Curiosidades

Tarô da era digital tem abordagem bem-humorada nas redes e consulta on-line com 'troca energética'

Nova geração de tarólogos prioriza autoconhecimento e quebra estereótipos: 'Não há mais aquela imagem nebulosa', diz tiktoker

Agência O Globo - 29/03/2026
Tarô da era digital tem abordagem bem-humorada nas redes e consulta on-line com 'troca energética'
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

De segunda a sexta-feira, às 19h, a taróloga gaúcha Cíntia Loureiro entra ao vivo em seu canal no YouTube. Com a ajuda de seu coapresentador, um pen drive falante animado digitalmente, ela mistura humor e leitura de cartas em um talk show interativo e leve, em que o destino dos ouvintes é revelado entre piadas e improvisos.

'2026 é o novo 2016':

Menos estímulo, mais prazer:

Cabelo roxo moderninho, fones azuis no estilo lofi girl nos ouvidos, Cíntia, de 41 anos, escapa do antigo estereótipo do místico profissional. Seu estúdio é sóbrio, com um desenho esotérico projetado numa tela preta atrás dela. A própria taróloga se apressa em desmistificar o cenário, enumerando no início da live os objetos que se encontram fora do quadro: uma boneca Barbie, um disco do , uma estátua da Deusa Tríplice e uma foto do seu gato Show de Bola.

— O programa não tem nenhuma obrigação de ser sério — explica a youtuber, apresentada pelo mascote como “a Ana Maria Braga do tarô”. — Quando você transforma o tarô em conteúdo, ele vira também uma experiência coletiva de diversão, que vai além do lado filosófico.

Ao longo do programa, os espectadores pedem que a taróloga tire dúvidas sobre dilemas sérios, triviais ou inusitados, como escolher entre comprar cerveja ou pão para o jantar.

— O tarólogo contemporâneo não precisa mais ter uma grande ligação mística ou espiritual para ler cartas — diz Cíntia. —Até porque é uma atividade muito mais relacionada à intuição e ao autoconhecimento.

TaroTok

O programa de Cíntia é um exemplo de como a internet não apenas ampliou, mas transformou o modo como o tarô circula e é consumido hoje. De um lado, cursos on-line ajudam a formar mais tarólogos. Do outro, o farto conteúdo produzido nas redes difundiu a prática para além de círculos restritos. Tarólogos que atuam como influenciadores se multiplicaram nas plataformas digitais. No , a prática virou trend e ganhou até uma comunidade própria, o TaroTok, que reúne mais de 1,2 milhão de publicações.

A consulta, que antes exigia deslocamento e acontecia em meio a rituais, agora cabe na tela do celular. Pode surgir em uma live, em um vídeo curto ou em dinâmicas interativas.

— Não há mais aquela reverência e solenidade com o tarólogo, porque a atividade está mais banalizada, no bom sentido da palavra — observa a atriz e taróloga Yasmin Gomlevsky, que além de suas performances nos palcos e nas telas mantém uma página no (@chamaacesatarot) dedicada à leitura das cartas. — Hoje, o tarólogo pode ser seu vizinho, seu amigo, seu colega de faculdade.

Outra percepção

No ambiente concorrido do algoritmo, postagens bem-humoradas ajudam a capturar a atenção para o seu trabalho, mas também a mudar a percepção sobre o tarólogo, que continua oferecendo consultas particulares, mas agora de forma remota para seus seguidores espalhados pelo país.

— Por muito tempo, tarólogos eram vistos como figuras distantes, quase intocáveis, cercadas de medo e julgamento — diz a taróloga e produtora de conteúdo brasiliense Victoria Bertolli, conhecida como @abruxatarot no TikTok. — Quando você usa humor, mostra que existe uma pessoa real ali e ajuda a quebrar esse estereótipo.

Para a carioca Mirra Mattos, uma taróloga com mais de 17 mil seguidores no Tiktok e 114 mil no Instagram, as redes sociais estão “desmarginalizando” a profissão.

— Hoje não existe mais aquela a imagem nebulosa de uma pessoa que trabalhava quase que em segredo em um fundo de quintal, e divulgava seu trabalho em lambe-lambe nos postes espalhados pela cidade — diz Mattos.

A abordagem moderna de Mattos, porém, encontra resistência entre a ala mais conservadora do tarô. Há três anos, a influencer criou o movimento "Tarot Livre" para se opor a "onda de hate" que estava recebendo. Em seu perfil no Tiktok, ela grava vídeos confrontando tabus como "não pode jogar tarô de biquíni".

Polêmicas à parte, Mattos explica que seus seguidores buscam no tarô um resultado mais terapêutico do que adivinhatório. As cartas são vistas como uma ferramenta de bem-estar, orientação e consciência.

— A prática segue presente entre as pessoas místicas e esotéricas, mas hoje vemos pessoas de todos os tipos utilizando o tarô como uma ferramenta de autoconhecimento — diz Mattos. — Os clientes de hoje em dia vêm muito mais preparados com relação ao que esperar de um atendimento.

Tudo é energia?

No mundo do tarô, nem todo mundo vê de forma positiva a transição para o on-line. Como a atividade envolve “energia”, parte da velha guarda se mantém fiel às consultas presenciais e crítica a exploração digital.

— A energia não está limitada ao físico — contrapõe Victoria Bertolli. — A conexão acontece na intenção, independentemente da distância. As pessoas associavam ao presencial porque estavam focadas no corpo físico.

Por muito tempo, o vidente, cartomante, astrólogo e numerólogo Pedro Baldansa fez parte do time dos céticos. Quando veio a pandemia, passou a testar atendimentos e conteúdos on-line e mudou de lado. Hoje, aos 28 anos, tem um canal de YouTube com mais de três mil vídeos e quase 140 mil inscritos. Sua projeção nacional foi em 2024, quando teria previsto a morte de em um de seus vídeos. Suas consultas particulares também são quase todas remotas.

— Apesar de trabalhar com espiritualidade, sou muito cético, preciso ver para crer — diz Baldansa, que lançou o livro “Os caminhos da prosperidade” (VR Editora), no qual reúne práticas energéticas, simpatias, orações, rituais e exercícios para “alinhar o pensamento”. — O virtual dá certo, porque é uma troca, mesmo à distância. Quando você passa seu telefone para alguém, já é uma troca energética. Tem gente que me procura às vezes para fazer previsão de ator de novela turca ou sul-coreana. Eu respondo e o negócio acontece!

Visão realista

No YouTube, Baldansa dá conselhos semanais, faz lives com perguntas e dá previsões sobre todos os assuntos, de celebridades à política internacional. Estudante de Ciências Políticas, ele já gravou vídeos indicando como prevê os próximos passos do ataque de ao Irã, o futuro do ministro no STF e os desafios do governo .

— As pessoas estão desesperadas por informação — diz o vidente, que trabalha com espiritualidade desde os 14 anos. — Às vezes, você tropeça na rua e acha que é o fim do mundo. As pessoas estão muito assim, acham que uma coisa pequena leva a um efeito em cadeia gigante. Tento trazer uma visão realista das coisas, tranquilizar, tirar o medo. Como profissional da área da espiritualidade, é meio que a minha missão trazer um pouco de alento, de serenidade.

A popularidade do tarô também se reflete na cultura pop. O universo está presente em dois lançamentos recentes: a fantasia “Torneios do Tarot” (Seguinte) e a romantasia “Academia Arcana” (Arqueiro). As cartas inspiram o sistema de magia que organiza as histórias.

— O tarô é um sistema muito interessante para construir mundos porque oferece algo familiar ao leitor — diz a americana Elise Kova, autora de “Academia Arcana” . — Quando a pessoa reconhece um elemento, o universo da história se torna mais acessível. Meu livro tem dois tipos de leitores: os que já gostam de tarô e os que não conhecem. O melhor retorno é quando ambos dizem que a história é divertida.

Se a democratização digital abriu portas, criou um terreno fértil para a desinformação e golpes, ligando o sinal de alerta entre os próprios tarólogos. Nas redes de visualização rápida, como o TikTok, influencers tentam usar o “acaso” do algoritmo (que na prática nada tem de aleatório) como oráculo, com o feed determinando o destino. Com isso, sugerem que, se determinado vídeo chegou ao usuário, é porque há um recado importante nele.

Leitura com carta de UNO

Em um de seus vídeos recentes, Mirra Mattos lamentou que plataformas estejam enquadrando o conteúdo de tarô na mesma categoria de cassinos virtuais.

— Acredito que essa movimentação seja devido ao número crescente de golpes de atendimento no TikTok — diz a taróloga. — Contas inocentes foram derrubadas pela plataforma. Não concordo com o enquadramento como jogo de azar, é uma prática de autoconhecimento.

Outra preocupação é a falta de preparo. Com a facilidade de criar um perfil, uma onda de tarólogos, cartomantes e outros oraculistas improvisados teria tomado conta das plataformas.

— É uma coisa boa que as pessoas jovens tenham conhecido? É, mas acaba sendo preocupante também — diz uma cartomante paulista de 17 anos, conhecida no Tiktok pelo perfil @axeletisia. — Sei que também sou jovem e por isso suspeita para falar, mas é um problema ver pessoas de 12 e 13 anos com pouco conhecimento se dizendo cartomantes, porque isso afeta a vida de quem se consulta. Tem gente usando o ChatGPT para ler carta ou aprendendo em PDFs suspeitos e aleatórios. Já vi até quem use baralho de UNO para fazer leitura.