Curiosidades
Formada a partir da amizade com artistas, coleção do crítico Roberto Pontual vai a leilão em Paris
Radicado na França até sua morte, em 1994, brasileiro assinou coluna no Jornal do Brasil e foi um dos primeiros a mapear a Geração 80
Autor do “Dicionário das artes plásticas no Brasil”, publicado pela Civilização Brasileira em 1969 e até hoje uma obra de referência nos estudos da área, Roberto Pontual (1939–1994) atuou na crítica, na curadaria e institucionalmente entre os anos 1960 e 1990, acompanhando atentamente a cena brasileira do período. Titular da coluna de artes visuais do Jornal do Brasil entre 1974 e 1980, nunca deixou de estar próximo ao que acontecia no circuito, mesmo após sua mudança para Paris em 1980, ano em que foi curador da delegação brasileira na Bienal de Veneza.
Na Fundação Magnani-Rocca, em Parma:
Em São Paulo:
A amizade e a proximidade com nomes como Glauco Rodrigues, Wanda Pimentel, Alair Gomes, Ione Saldanha, Carlos Scliar, Ivan Serpa e Paulo Roberto Leal (com quem foi casado) deu origem a um acervo afetivo, que pertence ao último companheiro de Pontual e seus herdeiros, o francês Vincent Wierink. Mais de três décadas após a morte do crítico — em 2 de maio de 1994, em decorrência da Aids — as 153 obras da coleção serão leiloadas nesta terça-feira (31), em Paris, depois de ficarem em exposição pública desde o último sábado, no Hôtel Drouot, um dos mais antigos mercados de pregões do mundo.
Com obras realizadas entre 1945 e 1994, o conjunto reunido por Pontual (que inclui ainda nomes como Antonio Bandeira, Di Cavalcanti, Franz Weissmann, Raymundo Colares, Frans Krajcberg, Cildo Meirelles e Anna Bella Geiger) foi formado a partir de presentes, trocas ou negociações com os artistas, em sua maioria, e ficou armazenado sob a guarda de Wierink desde a morte do companheiro.
— A maior parte das obras estava guardada, para mim era muito doloroso continuar convivendo com elas. Depois da perda do Roberto, eu precisei mudar de vida, trocar de apartamento, e os trabalhos foram arquivados — recorda Wierink. — Só a família e os amigos íntimos conheceram essas obras, que agora estão vindo para o público. De uma certa forma, eu mesmo estou redescobrindo várias delas, foi quase uma catarse para mim.
Wierink diz que o crítico não se via como colecionador, apesar de ser o próximo de vários deles. Publicou em 1976 o livro “Arte brasileira contemporânea. Coleção Gilberto Chateaubriand”, sendo o primeiro a escrever sobre o acervo do amigo, a partir do qual também especificações a exposição “Portraits of a country”, em Londres, em 1984.
— Ele tinha o mesmo hábito que o Gilberto, de frequentar os ateliês, passar tempo com os artistas, trocar ideias com eles. Acho que ele até atuou mais como um analista do que crítico, realmente gostava de ir muito a fundo no trabalho das pessoas — comente o viúvo. — O circuito também era completamente diferente do que é hoje, com os artistas brasileiros muito mais inseridos no mercado internacional. Acho que, na época, existia uma sensação de isolamento, de que o Brasil estava longe de tudo. Quando nos conhecemos, uma ligação para o Rio era caríssima, 20 francos por minuto, uma carta demorava dez dias. Hoje, quando se fala de Brasil, América Latina, a curiosidade é muito maior.
Reconhecido como um dos primeiros críticos a mapear a chamada Geração 80 — é dele o livro “Explode geração!”, lançado concomitantemente à —, Pontual manteve a rotina de trabalho até seus últimos dias, como lembra seus herdeiros.
— O Roberto tinha uma disciplina impressionante para o trabalho. Ele realmente foi até o fim das suas possibilidades. Um mês antes de morrer ainda estava pegando trem para assistir a uma conferência no Sul da França. Se não fosse sua morte precoce, ainda teria uma grande contribuição para as artes no Brasil — acredita Wierink. — Entre 1987, quando descobriu a doença, e 1992 ele viveu normalmente. Daí até 1994, senti mais os efeitos. Ele não quis contar a ninguém até quando pudesse, não queria que o tratassem diferente. Foi um segredo pesado para carregar. Acho que esse acervo também ajuda a contar essa belíssima história humana por trás das obras.
Mais lidas
-
1A CONTA NÃO FECHA
Pastor em Delmiro, salário em Maceió: folha aponta jornada de 40 horas a 290 km de distância na prefeitura de JHC/Cunha
-
2RODOVIAS
Obras da ponte entre Penedo (AL) e Neópolis (SE) avançam e ultrapassam 60% de execução
-
3SEGURANÇA PÚBLICA
Homem apontado como integrante de 'Equipe Caos' do CV no Morro do Fubá morre em confronto com PMs
-
4DESASTRE CLIMÁTICO.
Poderoso furacão Polo castiga a costa do México enquanto Nolo se dirige para o Havaí.
-
5
Vereadora eleita no Maranhão faz sexo dentro do Cartório