Vida e Saúde

Estimulação cerebral pode tornar pessoas menos egoístas, aponta estudo

Pesquisadores afirmam que o altruísmo está intrinsecamente ligado ao funcionamento do cérebro, influenciando nosso cuidado com os outros

Agência O Globo - 15/02/2026
Estimulação cerebral pode tornar pessoas menos egoístas, aponta estudo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Estimular duas áreas do cérebro de forma sincronizada aumentou a tendência das pessoas a agir de modo altruísta, segundo estudo publicado na revista de acesso aberto PLOS Biology, realizado por pesquisadores da Universidade Normal do Leste da China e da Universidade de Zurique, na Suíça.

“Identificamos um padrão de comunicação entre regiões cerebrais ligado a escolhas altruístas. Isso aprimora nossa compreensão sobre como o cérebro apoia decisões sociais e prepara o terreno para futuras pesquisas sobre cooperação — especialmente em situações que dependem do trabalho em equipe”, afirma Christian Ruff, coautor do estudo, em comunicado.

Ao criar seus filhos, pais costumam incentivar atitudes de gentileza, compartilhamento e empatia — comportamentos fundamentais para o funcionamento da sociedade. Apesar disso, algumas pessoas desenvolvem maior dedicação ao próximo, enquanto outras tendem ao egoísmo.

Para investigar quais áreas e conexões cerebrais influenciam essas diferenças individuais, os pesquisadores recrutaram 44 participantes para completar 540 decisões no chamado Jogo do Ditador. Nele, cada voluntário decidia como dividir uma quantia em dinheiro com outra pessoa, que ficava com o valor recebido. As rodadas variavam quanto ao montante disponível e à distribuição entre os jogadores.

Durante o experimento, os cientistas aplicaram estimulação transcraniana por corrente alternada nos lobos frontal (relacionado à tomada de decisões) e parietal (envolvido em sentidos como paladar, audição, visão, tato e olfato). O objetivo era sincronizar a atividade das células cerebrais dessas áreas em padrões repetitivos, simulando ritmos de oscilação gama ou alfa.

Os resultados mostraram que, durante a estimulação voltada a aumentar a sincronia das oscilações gama nos lobos frontal e parietal, os participantes ficaram ligeiramente mais propensos a tomar decisões altruístas — oferecendo mais dinheiro ao outro, mesmo que isso implicasse menor ganho pessoal. Modelos computacionais indicaram que a técnica influenciou as preferências altruístas, levando os participantes a considerarem mais o parceiro ao avaliar cada oferta.

Os autores destacam que não registraram diretamente a atividade cerebral durante os testes, recomendando que pesquisas futuras associem a estimulação cerebral à eletroencefalografia para comprovar o efeito direto na atividade neural. Ainda assim, os achados sugerem que escolhas altruístas podem estar relacionadas à atividade sincronizada entre os lobos frontal e parietal.

“A novidade aqui é a evidência de causa e efeito: ao alterarmos a comunicação em uma rede cerebral específica com estimulação direcionada e não invasiva, as decisões de compartilhamento mudaram de forma consistente — modificando o equilíbrio entre interesses próprios e alheios”, explica Jie Hu, coautor do estudo.

Marius Moisa, também coautor, acrescenta: “Ficamos impressionados com o aumento da coordenação entre duas áreas cerebrais, que levou a escolhas mais altruístas. Ao intensificarmos a sincronia entre as regiões frontal e parietal, os participantes mostraram maior disposição em ajudar, mesmo com algum custo pessoal”.