Variedades
Conheça a espelho, livraria dedicada à psicanálise e literatura que abre as portas em SP
Os moradores do bairro de Higienópolis, na zona oeste de São Paulo, já notavam uma movimentação diferente no andar térreo de um dos prédios em frente ao Parque Buenos Aires. Marceneiros, caixas entrando e saindo e, de repente, um letreiro que anunciava que ali, em breve, seria uma livraria.
"Tem três semanas que estamos organizando o espaço e recebendo livros e o dia inteiro ficam passando pessoas aqui perguntando: 'Ah, vai abrir uma livraria? Quando vai abrir? Que incrível, estava precisando de uma livraria aqui'", conta Joana Biondi, de 42 anos, psicóloga, escritora e agora dona da Livraria Espelho.
Localizada na Rua Alagoas, 503, perto das universidades FAAP e Mackenzie e de um dos endereços da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, a loja começou a funcionar oficialmente no sábado, 11.
A livraria é um sonho antigo de Joana. Apesar de atuar como psicóloga clínica, a literatura ocupa um lugar especial em sua vida desde o início da adolescência, quando conheceu a poesia e começou ela mesma a escrever. Formada em Letras, Joana tem três livros publicados - o mais recente é Tudo Intacto Até o Próximo Segundo (7Letras).
"Era um sonho um pouco romântico. De uns anos para cá, comecei a pesquisar, fiz um curso de gestão de livraria e comecei a ir nas livrarias da cidade e conversar com os livreiros, pesquisando a viabilidade de concretizar esse meu sonho", conta ela. Foram três anos até que a coisa de fato se materializasse.
Joana mora no bairro de Higienópolis há cerca de dois anos e meio. Um dia, ela estava caminhando e notou que a loja que anteriormente ficava no local da livraria havia fechado. Alugou o imóvel em novembro; logo contratou um arquiteto, pintou as paredes e pediu um projeto de marcenaria especial para fazer o melhor uso possível do espaço disponível.
Como é a Livraria Espelho
Entrando na loja, nos deparamos com estantes enormes, que cobrem as paredes com centenas de livros. No centro, uma mesa abrigará alguns dos destaques do momento. Mais ao fundo da loja, à esquerda, uma sessão dedicada à literatura infantil. Do lado direito, um espaço para o café. A livraria também terá mesas e poltronas espalhadas pelo ambiente.
"Eu queria que fosse também um espaço em que as pessoas sentissem prazer de ficar. Não só para entrar na livraria e comprar um livro, mas ficar e ter essa experiência de troca, de ouvir uma indicação. De sentar e ler o livro. Acho que esse bairro estava precisando de uma livraria de rua", diz Joana.
Foco especial em psicanálise
O nome da livraria já entrega uma pista sobre um assunto que terá um espaço especial na curadoria: a psicanálise. " Quando eu estava nesse processo de encontrar um nome para a livraria, comecei a me deparar com vários textos com a palavra espelho. É uma palavra com muito simbolismo presente em mitos, na religião, na mitologia e na psicologia", conta a fundadora.
"Fiquei pensando, além de ser uma palavra sonoramente bonita, nessa ideia do próprio livro. É uma relação de espelhamento: quando lemos um livro, a gente traz o nosso repertório também, a nossa história. Somos projetados para aquela narrativa e a narrativa do livro também é projetada para dentro nós", diz.
Joana diz que a Livraria Espelho terá uma curadoria muito cuidadosa de livros sobre psicanálise, e que também promoverá cursos e oficinas que articulem o tema com a literatura. Essa cuidado especial vem do carinho dela pelo assunto, mas também pela crença de que a psicanálise tem grande intersecção com outras áreas do conhecimento, especialmente nas artes.
"Acho que a psicanálise ficou muitos anos fechada ao consultório e a um recorte específico da sociedade, a uma elite. Sempre me interessei por uma psicanálise mais social. Trabalhei alguns anos num coletivo que atendia a mulheres em situação de prostituição e eu acredito muito na interseccionalidade da psicanálise", explica ela.
Mas Joana também reforça que a livraria terá um pouco de tudo: ficção, não ficção, muita poesia, infantil, teoria crítica, filosofia, história e por aí vai. No dia que o Estadão visitou a loja, mais de 30 caixas de livros de diferentes editoras tinham acabado de chegar, e outras ainda estavam por vir.
A responsável pela curadoria geral é Zilmara Pimentel, professora, livreira, revisora e preparadora de textos que também assume a gerência da livraria. Já Paulo Bueno, psicanalista, psicólogo e mestre e doutor em Psicologia Social pela PUC-SP, ficou responsável pela Curadoria Psicanálise e Intersecções. Durante o processo, Joana também contou com o consultor Orlando Prado, especializado no mercado do livro, e que já atuou na fundação de outras livrarias de São Paulo, como a Tarde e a Bibla.
Por que abrir uma livraria?
Para Joana, as livrarias de rua, em especial, têm uma função social e cultural que o mundo virtual não oferece na mesma medida: os encontros, debates e trocas que ocorrem quando leitores e autores se reúnem no mesmo espaço. É algo que ela quer proporcionar - além do evento de inauguração, uma leitura de poesia já está marcada para o dia 23 de abril, no dia da Noite das Livrarias (saiba mais abaixo).
"É um ato também de resistência, de rebeldia e de insistência por acreditar profundamente nesse poder que tem o livro. E as livrarias precisam ser cuidadas por toda a comunidade, pela sociedade, porque muitas livrarias estão fechando", reconhece. "Precisamos ter essa consciência de cuidar das livrarias de rua, principalmente as livrarias independentes, para que elas permaneçam vivas."
Durante a pesquisa de Joana, não faltaram avisos sobre os desafios da jornada em que ela estava prestes a adentrar: "Em todas as livrarias que eu conversei, todo mundo falou que é muito desafiador, a conta é muito difícil de fechar, é uma luta diária. Essas pessoas foram bastante sinceras nesse aspecto, mas também não deixaram de transparecer a paixão pelo livro e como é gratificante ter uma livraria também."
Por que, diante de todos os alertas, persistir? "Acho que tem muito a ver em acreditar no desejo, apesar disso soar um pouco piegas, mas era algo que estava me chamando há muito tempo. E de acreditar mesmo. Uma livraria tem um papel muito importante" diz Joana.
Ela completa: "A livraria é uma floresta de saberes infinitos, porque é impossível você entrar em uma livraria e já ter lido tudo. Ela acolhe o não saber também e isso também é muito bonito. Tem um valor inestimável para um bairro, para uma sociedade, para uma cidade. Seria muito triste uma cidade sem livrarias."
Noite das Livrarias
No dia 23 de abril, a Espelho participa da Noite das Livrarias, evento articulada por livrarias de rua de todo o País que realizarão eventos para celebrar o Dia Mundial do Livro. A loja receberá uma leitura de poesia com as escritoras Marília Garcia e Claudia Roquette Pinto, a partir das 19h.
Livraria Espelho
Endereço: Rua Alagoas, 503 - Loja 1 - Higienópolis, São Paulo.
Horário de funcionamento: de terça a sábado, das 10h às 19h. Domingo, das 10h às 15h.
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