Vida Esportiva
'Temos que valorizar as falas potentes de Mbappé, Kompany e Luisão' sobre Vini, diz diretor de Observatório Racial no Futebol
'Ao GLOBO, Marcelo Carvalho avaliou declarações e nota de Filipe Luís sobre caso de racismo enfrentando pelo atacante brasileiro
O novo caso de racismo sofrido por Vinicius Junior na Europa gerou reações que foram desde a revolta com a repetição deste tipo de episódio até a contemporização por parte de alguns personagens que vêm sendo muito criticados nos últimos dias. Na terça-feira, o brasileiro do Real Madrid afirmou ter sido chamado de "mono" ("macaco", em espanhol) pelo argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, em um jogo da Liga dos Campeões.
'As pessoas brancas precisam escutar':
'Reitero meu total apoio':
A voz de defesa mais forte foi a de Kylian Mbappé, astro do Real e companheiro de Vini, que confirmou a versão do brasileiro. Vincent Kompany, técnico do Bayern de Munique, Luisão, ídolo do Benfica, e Lilian Thuram, ex-jogador, foram outros que saíram em defesa do atacante brasileiro. Por outro lado, José Mourinho, treinador do Benfica, e Filipe Luís, comandante do Flamengo, deram declarações no outro sentido.
Antes e após a derrota do rubro-negro para o Lanús no jogo de ida da Recopa Sul-Americana, Filipe apontou ser um "caso isolado" e disse que se trata da "palavra de um contra a do outro". Para Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, ele tentou ser protocolar.
— O que o Filipe Luís e o Mourinho falam é o que estamos acostumados a ver. É aquele posicionamento protocolar, dizendo que “deve-se ouvir as partes, o racismo está em todo lugar”... Para mim, a fala do Filipe está nessa caixinha — comenta ao GLOBO Marcelo Carvalho. — O que mais me surpreende são as falas potentes do Mbappé, do Kompany, do Lilian Thuram, do Luizão. O que a gente tem que ressaltar nesse momento são essas vozes que estão se colocando ao lado do Vinicius Junior.
Diante da repercussão negativa entre a torcida do Flamengo, Filipe Luís se manifestou por meio de uma nota afirmando que, em razão da pergunta dos repórteres argentinos, abordou suas experiências pessoais na Argentina e “em momento algum” teve a intenção de “relativizar ou minimizar qualquer atitude racista”.
— A nota dele é importante para tentar pontuar que o que ele disse foi fora do tom. Mas seria importante frisar nessa nota que estamos muito longe de falar em caso isolado, seja no Brasil, na Argentina ou na Europa, com o Vinicius Junior. Já contabilizamos mais de 20 denúncias de racismo contra o Vini. Em torneios sul-americanos, da Conmebol, há um número muito grande e crescente de denúncias de racismo, e muitas dessas denúncias são cometidas ou na Argentina ou por argentinos. Não podemos mais minimizar os casos de racismo, e não se pode falar em caso isolado. É uma luta muito grande — pontuou Carvalho.
Ontem, sem citar o nome de Filipe Luís, o zagueiro Danilo, uma das lideranças do rubro-negro, compartilhou em seu Instagram, com a legenda “vale sempre lembrar”, um vídeo antigo seu falando sobre o tema. Em um dos trechos, o defensor diz que “pessoas brancas precisam escutar. Precisam ter empatia para reconhecer que pessoas sofreram”. Outros funcionários do Flamengo também reforçaram posição contra o racismo.
— Eu encaro como essa nova fase. Não sei se estou iludido nesse momento com essas manifestações que estou vendo, fora do normal. O Danilo vem na mesma pegada de valorizar o Vinicius Junior, botar o dedo na ferida. Isso é muito interessante de acontecer. Dentro do mesmo clube, a gente tem um posicionamento diferente. Isso chama atenção. Hoje, estamos em um nível de conscientização e de luta que vamos ver esses posicionamentos diferentes. Isso é muito bom para o futebol. Mesmo que a gente vá encontrar pequenos obstáculos, ou pessoas que ainda vão tentar minimizar a situação — finaliza Marcelo Carvalho.
Relembre todas as falas:
Filipe Luís, na Argentina
(Antes do jogo) "Bom, é um tema muito mais delicado do que pensamos, é um assunto que envolve muitas coisas e, para mim, é simples. O rapaz (Prestianni) tapou a boca, não deveria ter tapado a boca para dizer o que precisava dizer, e isso gera toda essa comoção. Agora é a palavra de um contra a do outro, e isso é muito delicado. A verdade é que, se ele disse, tem que pagar, mas é como eu repito: é a palavra de um contra a do outro, e não sou eu quem pode julgar".
(Na coletiva) "Sempre fui muito bem tratado, a Argentina me encanta. Sou muito feliz aqui, muito bem recebido. Só tenho boas palavras para a Argentina. Um caso isolado como esse não influencia em nada do que penso sobre este país, que é tão lindo".
Filipe Luís, em nota
"Após a partida de ontem contra o Lanús, durante a coletiva de imprensa organizada pela Conmebol, minutos após o fim do jogo, fui questionado por um repórter argentino. Ele iniciou seu raciocínio citando mais um caso de racismo sofrido por Vinícius Júnior, quando me perguntou como o Flamengo foi recebido nas últimas vezes em que esteve no país.
Ao longo da resposta, procurei abordar minhas experiências pessoais na Argentina. Em momento algum tive a intenção de relativizar ou minimizar qualquer atitude racista.
Reconheço que minha fala, diante da extrema sensibilidade do tema, pode ter aberto margem para interpretações distintas. Por isso, considero fundamental reforçar publicamente minha posição, que sempre foi inegociável: o racismo é crime no Brasil e deveria ser tratado com o mesmo rigor em todos os países. Trata-se de uma conduta inaceitável, que deve ser combatida e punida de maneira firme. O futebol, como espaço de diversidade e integração, não pode tolerar qualquer forma de discriminação.
Reforço ainda que, antes da partida, em entrevista exclusiva ao detentor de direitos, expus minha visão sobre o episódio, classificando como covarde a atitude do jogador que tapou a boca para praticar atos racistas. Jamais colocaria em dúvida a palavra da vítima em um caso grave como esse.
Por fim, reitero meu total apoio a Vinícius Júnior em mais um lamentável episódio envolvendo racismo no esporte, algo que já não deveria mais ocorrer, mas que infelizmente ainda se repete e, muitas vezes, passa impune".
José Mourinho
"Uma coisa é o que Vinicius diz, outra coisa é que diz o Prestianni. São coisas completamente diferentes. Aquilo que eu disse ao Vinicius de modo independente, não defendendo a minha dama (Benfica), é: quando se faz um gol daqueles, sai em ombros, não se vai mexer com o estádio ou mexer com o coração de um estádio, que é o estádio adversário. Como dizem na Espanha, quem marca um gol daqueles, corta o rabo, corta a orelha e sai em ombros. Não acaba com o jogo. E ele acabou com o jogo".
Kylian Mbappé
"O número 25 do Benfica (Prestianni)... não quero diz seu nome porque não o merece... começou a falar mal. Não se aceita, passou do futebol. Colocou sua camisa aqui (na boca) para dizer que o Vini é um macaco cinco vezes. Ele escutou. Jogadores do Benfica também escutaram. Depois deste ponto, começou tudo que vocês viram. Não quero falar de maneira geral, porque já vim muitas vezes a Portugal, e tenho a sorte de ter muitos companheiros e amigos. Nunca aconteceu nada comigo. É importante falar isto de maneira muito clara e sem generalizar. No estádio, há 70 mil pessoas que não fizeram nada, só queriam apoiar seu time. Tenho o máximo respeito pelo Benfica e pelo seu treinador (José Mourinho). Mas este jogador (Prestianni) não merece mais jogar a Champions. É uma coisa maravilhosa jogar a melhor competição do mundo. Temos que dar o melhor exemplo aos jovens, porque se deixarmos passar esse tipo de coisa, penso que todos os valores do futebol não valem para nada".
Vincent Kompany
"Eu vi tudo acontecer ao vivo. Sobre o que acontece em campo: quando você observa a jogada em si, a reação do Vini Jr. não pode ser fingida. Dá para ver. É uma reação emocional. Não vejo nenhum benefício para ele em ir até o árbitro e colocar todo esse peso sobre os próprios ombros. Não há absolutamente nenhuma razão para que ele faça isso. E, quando ele faz, acredito que, na cabeça dele, ele está fazendo porque sente que é a coisa certa a fazer naquele momento. Depois do jogo, você tem o líder de uma organização, José Mourinho, que basicamente ataca o caráter de Vinicius Jr., mencionando o tipo de comemoração dele para desacreditar o que Vinicius estava fazendo naquele momento. Para mim, em termos de liderança, isso é um erro enorme. É algo que não deveríamos aceitar. Sou muito claro quanto a isso."
Lilian Thuram
"Estamos em 2026 e, em 2026, pessoas negras ainda podem ser humilhadas em campo. Porque racismo é humilhação. E vejo que ainda podemos questionar o que aconteceu. Vinicius relatou os eventos, Kylian Mbappé os relatou. Mas não, isso não basta, a dúvida persiste, não temos certeza. Mas por que não acreditamos nesses dois jogadores? Porque a palavra de homens negros não é confiável? O primeiro instinto das pessoas brancas não é se colocar no lugar do outro para entender o que a vítima de um ato racista sente. Elas desconhecem a violência sofrida , e é por isso que tais atos persistem em 2026.
Quem é você, Sr. Mourinho, para decidir o que Vinicius tem o direito de fazer? Essa declaração exala superioridade branca e narcisismo. O ato racista que Vinicius sofreu não teve nada a ver com o comportamento dele, mas sim com a cor da sua pele. Mourinho sugere que a culpa pode ser de Vinicius. Que ele provocou isso, basicamente. É ultrajante. Esse sentimento de superioridade que algumas pessoas brancas têm as impede de se colocar no lugar das vítimas. Elas precisam de mais humildade."
Luisão
"Passei grande parte da minha vida no Benfica. Cresci como jogador, como homem e como capitão. Conquistei títulos, vivi noites inesquecíveis e defendi aquela camisola com tudo o que tinha. O Benfica é parte da minha história. E é exatamente por isso, e não apesar disso, que me sinto na obrigação de falar.
Nos últimos dias, me posicionei contra qualquer forma de racismo no episódio envolvendo Vini Jr. Não por nacionalidade, nem por polémica, mas por princípio. Racismo não tem clube, não tem camisola, não tem lado. E não pode ser relativizado.
Tudo começou com uma comemoração, um gesto de alegria após um golo. E é preciso dizer o óbvio: dançar não é desrespeito, é expressão. O futebol sempre foi emoção. A alegria de uns é o lamento de outros. Sempre foi assim.
Grandes jogadores celebraram a dançar: Cristiano, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho... A dança nunca foi o problema. O que não pode ser aceitável é transformar uma comemoração em justificativa para ofensas racistas. Nada justifica isso. Nem provocação, nem rivalidade, nem o calor do jogo. Um estádio não é um território sem valores. O respeito continua a valer dentro dele.
Também fui alvo de ofensas, inclusive racistas, depois de me manifestar. Isso dói, mas não me fará recuar. Posso ter ignorado provocações desportivas ao longo da carreira, mas nunca me calarei diante da discriminação de uma minoria que não representa o clube que amo.
O Benfica tem uma história enorme, respeitada no mundo inteiro. Uma história maior do que qualquer episódio isolado. É isso que precisa prevalecer.
O meu amor pelo clube permanece intacto, assim como o respeito e a gratidão pelos seus adeptos. O meu apoio é inegociável, na Luz ou em qualquer estádio.
O futebol é paixão e intensidade. Mas, antes de tudo, é humanidade. E humanidade não admite racismo.
Que saiamos deste episódio melhores. Como clube, como adeptos, como sociedade. Porque jogos passam. Títulos passam. Mas caráter e valores ficam."
Mais lidas
-
1TRAGÉDIA
Vídeos de detetive flagrando traição foram o estopim para secretário matar os próprios filhos em Itumbiara
-
2FESTIVIDADES
Existe feriado no carnaval? Como funciona para a empregada doméstica?
-
3FENÔMENO NAS REDES
Procuradas 'vivas e fofas': zoológicos russos enfrentam filas para adquirir capivaras em meio à popularidade
-
4IDEIA BARRADA
Leis municipais em vigor em Maceió restringem mudança de nomes de ruas e podem barrar troca da Avenida Fernandes Lima
-
5MERCADO INTERNACIONAL
Rússia amplia exportação de caças mesmo sob sanções, aponta revista