Curiosidades

Formada a partir da amizade com artistas, coleção do crítico Roberto Pontual vai a leilão em Paris

Radicado na França até sua morte, em 1994, brasileiro assinou coluna no Jornal do Brasil e foi um dos primeiros a mapear a Geração 80

Agência O Globo - 30/03/2026
Formada a partir da amizade com artistas, coleção do crítico Roberto Pontual vai a leilão em Paris
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Autor do “Dicionário das artes plásticas no Brasil”, publicado pela Civilização Brasileira em 1969 e até hoje uma obra de referência nos estudos da área, Roberto Pontual (1939–1994) atuou na crítica, na curadaria e institucionalmente entre os anos 1960 e 1990, acompanhando atentamente a cena brasileira do período. Titular da coluna de artes visuais do Jornal do Brasil entre 1974 e 1980, nunca deixou de estar próximo ao que acontecia no circuito, mesmo após sua mudança para Paris em 1980, ano em que foi curador da delegação brasileira na Bienal de Veneza.

Na Fundação Magnani-Rocca, em Parma:

Em São Paulo:

A amizade e a proximidade com nomes como Glauco Rodrigues, Wanda Pimentel, Alair Gomes, Ione Saldanha, Carlos Scliar, Ivan Serpa e Paulo Roberto Leal (com quem foi casado) deu origem a um acervo afetivo, que pertence ao último companheiro de Pontual e seus herdeiros, o francês Vincent Wierink. Mais de três décadas após a morte do crítico — em 2 de maio de 1994, em decorrência da Aids — as 153 obras da coleção serão leiloadas nesta terça-feira (31), em Paris, depois de ficarem em exposição pública desde o último sábado, no Hôtel Drouot, um dos mais antigos mercados de pregões do mundo.

Com obras realizadas entre 1945 e 1994, o conjunto reunido por Pontual (que inclui ainda nomes como Antonio Bandeira, Di Cavalcanti, Franz Weissmann, Raymundo Colares, Frans Krajcberg, Cildo Meirelles e Anna Bella Geiger) foi formado a partir de presentes, trocas ou negociações com os artistas, em sua maioria, e ficou armazenado sob a guarda de Wierink desde a morte do companheiro.

— A maior parte das obras estava guardada, para mim era muito doloroso continuar convivendo com elas. Depois da perda do Roberto, eu precisei mudar de vida, trocar de apartamento, e os trabalhos foram arquivados — recorda Wierink. — Só a família e os amigos íntimos conheceram essas obras, que agora estão vindo para o público. De uma certa forma, eu mesmo estou redescobrindo várias delas, foi quase uma catarse para mim.

Wierink diz que o crítico não se via como colecionador, apesar de ser o próximo de vários deles. Publicou em 1976 o livro “Arte brasileira contemporânea. Coleção Gilberto Chateaubriand”, sendo o primeiro a escrever sobre o acervo do amigo, a partir do qual também especificações a exposição “Portraits of a country”, em Londres, em 1984.

— Ele tinha o mesmo hábito que o Gilberto, de frequentar os ateliês, passar tempo com os artistas, trocar ideias com eles. Acho que ele até atuou mais como um analista do que crítico, realmente gostava de ir muito a fundo no trabalho das pessoas — comente o viúvo. — O circuito também era completamente diferente do que é hoje, com os artistas brasileiros muito mais inseridos no mercado internacional. Acho que, na época, existia uma sensação de isolamento, de que o Brasil estava longe de tudo. Quando nos conhecemos, uma ligação para o Rio era caríssima, 20 francos por minuto, uma carta demorava dez dias. Hoje, quando se fala de Brasil, América Latina, a curiosidade é muito maior.

Reconhecido como um dos primeiros críticos a mapear a chamada Geração 80 — é dele o livro “Explode geração!”, lançado concomitantemente à —, Pontual manteve a rotina de trabalho até seus últimos dias, como lembra seus herdeiros.

— O Roberto tinha uma disciplina impressionante para o trabalho. Ele realmente foi até o fim das suas possibilidades. Um mês antes de morrer ainda estava pegando trem para assistir a uma conferência no Sul da França. Se não fosse sua morte precoce, ainda teria uma grande contribuição para as artes no Brasil — acredita Wierink. — Entre 1987, quando descobriu a doença, e 1992 ele viveu normalmente. Daí até 1994, senti mais os efeitos. Ele não quis contar a ninguém até quando pudesse, não queria que o tratassem diferente. Foi um segredo pesado para carregar. Acho que esse acervo também ajuda a contar essa belíssima história humana por trás das obras.