Curiosidades

Nova exposição do Masp tem Fusca 1989 'dissecado' e suspenso no ar

Mostra 'Materia e Energia' dedicada ao trabalho do mexicano Damián Ortega olha para uma série de materiais improváveis, como tortilhas e ferramentas, para buscar linguagens artísticas no cotidiano

Agência O Globo - 18/05/2026
Nova exposição do Masp tem Fusca 1989 'dissecado' e suspenso no ar
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O artista visual mexicano Damián Ortega, de 59 anos, comemora ao ver que seu trabalho é capaz de despertar expressões surpresas mesmo nos bastidores da montagem de sua primeira exposição panorâmica na América Latina. O artista ri, satisfeito, ao ver alguém arregalar os olhos ou abrir a boca em espanto a algum dos 35 trabalhos que estarão disponíveis para visitação até 13 de setembro no Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Há, é importante dizer, imagens que realmente chocam à primeira vista, caso da obra “Coisa Cósmica”, de 2002. Nela, um carro de modelo Fusca de 1989 é exibido suspenso no ar, por cabos de aço, que promove uma verdadeira dissecação de suas partes. A peça está localizada entre o primeiro e o segundo subsolo do prédio Lina (a sede mais antiga do museu). Por conta das rampas de acesso entre os andares, é possível observar a obra de arte de diversos ângulos e, inclusive, ver o carro de cima. Algo que era impossível nas galerias de piso único no qual a obra passou nos últimos 24 anos.

— É uma exposição muito importante para mim, emocionalmente e mentalmente. Porque há 35 anos eu vim ao Brasil como um mochileiro, ao lado de um amigo Argentino. Me apaixonei pelo país. Já em 2002, quando vendi essa obra (Coisa Cósmica), decidiu que teria que usar esse dinheiro para voltar ao Brasil, me senti em casa, protegido pelo povo — diz ele, que inclusive chegou a morar no Rio, no e em . — Vir ao Masp é bastante significativo.

A exposição, chamada de “Matéria e Energia” segue o passo do artista de 1992 até 2026 (as obras mais recentes são maquetes que refletem trabalhos passados). Nela, é possível ver o trabalho de reprodução de Damián, que se dedica ao mesmo tema por diversas vezes para experimentar releituras das próprias criações. Há, por exemplo, esculturas que são fotografadas (e as fotos vistas como obras de arte em si) ou então reproduzidas em escala menor. Isso com vários anos de separação entre as criações.

— Cada obra vem de uma genealogia, ela tem um gene. Então, ela dá origem a outra. É um histórico, cria-se uma relação das duas. Não existe esforço, vejo que uma chama pela outra — teoriza Damián. — Eu mesmo gosto de ser descoberto, então (em busca de materiais) eu visito lojas, viajo, procuro conhecer comida. É importante sempre estar receptivo.

A tal “receptividade” do artista inclui os mais diferentes materiais, até mesmo tortilhas de milho (que compõe uma escultura que também faz parte do acervo do museu Guggenheim em Nova York, mas há uma cópia expositiva no Masp). Diversas criações, porém, se baseiam na robustez do cimento (como “Conjunto habitacional. Habitantes da linguagem”, de 1999, em que o título da obra pode ser lido em letras de pedra. Outras miram, por exemplo, na fragilidade da cerâmica. É justamente esse material que são feitos como 150 releituras de garrafas de coca-cola desenhadas pelo artista (primeiro à mão e depois esculpidas), que compõem uma seleção de obras que estarão disponíveis para visitação no Masp.

— O Damián parte da ideia de escultura. Ele parte de um movimento que existe na arte contemporânea do México anos 1990. São artistas que pensam a arte tridimensional, mas a partir das imagens do cotidiano, do que estava ao seu redor. Do que a gente convive — afirma Yudi Rafael, curador assistente da mostra em sua primeira exposição no Masp. — Ele faz variações do mesmo tema. E seu trabalho pode ser visto menos de uma visão produtiva e mais de investigação, de experimentação. É também possível investigar quais narrativas fazem parte desses materiais (que ele usa). Existem ali histórias econômicas e sociais, por exemplo.

Um dos usos de materiais “cotidianos” mais visualmente impactantes da exibição está presente na obra “Controlador do universo, de 2007”, no qual centenas de ferramentas como cinzéis, níveis, alicates, martelos, são organizados numa espécie de explosão. O conjunto das peças, embora preso em fios de aço suspensos no ar, cria um aspecto violento, como se a qualquer momento um desses objetos pudesse atingir os visitantes.

— Dá a impressão de que as ferramentas estão avançando. A obra mostra praticamente um congelamento, a suspensão das coisas — diz o curador Yudi Rafael.

Passado o período no Masp, a mesa exposição será encaminhada para Santiago, no Centro Cultural Palacio de La Moneda. A equipe internacional colaborou no desenvolvimento do catálogo da exposição e fará uma versão em espanhol da publicação — no Brasil ele será editado em inglês e português.

Publicações, inclusive, são dos temas que interessam ao artista. Ele fundou em 2006, a editora Aliás, cuja função é traduzir e publicar textos de artistas contemporâneos em língua espanhola. Há brasileiros entre a lista de publicados, como Hélio Oiticica e Lygia Clark.

— O que me interessa no momento é trabalhar para recuperar a arte que recebi, como estudante. Naquela época havia um interesse mais intelectual, formal, acho que isso se perdeu nos dias de hoje por muitos motivos. Quero seguir trabalhando para isso — diz Damián. — Quero que a arte esteja num lugar que esteja vivo, coletivo, político, que seja uma manifestação cultural.