RJ em Foco
Puro suco do Rio: do subúrbio à Baixada, vivências e hábitos inspiram o jeito de vestir e decorar
‘Borogodó’ da periferia faz sucesso e gera identificação dos clientes
Os doces de Cosme e Damião em saquinhos, as imagens de São Jorge em esquinas, o salgado e o refresco vendidos a um preço camarada. São inúmeros os símbolos e hábitos que, juntos, dão o tal “suco de Rio de Janeiro”, que muitas vezes passam despercebidos em meio ao cotidiano. Mas toda essa cultura carioca e fluminense, suburbana e periférica, migrou para camisas, bandeiras, cangas e tantos outros produtos que, como ícones da representatividade, caíram no gosto da rapaziada como moda.
Tipo exportação:
Censo das estátuas do Rio:
— O nosso hype é antigo, só que, agora, elementos do cotidiano carioca, como chinelos, cadeiras de bar, vira-latas pelas ruas, camisetas de times locais, divindades de religiões de matriz africana e carioquices em geral se tornaram icônicos porque estamos vivendo um boom de paixão nacional e global pela cidade — avalia Paula Acioli, pesquisadora e analista de moda, que exalta o “borogodó” do Rio. — É como um antídoto para o baixo-astral global.
Um dos expoentes dessa tendência é Felipe Vaz, de 27 anos, criador da marca Terra de Mulher Bonita. Com barraca instalada nos fins de semana nas feiras da Praça Quinze e da Glória, o artista independente, cria da Vila São Luís, em Duque de Caxias, é influenciado por suas vivências como cidadão da Baixada para desenhar os produtos.
Venda de cogumelos ‘mágicos’ cresce no Rio:
O nome da marca (nascida em 2024) faz referência a uma frase pintada em uma balsa ancorada ao lado da Linha Vermelha com elogio às moças caxienses. As mesmas palavras batizaram primeiro o álbum lançado em 2018 por Felipe, que é cantor e compositor.
— Tudo o que ia escrever sobre mim esbarrava invariavelmente no meu território. Ali, eu começava a entender que não estou deslocado de onde vim. Ao falar sobre mim, falava de uma igreja da minha infância, de um bar que frequentava, de um lugar a que ia com os amigos — lembra Felipe.
Adeus a Caubi:
Santos e jogo do bicho
Para a divulgação do álbum, sua “última cartada” foi transformá-lo num produto. Foi assim que nasceu — à época com poucas estampas — o perfil @terrademulherbonita no Instagram, hoje com 18,4 mil seguidores. Os primeiros mil seguidores foram alcançados quando a artista plástica Sabryna Motta compartilhou nas redes uma bandeira com a frase “Terra de Mulher Bonita”, que havia encomendado a Felipe para enfeitar sua casa. Ali, o jovem enxergou um mercado e migrou para as feiras de rua.
O foco passou a ser nas bandeiras, vendidas em sete opções de tamanho, com a menor saindo a R$ 25 e a maior, a R$ 160. Entre as estampas mais pedidas estão a de Cosme e Damião (com referência à bandeira do Brasil e à frase “Fé nas crianças”) e a dos dizeres “O inimigo é fraco perto das rezas de minha mãe”. Já a bandeira mais conhecida produzida por ele é a com os 25 grupos do jogo do bicho, do avestruz à vaca, vendida também como pano de prato ou canga.
Helicóptero na praia:
Seus produtos fazem alusão ainda às embalagens de salgados (com a famosa inscrição “Feito com amor”) e de pipocas de rua. Resultado: todo mundo reconhece, lembra de alguma lanchonete, barraquinha de comida ou carrocinha de pipoqueiro que já fez parte de sua vida.
— Como diz uma música dos Racionais, “Periferia é periferia em qualquer lugar”. As periferias e os subúrbios se parecem. Tento dialogar com aquilo que é comum para as pessoas, para mim, para a minha religiosidade, com o que entendo de ser brasileiro — observa o artista.
Sem bom senso em sem regras:
‘Sudoeste é vento’
A tal representatividade também foi a aposta do publicitário Osmane Fonseca, cria de Irajá, ao fundar a Irada, marca de camisas vendidas pela internet com estampas inspiradas nos nomes de bairros, mas também em experiências que só quem viveu conhece, como os itinerários anunciados nos alto-falantes de Kombis. Até a camisa “Sudoeste é vento”, crítica à nova região do Rio criada no ano passado, faz sucesso.
— A ideia da Irada é ser uma coisa nostálgica, que traga lembranças. É celebrar a cultura local e o dia a dia do suburbano — conta Osmane. — Começou como marca suburbana, mas atinge o Rio inteiro. Virou algo que faz com que muitos nos procurem: chegou ao ponto de o pessoal do Leme e do Catete pedir camisas, e comecei a fazer.
Trend da Rocinha:
Um dos primeiros nesse ramo foi o niteroiense Beto Neves, fundador da grife Complexo B, no fim dos anos 1990. Pensando em um carioca malandro, mas chique, a marca fez sucesso ao caracterizá-lo como devoto de São Jorge.
— Até então era coisa de suburbano e trago isso para a passarela. São Jorge simbolizava a luta contra a mesmice na moda masculina, acabou virando ícone e despertou o sentimento velado nas pessoas que gostavam (do santo), mas não se permitiam — lembra Beto, que também fez sucesso com estampas de pontos turísticos “off-Cristo Redentor” e bairros como Madureira e Méier. — As pessoas estão muito cansadas do normal. Está tudo muito fácil, acessível. Então, elas vão buscar o original.
Seguindo o mesmo ritmo de Beto, o negócio de Felipe Vaz não para de crescer. Ele concentra todas as etapas da produção da sua marca, da elaboração dos designs e reposição do estoque à entrega nos correios e à montagem da barraca. Mas, no último fim de semana, pela primeira vez, se aposentou das vendas na rua. Contratou funcionárias que se revezam entre Glória e Praça Quinze. E ele não quer parar por aí.
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