Vida e Saúde
Centro da 'vida eterna' dos super-ricos: Conheça clínica de luxo na Suíça que atende um paciente por vez e cobra R$ 625 mil por semana
Síndrome da “fixação pela longevidade” leva empresários e executivos a desenvolver ansiedade, depressão e danos físicos após rotinas extremas em busca de viver mais
A promessa de chegar aos 80 anos com disposição de 40, risco reduzido de doenças e entusiasmo intacto virou uma obsessão para parte da elite global — e agora também um problema clínico tratado em regime de exclusividade. Em Zurique, maior cidade da Suíça, na Paracelsus Recovery, uma clínica que atende um único paciente por vez, empresários e executivos pagam US$ 120 mil (o equivalente a R$ 625 mil) por semana para tratar o que já é chamado de “longevity fixation syndrome”, ou síndrome da fixação pela longevidade.
Caneta emagrecedora:
Morre Eric Dane:
O termo foi cunhado por Jan Gerber, CEO e fundador da instituição suíça, que relata um aumento de casos entre homens bem-sucedidos, com grande patrimônio e tempo disponível. “Vejo pessoas de altíssimo desempenho, empreendedores, mais homens do que mulheres, que têm muito dinheiro e tempo à disposição… [que] podem fazer qualquer coisa, de saltar de paraquedas a viajar para a Antártida ou para a Fórmula 1”, afirmou.
O dilema, segundo ele, é simples e angustiante: “Eu tenho os recursos, mas tenho anos limitados”.
Para indivíduos vulneráveis à ansiedade ou a comportamentos obsessivos, a busca por longevidade — algo que deveria ser positivo — pode se transformar em fixação doentia. Muitas vezes movida por uma necessidade de controle, a rotina passa a apresentar traços semelhantes aos de um transtorno alimentar, “quase como uma extensão da ortorexia”, obsessão por alimentação saudável que pode incluir uso excessivo de suplementos e terapias intravenosas.
Super placebo?
A tecnologia amplia o problema. “Os anéis inteligentes, os smartwatches, os monitores de glicose que as pessoas — que absolutamente não têm motivo para usar um monitor de glicose porque não têm risco de diabetes — começam a usar…”, disse Gerber. O monitoramento constante de marcadores biológicos, sono e desempenho físico transforma pequenos desvios — uma noite mal dormida ou um treino perdido — em gatilhos de culpa e estresse adicionais.
“Há uma dimensão adicional que você não vê com outros comportamentos compulsivos”, afirmou. “Quando você tem uma noite ruim de sono ou perde um treino, a culpa vem com um gatilho extra de estresse… que você não teria com vício em jogo, sexo ou drogas, porque [o objeto da obsessão] é, na verdade, algo bom.”
Na prática, alguns pacientes passam a evitar jantares com amigos para cumprir sessões de crioterapia, faltam a eventos familiares para não quebrar protocolos rígidos de jejum ou sono e acabam isolados, solitários e incompreendidos. Muitos chegam à clínica com exaustão, depressão e insônia — apenas para descobrir que o regime seguido religiosamente para “ajudá-los” tornou-se o problema.
Na Paracelsus, o tratamento envolve ao menos 15 especialistas e integração total entre psiquiatria, psicoterapia, intervenções médicas e mudanças de estilo de vida. “Tudo é coordenado com precisão suíça”, disse Gerber. “Cronogramas de tratamento, suporte médico, psicoterapia e intervenções no estilo de vida são integrados de forma contínua.” O ponto de partida é identificar o que está por trás da compulsão — ansiedade, trauma não resolvido, desregulação emocional ou questões de identidade — e então aplicar intervenções direcionadas, como terapia cognitivo-comportamental.
Nos Estados Unidos, médicos de clínicas de alto padrão também relatam cenário semelhante. Jordan Shlain, fundador e CEO da Private Medical, descreve a situação como “dolorosa de assistir”. Em vez de viver o presente, pacientes passam horas rastreando biomarcadores e calculando suplementos. Compromissos sociais são cancelados para não interferir em janelas de jejum ou sono, e dietas restritivas dificultam refeições em grupo, prejudicando relacionamentos.
Os danos não são apenas emocionais. A equipe médica já observou problemas renais por excesso de suplementos, desequilíbrios hormonais, disfunções metabólicas por jejuns extremos, lesões por sobrecarga de treino e até eventos cardíacos associados ao uso não monitorado de compostos que prometem desempenho e longevidade.
Para Shlain, o tratamento desses pacientes levanta questões básicas: como saber o que há em determinado frasco ou suplemento? Há contaminação? O que mostram as evidências científicas atuais? E, sobretudo, “Por que você está apostando com a sua saúde?”
“Normalmente é preciso tempo e compartilhar algumas histórias de terror sobre injeções de células-tronco que levaram a déficits graves e infecções com risco de vida [para que eles prestem atenção]”, afirmou. “As pessoas precisam entender que, até que tenham ‘gabaritado’ os quatro pilares da saúde — dieta, exercício, sono e nutrição social — não deveriam estar experimentando com seus corpos com base em algum influenciador do Instagram — é uma estratégia ruim.”
Embora o fenômeno pareça restrito aos muito ricos, capazes de financiar protocolos experimentais e caros, a indústria da longevidade já movimenta dezenas de bilhões de dólares e parte desse mercado tornou-se popular. Com isso, cresce também o risco de que indivíduos ansiosos ou obsessivos levem a busca por viver mais longe demais.
“O próprio setor de longevidade tem alguma responsabilidade aqui”, disse Shlain. “Quando você comercializa o medo da morte e o autocontrole como solução, vai criar esses pacientes. Os profissionais responsáveis nessa área precisam rastrear isso, não incentivar.”
O desejo de evitar demência, câncer e o declínio natural é compreensível. Melhorar hábitos faz sentido — desde que não se perca de vista uma realidade inescapável: é legítimo querer viver para sempre, mas ninguém escapará do fato de que, ao tentar, estará correndo contra o próprio limite do tempo.
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