Curiosidades
Com muita história para contar (e tocar), Dadi Carvalho, Arnaldo Brandão e Vinicius Cantuária criam Uma Outra Banda
Músicos que tocaram com um time que vai de Caetano Veloso e Mick Jagger a Jorge Ben Jor e David Byrne se unem no palco para relembrar sucessos deles e de quem tocou com eles
É para falar dos Rolling Stones? Um deles, Dadi Carvalho, gravou com no Rio. Outro, Arnaldo Brandão, morou com o ex-guitarrista Mick Taylor em Londres (“Eu dizia: 'Não sai da banda, cara, ela só trabalha seis meses por ano, nos outros você grava o seu disco solo!'”, conta, entre risos).
Fagner quase enlouquece produtor de seu disco de bossa nova:
Documentário:
Memórias muito rock'n'roll dos anos 1970, que os dois baixistas partilharam, entre café e bolo, numa tarde de ensaios de Uma Outra Banda, o trio que se formou com o cantor Vinicius Cantuária e que estreia esta quinta-feira, em show no Manouche, no Jóquei Clube, na Zona Sul do Rio.
Os violões, com que pensei inicialmente o projeto, viraram guitarras. O sonho é que, num estágio mais avançado, surjam baixo e bateria, para lembrar as levadas dos tempos em que acompanhavam artistas como (Arnaldo e Vinicius foram d'A Outra Banda da Terra).
Pode bem ser que, de tantas histórias, a coisa vire talk show. Mas a proposta é recriar um repertório em que ajudaram os grandes da MPB a dar forma e as músicas que foram sucessos em suas carreiras solo ou bandas que lideraram.
Cantuária (74 anos), Arnaldo (74) e Dadi (73) têm muito em comum. Botafoguenses, vizinhos da Gávea, costumavam bater uma bolinha com outros músicos no Clube Caxinguelê, no Horto. Todos chegaram muito cedo (“E estamos acabando tardíssimo!”, brinca Vinicius).
No Rio de 1969, pouco antes de integrar os , Dadi tinha os Patetas, banda amadora, e conhecia Arnaldo, que já estava na Bolha, grande atração dos bailes rock do Rio. Ao sair do grupo O Terço, Vinicius começou a andar com A Bolha, e logo ele e Arnaldo formaram a Banda Atômica de Jorge Mautner. Moraram juntos e se juntaram à Outra Banda da Terra, que, antes de tocar com Caetano, acompanhou Marcelo (do hit “Abre coração”).
— Um dia o Vinicius chegou dizendo: “Olha que música linda!” Ele me mostrou, eu levantei o som, e ele: “Vou ligar para o Caetano, temos um arranjo pronto!” Eu falei: “Mas só tem uma linha de baixo!” O Caetano ouviu e avisou: “Ah, pode vir gravar.” Foi assim que surgiu “Odara” — conta Arnaldo, sobre uma das músicas que entraram no show.
Exímio baterista, Vinicius Cantuária também cantava e compunha ao violão. Foi gravado pela primeira vez por (“Filho das Índias”, em 1979) e por Caetano (“Lua e estrela”, em 1981). Essa última permitiu que saísse em uma carreira solo de sucessos dos anos 1980, como “Só você” e “Cheio de amor”.
Arnaldo montou com o cantor e guitarrista Cláudio Zoli o Brylho, que estourou em 1983 com “Noite do prazer”. Logo, ficou difícil para ele e Vinicius se manterem com Caetano, que montou outra banda para o disco “Velô” (1984). Com o fim do Brylho, Arnaldo acumulou baixos e vocais no Hanói-Hanói, que não emplacou logo no começo da carreira.
— Mas quando Caetano ouviu “Totalmente demais” (do Hanói, parceria com o poeta), falou: “Quero aprender essa!” Aí, fez um show de voz e violão e tocou a música, que deu título do disco ao vivo — lembra.
Dadi, depois dos Novos Baianos (e de uma passagem pelo Almirante Jorge V, banda de Jorge Ben, futuro Jorge Ben Jor), formou o grupo instrumental A Cor do Som, que foi contratado pela gravadora WEA e levou a estrear nos vocais, meio a contragosto, no baião “Abri a porta”.
— Fiz o que pude (risos)! É que o André (Midani, então presidente da WEA) falou: “Precisamos de uma música cantada para tocar no rádio.” A gente pensou: “Vamos pedir uma música ao !” Eu e Vinicius fomos na casa do Gil, e ele mostrou “Abri a porta”, que tinha acabado de fazer com o Dominguinhos. Na verdade abriu uma porta para a gente — revela o baixista, homenageado por Caetano em “Leãozinho”, mas com quem só foi tocar nos anos 1990.
Em 1993, Dadi se juntou à Cantuária (mais Ritchie e Cláudio Zoli) no Tigres de Bengala (“Mas era uma época de mudanças e o negócio não foi para a frente”, resume o músico, que depois se tornaria peça fundamental nas carreiras de e dos). Em 1994, Vinicius se mudava para Nova York, onde, com um empurrãozinho do produtor Arto Lindsay, trabalhou com , , Laurie Anderson, Brian Eno e Angélique Kidjo, além de gravar 14 discos seus.
Desde a pandemia, o cantor voltou a morar no Brasil, onde faz parcerias com e canções para Fábio Jr., que tem na regravação de “Só você” um de seus grandes sucessos. Mas passa de três a quatro meses no exterior, “às vezes em grandes festivais, às vezes em festivais médios, às vezes em clubes de jazz para 200, 300 pessoas”.
— Aqui no Brasil, o músico não tem como tocar na noite e ganhar um dinheiro — lamenta Vinicius.
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