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Rocinha vira badalado cartão postal: as novidades que turbinam o turismo na comunidade

Número de visitantes superou 41 mil em janeiro último e é 37% superior ao mesmo mês de 2025, segundo a prefeitura

Agência O Globo - 22/02/2026
Rocinha vira badalado cartão postal: as novidades que turbinam o turismo na comunidade
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

No fim de dezembro, por cerca de sete horas, a estrela internacional Rosalía se esbaldou na Rocinha, na Zona Sul do Rio. Como a espanhola estava sendo reconhecida e ficou inviável circular com ela pela favela, o guia Filipe Diniz, de 21 anos, que acompanhava o grupo da cantora e compositora, decidiu adaptar o roteiro, incluindo no passeio a laje de sua família, na Estrada da Gávea, de frente para a localidade da Cachopa. A fama do espaço veio a reboque. Bastou a visita da diva pop, para o RDlounge se popularizar como Laje da Rosalía e virar mais uma atração na favela. Afinal, lá a artista participou de uma festa improvisada, onde deu uma palinha como DJ, ao lado do DJ G Vibe, arriscou passos de funk e ainda comeu churrasco.

Em maio:

De Rod Stewart a Lady Gaga:

Mas a maior favela do Brasil, segundo o último Censo do IBGE, não caiu só no gosto de Rosalía. A comunidade entrou na rota do turismo, turbinado por novidades. Entre elas, o serviço de vídeo com drones, visitas a lajes para fotos e comes e bebes, o aplicativo Na Favela Turismo e o mototour. E tem até uma cerveja artesanal própria, a Sobe Aê!, uma pilsen produzida em Nova Friburgo e vendida desde dezembro na Rocinha e no vizinho Morro do Vidigal.

O Na Favela Turismo cadastrou, em janeiro último, 40 mil visitantes, cinco vezes mais do que os 7.500 inscritos no mesmo mês de 2025, quando o aplicativo foi lançado. Idealizador do app, Renan Monteiro conta que os visitantes são acompanhados on-line durante passeios a pé, de moto ou por trilhas. Pelo caminho, há pontos de apoio, para ir ao banheiro, abrigar-se de um temporal ou até, eventualmente, se proteger de um tiroteio inesperado.

— Desde o lançamento do aplicativo, passamos a cuidar muito da questão da segurança. Os roteiros são validados junto à associação de moradores e à comunidade local. Procuramos preservar a comunidade, mesmo fazendo um turismo imersivo, para que todos os visitantes conheçam a favela por inteiro e não superficialmente — explica Renan. — Temos três mil guias cadastrados no app. Destes, há 280 guias locais fazendo passeios a pé, e 482, de moto.

O Observatório do Turismo Carioca — sistema que utiliza geolocalização via operadoras de celular —, da prefeitura, confirma o crescimento do movimento de visitantes na Rocinha. Em janeiro deste ano, o Observatório contabilizou 41.852 turistas na favela, 37% a mais do que o mesmo mês de 2025. Se comparado com janeiro de 2024, o aumento é de 97%.

A comunidade está em 16º lugar entre os lugares mais visitados no Rio. O fluxo de turistas nacionais e internacionais cresceu 34%, de 2024 para 2025, alcançando 292 mil, no ano passado. Porém, o maior aumento foi o de estrangeiros, de 93%, chegando a quase 88 mil visitantes internacionais em 2025.

Crachás e cursos

Em geral, os roteiros a pé começam no lado da Gávea. Alguns veículos param no início da favela com os visitantes, que seguem de moto até um dos restaurantes no alto da comunidade, como o Mirante da Rocinha e o Novo Visual, de onde partem os tours. Quem opta pelo passeio de moto, costuma embarcar nas proximidades da estação do metrô de São Conrado.

Virou rotina esbarrar com grupos de turistas  — alguns com camisas do Brasil — na garupa de motos, caminhando pela Estrada da Gávea e por becos, subindo o Laboriaux, entrando em lojas de lembranças, visitando a galeria Wark (artista plástico e grafiteiro, nascido e morador da Rocinha) e assistindo apresentações de capoeira e passinho. Junto a eles, monitores do Na Favela Turismo e guias são identificados por crachás e camisetas. Estimulados pela ascensão do turismo, guias locais passaram a fazer cursos para se aperfeiçoarem na atividade e em idiomas.

— Com os guiamentos, a minha fluência melhorou. Sou formado em inglês, e tive espanhol na escola. Conversei com a Rosalía nos dois idiomas. Ela é muito gentil, gente boa, e gosta do MC Cabelinho. — conta Filipe Diniz. — Ela e os seus amigos perguntaram se turismo na favela era algo “errado”, pois ouviram pessoas falando que não deveriam fazer. Daí, expliquei e dei a minha opinião. Eles se surpreenderam com a tranquilidade da favela, mas desde o início fiz questão de deixar isso bem claro.

O encontro de Filipe com a celebridade só foi possível, porque o serviço foi passado por um amigo da agência contratada para fazer o passeio com o grupo da cantora.

— O meu amigo estava ocupado no dia, mas na metade do passeio chamei ele — brinca o guia. — O passeio começou 16h e ficamos até 23h. Rosalía subiu de moto. Depois da laje, ela quis descer a pé, porque estava chovendo. Viveu uma experiência completa: chuva, queda de luz, festa, churrasco. Teve de tudo.

Passarela de turistas

Tamanha a efervescência de visitantes, a Rua 1, antigo point de traficantes, transformou-se numa congestionada passarela de turistas, que buscam uma das seis lajes de onde se tem uma vista privilegiada da favela. A queridinha é Laje Porta do Céu, onde se forma fila para sentar em uma cadeira e, com o auxílio de um drone, obter a lembrança perfeita do passeio.

— Fizemos um voo de parapente antes (da Pedra Bonita até a Praia de São Conrado). Adorei. Mas também achei muito interessante a vista da laje e o vídeo; inesquecível — diz a paraguaia Silvia Ferreira, de 25 anos, que visitava o Rio com o namorado, o comerciante Mario Benitez, de 34.

Sozinha no Rio pela primeira vez, a polonesa Aleksandra Kowalczyk, de 38 anos, se surpreendeu com a segurança do passeio:

— Antes de reservar o tour, fiquei com um certo receio. Falaram que é perigoso. Mas foi tranquilo.

A paranaense Marielle Bottolo, de 36 anos, também estava insegura. Porém, a confiança veio assim que reservou o tour, através de uma rede social:

— As fotos já me chamaram a atenção.

Tours são oferecidos por sites, como Viator e GetYourGuide, e por páginas de agências e guias na internet. Os preços vão de R$ 107 a R$ 450, dependendo do número de horas e se o passeio é em grupo ou privativo. Também há possibilidade de conjugar com atividades fora da favela. Os valores incluem taxas como a de visita a uma laje e a do aplicativo. A filmagem de drone é à parte e custa até R$ 130.

O Jeep Tour, pioneiro no turismo na Rocinha — começou em 1992 — permanece fazendo passeios. O representante Tomás Monnerat explica que a empresa busca turistas nos hotéis, levados até o restaurante Novo Visual, de onde o grupo segue a pé. O tour de três horas custa R$ 220.

‘Contar nossa história’

O turismo na Rocinha também é medido pela quantidade de estabelecimentos ligados à alimentação que foram ou estão sendo preparados para atender aos visitantes. Segundo o presidente da União Pró Melhoramentos da Rocinha, João Bosco de Castro, dos cerca de 400 restaurantes, bares e lanchonetes da favela, entre 60 e 80 se adaptaram ou estão em processo de reforma para o atender à nova clientela.

Na mesma vibe, o mercado de aluguel ganha força, com anúncios feitos em plataformas, como Booking, ou por acordos diretos entre proprietários e eventuais clientes. João Bosco contabiliza entre cem e 200 imóveis alugados por diárias que variam entre R$ 120 e R$ 300, dependendo da localização e da estrutura. Contudo, em determinadas épocas, como durante o carnaval e o réveillon, os valores aumentam.

Mãe de cinco e avó de seis, Cláudia de Oliveira, de 54 anos, largou a faxina e entrou de cabeça no negócio do turismo. Começou como guia, atividade que divide, agora, com a de empresária. Ela reformou uma casa de dois quartos no Laboriaux, que passou a alugar por temporada. Cobra entre R$ 350 e R$ 400 a diária, e diz que o imóvel pode alojar até cinco hóspedes com conforto.

Cláudia tem um perfil profissional na internet, para divulgar seu trabalho como guia. E defende que a atividade seja exercida por crias da favela:

— Nós é que temos que contar a nossa história, ser protagonistas da nossa história. Precisamos criar maneiras de o dinheiro girar dentro da favela. Faço walking tour. Também já levei turista para almoçar, cortar cabelo, tomar uma cerveja, comer uma feijoada e para curtir baile funk à noite. Favela não tem só a violência que dizem. A Rocinha está de braços abertos para receber os turistas.

Entre as metas de Cláudia para este ano, estão avançar no aprendizado do inglês e do espanhol e começar a estudar italiano:

—Atendo muitos italianos. A sorte é que eu falo inglês. Mas eu quero também falar o italiano, porque quanto mais idiomas melhor.

‘Muitos sonhos a realizar’

Já a pernambucana Jucilene Pereira Diniz, de 50 anos, 40 deles vividos na Rocinha, é uma das quatro mulheres cadastradas no “Na Favela Turismo” para fazer mototour. Desde 2005 no mototáxi, partiu para o novo desafio há cerca de quatro meses.

— Saí novinha de Pernambuco para a Rocinha. Virei empregada doméstica. Não sabia ler nem escrever. Hoje, me vejo uma grande mulher. Tenho muitos sonhos a realizar, sonhos que não pude conquistar na adolescência e na juventude, porque precisei ajudar minha mãe e meus irmãos — afirma Jucilene, conhecida na comunidade como Magrinha, que está matriculada no EJA (Educação de Jovens e Adultos) e faz curso de inglês.

De acordo com o observatório da prefeitura, em 2025, entre os estrangeiros, argentinos (20,5%) lideraram as visitas, seguidos de americanos (12,3%), franceses (11,4%) e chilenos (8,7%). No turismo nacional no ano passado, São Paulo respondeu por 32,1% do total, seguido por Minas (14,4%) e Ceará (9,8%) e Bahia (4,6%).

Diante da nova realidade da Rocinha, João Bosco espera ações concretas do poder público. Tais como o reconhecimento institucional do turismo comunitário, com políticas públicas específicas; a capacitação profissional para moradores; a melhoria da infraestrutura urbana básica; o fomento à economia local, com linhas de crédito para pequenos empreendedores; e a regularização e o apoio aos projetos existentes.

— O turismo na Rocinha cresce porque é feito por moradores, para moradores, gerando renda, fortalecendo a autoestima local e apresentando a favela como território de cultura, inovação e potência econômica, muito além dos estigmas históricos — ressalta o líder comunitário.