Curiosidades
Em filme sobre julgamentos históricos, diretor de 'Nuremberg' mostra lado traiçoeiro do mal: 'Não se parece com Darth Vader'
James Vanderbilt dirige longa com Russell Crowe, que estreia nesta quinta-feira (26)
Sete décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, o diretor James Vanderbilt volta a um dos episódios mais emblemáticos do conflito em "Nuremberg", que estreia nos cinemas brasileiros em 26 de março.
O longa tem como pano de fundo a série de julgamentos militares que mudaram o conceito de justiça internacional e condenaram diversos líderes nazistas entre 1945 e 1946. Roteirista de filmes como "Zodíaco" e "O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro", Vanderbilt se interessa pelos bastidores do processo. O filme se baseia em um livro de Jack El-Hai , que recupera a relação do líder nazista Hermann Göring (Russell Crowe) com o psiquiatra americano Douglas Kelley (Rami Malek).
Responsável por avaliar o aspecto psicológico dos réus, Kelley ficou frente a frente com algumas das mentes mais perversas do regime nazista. O elenco ainda traz Michael Shannon no papel do promotor Robert Jackson, um dos idealizadores de Nuremberg.
Ao acompanhar as sessões marcadas por fascínio e desconfiança mútua, o filme mostra como o mal pode se apresentar de forma racional e sedutora. Em entrevista ao GLOBO por videoconferência, James Vanderbilt comenta a dificuldade em abordar personagens responsáveis por crimes extremos.
"Nuremberg" revisita um episódio histórico que moldou a forma como o mundo pensa a justiça. Por que voltar aos julgamentos agora?
Na verdade, foi um caminho longo até chegar às telas. Começou há cerca de 13 anos. Eu li a premissa de cinco páginas de Jack El-Hai — ele nem tinha escrito o livro ainda. E ali estava a história da relação entre Douglas Kelley e Hermann Göring. Era uma história que eu nunca tinha ouvido antes, e achei que era uma forma muito interessante de entrar no contexto mais amplo dos Julgamentos de Nuremberg. O Dr. Kelley está tentando entender a natureza do mal, como seres humanos foram capazes de cometer crimes assim. E isso, para mim, era uma questão fascinante. Eu também gosto muito de histórias reais que a gente não ouviu mil vezes, as notas de rodapé de grandes eventos históricos. Foi isso que me atraiu inicialmente.
Muitas pessoas seguem se perguntando ainda hoje como os horrores do Holocausto foram possíveis. Ao rever os julgamentos, é possível entender melhor a mentalidade que levou pessoas a normalizar esse tipo de ação?
Exatamente. Eu tenho 50 anos, e, quando eu crescia, aquele período ainda parecia muito tangível. Meus avós lutaram na Segunda Guerra Mundial, e eu cresci ouvindo histórias daquela época. Então, mesmo sem ter vivido aquilo, parecia algo próximo. Mas, quando eu falo com meus filhos sobre a guerra ou os julgamentos, é como falar da Revolução Americana. Parece muito distante da experiência deles, e isso é natural. O tempo passa. Uma das coisas que tentamos fazer com o filme foi justamente tornar esse passado vivo de novo, especialmente para o público mais jovem, ajudar a entender a natureza daquele mal.
Nuremberg ainda funciona como um modelo útil para pensar a justiça internacional hoje?
Acho que foi o primeiro grande modelo. Se ainda funciona ou não, talvez seja uma pergunta para pessoas mais qualificadas do que eu. Mas foi a primeira vez que vários países se reuniram para julgar indivíduos por crimes de guerra. E isso exigiu uma cooperação enorme. Inclusive dentro do Exército dos Estados Unidos, havia quem simplesmente preferisse executar esses homens, sem julgamento. Mas Robert Jackson, personagem do Michael Shannon, e outros insistiram: precisamos fazer isso da maneira certa. Caso contrário, corremos o risco de transformá-los em mártires. E isso seria o pior possível.
Kelley tem um conflito: ele precisa se aproximar de Göring, entender sua mente, mas pode ser manipulado nesse processo. Em algum momento, você temeu tornar o personagem de Hermann Göring simpático demais? Como retratar de forma equilibrada uma figura tão carismático quanto perversa?
É uma ótima pergunta, e discutimos muito isso antes das filmagens. Nos perguntávamos se, ao humanizar Göring, não estávamos o aproximando demais do público. Mas, para mim, isso é justamente o que torna tudo mais assustador. A ideia de que alguém pode amar a família como nós amamos e ainda assim ser capaz desses crimes é muito mais perturbadora do que um vilão unidimensional. O mal é insidioso. Ele não se parece com o Darth Vader. Não se anuncia. Pode ser charmoso, engraçado, carismático, tudo aquilo que o Göring era. Se reduzirmos essas pessoas a caricaturas, corremos o risco de não entender como algo assim realmente acontece.
Tanto no filme quanto na vida real, Kelley sai emocionalmente abalado dessa experiência. Encarar o mal de frente, mesmo em nome da justiça, cobra um preço inevitável?
Acho que isso é absolutamente verdade. Ninguém atravessa uma guerra ou um conflito desses sem ser afetado. Muitas pessoas voltaram profundamente marcadas pelo que viram, pelo que fizeram, pelo que sofreram. Mas, ao mesmo tempo, acho que os Julgamentos de Nuremberg foram, em essência, um ato positivo. Existe algo de esperançoso no fato de que pessoas de diferentes países tenham se reunido e escolhido a justiça em vez da vingança, especialmente após o conflito mais sangrento da história.
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