25/05/2026
Um maestro-psiquiatra que não trata a música como remédio
Philippe Herreweghe

Há algo de irresistível na tentativa de apresentar Philippe Herreweghe como uma espécie rara de “psiquiatra da música”. O rótulo é sedutor: antes de se tornar um dos grandes nomes da regência europeia, o maestro belga de 79 anos formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria em Ghent. Depois, traçou uma trajetória estratégica na interpretação de Bach, apoiada pelos mestres da música antiga do porte de Gustav Leonhardt, que lhe concedeu reger as cantatas de Bach num projeto de gravação das obras do mestre de Eisenach, e Nikolaus Harnoncourt. Assim, fundou o Collegium Vocale Gent, a Orquestra de Champs Elysées e tornou-se referência numa abordagem em que a música vocal parece encantar toda a sua relação com a orquestra. A frase sinfônica, em suas mãos, respira, articula e, por fim, canta.

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Mas o próprio Herreweghe é o primeiro a desconfiar desse personagem “médico”. À frente da Orquestra de Champs Elysées (a primeira da França especializada em performances com instrumentos de época), com a qual se apresenta nesta segunda-feira (25) às 19h, no Theatro Municipal do Rio, na série Concertos Internacionais O GLOBO/Dellarte, ele evita fazer da medicina uma chave fácil para explicar a música.

A combinação entre Beethoven e Schubert no programa tornou quase acabou a pergunta sobre a saúde da alma. Beethoven, tantas vezes lido a partir da imagem do artista irascível e propositor musical de ideais tão revolucionários quanto fraternos; Schubert, frequentemente associado a uma melancolia profunda, a uma juventude cercada por doença, morte e uma forma quase confessional de lirismo. Herreweghe, no entanto, resiste à redução psicológica:

— A musicologia às vezes nos encorajava a ouvir a música quase como se fosse uma confissão psicológica. Isso pode ser redutor. Uma obra-prima não é simplesmente o sintoma de um transtorno de personalidade, nem a tradução direta do sofrimento em som — afirma ao GLOBO o maestro, que também se apresenta na quarta-feira (27), às 20h30, na Sala São Paulo, na série “Tucca — Música pela cura”.

Herreweghe não descartou as biografias clínicas dos compositores. Reconhecer que compreender, contradições e aspectos da vida de um criador pode ajudar a penetrar mais fundo numa partição. Mas estabelece um limite claro: “A partição não é uma confissão.”

'Hospitais de alma'

A mesma cautela aparece quando ele é provocado com a imagem das salas de concerto como “hospitais de alma”, como já foram descritas por alguns profissionais da música e do som, muitas vezes com a boa intenção de aplicação do investimento do poder público.

Herreweghe concorda apenas parcialmente quando o assunto é acústico, onde cada sala impõe desafios concretos de adaptação à orquestra. Mas aceita plenamente a ideia quando se fala da função mais ampla do espaço de concerto.

— Em tempos cada vez mais difíceis — diz o belga — as pessoas encontram ali uma pausa na vida diária, um descanso da pressa, uma forma de rompimento. A sala de concerto pode curar não porque se comporta como clínica, mas porque cria um lugar seguro para a escuta.

Mesmo assim, o maestro recusa para si o rótulo de “healer” (“curador”, no sentido medicinal):

— Fui um “curador” no passado, mas não posso aplicar isso à minha atividade musical. Seria ambicioso demais, talvez até um pouco perigoso.

Quando questionado sobre estudos contemporâneos que aproximam a música clássica e a saúde mental na proposição de uma função terapêutica — como os do neurocientista Daniel J. Levitin, autor de “A cura pela música” (Companhia das Letras), Herreweghe não é hostil. Consideramos essas pesquisas fascinantes, mas alertamos que “é preciso não confundir as consequências da música com sua essência”.

Herreweghe se incomoda com a ideia de que o bem-estar vindo da experiência musical justifica sua existência. Gostaria de viver num mundo em que a música clássica fosse vista como um hábito benéfico à saúde? Não de modo explícito, responda.

— O benefício será sempre consequência da alegria vivida pela experiência musical. Bach não compôs as Paixões para reduzir os níveis de cortisol.

Essa visão ajuda a também compreender sua leitura orquestral. A Sétima de Beethoven, muitas vezes ouvida como apoteose do ritmo, ganha uma pulsação mais orgânica e ênfase na articulação das melodias mais simples, como a do seu famoso Allegretto. A “Inacabada” de Schubert, compositor tão próximo do universo da canção, deve ser especialmente apreciada.

Diante dele, portanto, não estamos exatamente diante de um médico que viu na música a extensão utilitarista de seus diplomas. Trata-se de algo mais raro no mundo em que vivemos e pensamos em estruturas feitas para confirmar nossas visões: um músico que conhece a medicina sem proporção terapia musical e prefere preservar o rompimento das páginas que não precisam se justificar como remédio — exatamente como um grande maestro faria.