Curiosidades
Exposição com obras de mais de cem artistas celebra quatro décadas do Paço Imperial como centro cultural
Nomes ligados à história do prédio inaugurado em 1743 no Centro do Rio integram a coletiva 'Constelações'
Inaugurado em 1743 e uma referência da arquitetura colonial, o Paço Imperial marcou a história do país em diferentes momentos. Construída como residência dos governadores da Capitania do Rio de Janeiro, passou a casa de despachos do Vice-Rei, 20 anos mais tarde, com a mudança da sede do governo local de Salvador para a cidade e, com vinda da Coroa Portuguesa para o Brasil em 1808, foi promovida a Paço Real. De lá também foi proferida a sentença de morte de Tiradentes, em 1792, e de sua sacada D. Pedro I declarou em 9 de janeiro de 1822 que não retornaria a Portugal, dado que ficou conhecido como o Dia do Fico.
Nelson Félix
República de Veimar:
Há quatro décadas o espaço também passou a marcar a história das artes visuais brasileiras, com sua transformação em centro cultural. Após a Proclamação da República, em 1889, o Paço foi preso como outros bens da Família Imperial e transformado, inicialmente, na Agência Central dos Correios e Telégrafos. Tombado desde 1938, teve sua restauração realizada de 1983 a 1985, quando foi reinaugurado com sua finalidade atual. Nos últimos 40 anos, abrigou mostras e promoveu eventos que ajudaram a transformar as artes no Rio e no Brasil. Para celebrar essa trajetória, foi inaugurada no último dia 28 a coletiva “Constelações”, com cerca de 160 obras de mais de cem artistas, que fizeram parte dessa história. A exposição vai até 7 de junho.
Nomes de diferentes gerações, como Cildo Meireles, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Ivens Machado, Antonio Dias, Luiz Aquila, as Lygias (Clark e Pape), Angelo Venosa, Luiz Zerbini, Tunga, Iole de Freitas, Waltercio Caldas, Luiz Pizarro e Marcela Cantuária, que têm ligações como o espaço, foram selecionados pela curadoria de Claudia Saldanha (diretora da instituição de 2014) e Ivair Reinaldim para ocupar os 12 salões e os dois pátios internos. Realizada durante quase um ano, uma pesquisa anunciou obras de instituições parceiras, como o MAM do Rio, o Instituto Moreira Salles (IMS), o Museu Bispo do Rosário, os Museus Castro Maya e o Museu do Folclore, emprestados à coletiva.
— Procuramos não criar uma cronologia nem qualquer tipo de status, a ideia foi projetada para todo o mundo. Se relaciona com a própria atmosfera do Paço, que é um local muito democrático. Virou um ponto de encontro não só de artistas, de estudantes de arte, mas de um público bastante eclético. É onde um curador internacional vai estar junto do pipoqueiro, do vendedor de amendoim, que entra aqui e também vê as exposições. Um respiro no Centro da cidade — observa Claudia. — Tentamos recriar algumas obras como foram ilustrações, também o jardim do Burle Marx (da mostra do centenário do artista e paisagista, em 2008), no pátio principal.
A programação também contará com eventos, o exemplo do debate, neste sábado, às 15h, dos curadores com os ex-diretores do local Paulo Sérgio Duarte e Lauro Cavalcanti (atual Diretor da Casa Roberto Marinho), e a mostra da série de vídeos feitos pela Rio Arte sobre artistas como Amilcar de Castro, Anna Maria Maiolino e Antonio Manuel.
— A exposição celebra não apenas o Paço, mas esse projeto de centro cultural, que deu muito certo. Aqui começa esse corredor cultural, que se estenderia depois com a inauguração do CCBB, dos Correios, e hoje vai até os museus da Praça Mauá — destaques Reinaldim. — Isso influencia não só nas artes, mas na ocupação do Centro da cidade, mostrando que esse tipo de uso (para bens tombados) é o mais acertado.
Durante a montagem da exposição, mostramos obras recentes que trouxeram para a coletiva, inspiradas por uma viagem ao México. O artista de 83 anos fez seis indivíduos no Paço, a última delas no ano passado, “Panorama do Ateliê”, e preferiu participar da mostra com sua nova produção a exportar obras de carreira.
— Quando Claudia me fez o convite, a ideia inicial era trazer obras simbólicas, que passaram por outras exposições por aqui. Mas estou tão arrebatado por esses novos trabalhos que quiseram trazer obras inéditas, e ela topou — conta o pintor. — O Paço é um local muito interessante para expor e permitir diferentes configurações nas salas. Com a reforma e a transformação no centro cultural a arte poderia tomar e ocupar o antigo espaço real. E sem precisar dar nenhum tiro (risos).
O artista que teve quatro indivíduos no Paço, o professor da Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage Luiz Pizarro também acompanhava a instalação de suas obras na montagem. Para a coletiva, ele trouxe obras da década de 1990, com rendimento em parafina, já mostradas no centro cultural. Para o artista, que surgiu entre os nomes da, na EAV, o espaço foi importante para a consolidação da carreira.
— Venho muito durante as minhas exposições para observar o público. Vem muita gente jovem, que a gente não vê em outros locais. É um espaço acolhedor, gratuito, e recebe esse público que passa pelo Centro, que vai pegar ônibus, metrô ou barcas — comenta Pizarro. — Vem a turma da arte, os turistas, gente que está passando e descobre as exposições, tem de tudo. Vira uma grande praça ligada à Praça Quinze.
Embora programadas anteriormente sem estarem vinculadas ao coletivo “Constelações”, dois indivíduos, da mineira Niura Bellavinha e do , foram inaugurados na mesma data e se integraram às celebrações de quatro décadas de arte no Paço Imperial. No caso de “Toró”, com curadoria de Marcus Lontra, Rafael Peixoto e Viviane Matesco e ocupando duas salas (o Terreiro e o Terreirinho) com obras feitas com pigmentos naturais por Niura, criadas com terras, rejeitos minerais e poeira de meteoritos, a intervenção “Chorare pitangas” se relaciona à história local.
Já realizada no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, uma intervenção na fachada do Paço com tinta vermelha, que parece sangue a escorrer das janelas do andar superior, faz lembrar os relatórios de Tiradentes e as marcas da mineração na História do país.
— Tinha um trabalho semelhante no Museu da Inconfidência, que também já foi feito em uma cadeia. Quando a Coroa Portuguesa decreta a derrama, ampliando a tributação sobre os impostos do ouro que vinha de Minas, foi o estopim para a Conjuração Mineira. E tudo acaba com a execução de Tiradentes, com a ordem saindo daqui — observa Niura. — Gosto de fazer essas relações com os espaços, quero fazer também em prédios históricos de Salvador e Porto Alegre.
Já “O que sustenta”, de Marcelo Silveira, traz 50 obras da série “VARAS” (2021/2025), feitas a partir de madeiras recolhidas no espaço público e trabalhadas pelo artista, que ficam suspensas, presas ao teto por fios.
— Chamo é material de “madeira sem lei”, que são peças de jacarandá, imbuia, cedro, de móveis antigos que foram descartados. Na série, elas criam uma caligrafia suspensa no ar. E, quando chamamos esses tipos de madeira de lei, a “lei” era do Império, que instituía o que poderia ser usado ou não — explica Silveira.
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