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‘O Agente Secreto’ ganha 4 indicações ao Oscar, alavancando o cinema brasileiro

Por ELÉONORE HUGHES Associated Press 22/01/2026
‘O Agente Secreto’ ganha 4 indicações ao Oscar, alavancando o cinema brasileiro
Um outdoor promovendo o filme indicado ao Oscar O Agente Secreto é exibido do lado de fora de uma sala de cinema em São Paulo, quinta-feira, 22 de janeiro de 2026. - Foto: AP/Andre Penner

RIO DE JANEIRO (AP) — Os brasileiros comemoraram na quinta-feira a indicação de “The Secret Agent” filme para quatro categorias do Oscar, o que muitos disseram ter confirmado a ascensão do cinema brasileiro e seu apelo universal.

“O Agente Secreto” — indicado para melhor filme, melhor ator, melhor filme internacional e realização no casting — agora compartilha o recorde do Brasil de indicações, ao lado do famoso filme 2002“Cidade de Deus” ambientado em uma favela no Rio de janeiro.

“O Agente Secreto” segue um pai viúvo — interpretado por Wagner Moura — que se torna alvo da ditadura militar do Brasil na década de 1970 simplesmente porque enfrenta um empresário com vínculos com o regime.

O diretor Kleber Mendonça Filho disse que mais de um milhão de espectadores já viram o filme, em vídeo postado nas redes sociais quinta-feira após as indicações.

No ano passado, o longa-metragem brasileiro “Ainda estou Aqui” também foi um sucesso de bilheteria‚desenhando milhões de cinéfilos. Foi indicado em três categorias e ganhou melhor longa internacional‚dando O Brasil seu primeiro Oscar.

Os sucessos consecutivos estão levando muitos a dizer que o Brasil está vivendo um momento particularmente frutífero para seu cinema —, incluindo o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disse que a indústria local está atualmente “vivendo um dos melhores momentos de sua história.”

As indicações são “reconhecimento da nossa cultura e da capacidade do Brasil de contar histórias que movem o mundo,” disse ele nas redes sociais.

“I'm Still Here” também se passa durante a ditadura, e observadores dizem que ambos os filmes contribuíram para discussão nacional sobre o período negro da história do Brasil de 1964 a 1985, quando pessoas foram torturadas e desapareceram.

Reação à turbulência política

Lúcia Espírito Santo, advogada aposentada de 78 anos, disse que ela mesma teve que vigiar as palavras quando cursava Direito na universidade com medo de desaparecer.

“O que vemos no filme aconteceu muito. As pessoas sumiriam e você não sabia o porquê. Amigos meus da faculdade desapareceram porque se manifestaram, defenderam a liberdade e a democracia,” disse ela, saindo do cinema depois de ver o filme.

Sabrina Guimarães, estudante de 20 anos de uma universidade do Rio de janeiro, que foi ver o filme quinta-feira, disse que aprender sobre a história do país é essencial.

“Apesar de aprendermos essas coisas na escola, não gastamos muito tempo com isso e não é muito específico. Sentir que está ali no lugar da pessoa, saber o que estava acontecendo na hora é muito interessante,” disse ela.

“É bom entender o que aconteceu no passado para não repetirmos essas coisas no futuro.”

O diretor Mendonça Filho disse que o filme é uma reação à última década de turbulência política do Brasil, incluindo a administração de extrema-direita do ex-presidente Jair Bolsonaro, que no ano passado foi condenado a 27 anos e três meses na prisão por tentativa de golpe.

Mas o filme também dialoga com o clima político em outros lugares do mundo, disse em entrevista à Associated Press na quinta-feira.

“O filme é bem brasileiro, mas também é universal, então pode ser usado para discutir questões nos Estados Unidos, na Europa ou no Brasil,” Mendonça Filho disse. “O tema do poder sendo usado para esmagar pessoas e classes sociais é um tema atual, não apenas histórico.”

‘Emoção intensa’

O diretor de elenco Gabriel Domingues, que foi indicado na nova categoria de conquista do “no elenco,” disse que a manifestação de apoio ao filme reflete um entusiasmo mais amplo pelo cinema brasileiro.

“O cinema brasileiro está mesmo em um momento de intensa emoção, além de empolgação. As pessoas se emocionam muito, com essa participação em eventos e prêmios internacionais e tudo mais, disse Domingues à Associated Press, comparando-a com a atmosfera do Brasil em torno do futebol.

Ana Paula Sousa, especialista em cinema e professora da Universidade ESPM em São Paulo, disse que as conquistas de “I'm Still Here” e “The Secret Agent” estão mudando a relação dos brasileiros’ com a indústria cinematográfica em um país foram que a frequência ao cinema é historicamente baixa.

“As pessoas estão falando de Cinema brasileiro e achando legal falar sobre isso. (...) Isso é algo que não vimos antes, e é realmente ótimo,”, disse ela.

Sousa disse que espera que os sucessos despertem uma frequência de filmes mais consistente entre os brasileiros.

Espírito Santo, a cinéfila idosa do Rio, disse que tinha um orgulho danado do cinema brasileiro após as indicações ao Oscar.

“Estamos aparecendo, pisando no tapete vermelho no exterior,”, disse ela. “O Brasil está começando a parecer um produtor de filmes, de histórias bem contadas.”