RJ em Foco
O outro lado da folia: Reforço na segurança não impede furtos e golpes contra turistas durante o carnaval
Foi o caso da turista francesa Eva Stojarovic: perto das 2h da última segunda-feira, depois de muito festejo, ela estava sentada em uma escada na Lapa, ao lado da amiga Adele Keib, quando um adolescente surgiu por trás e arrancou o celular de sua mão. Seu primeiro impulso foi correr atrás do jovem, mas ele não estava sozinho. Logo cercada por um grupo, Eva foi empurrada contra uma árvore e sofreu escoriações nos cotovelos.
O que aconteceu na Avenida, no desfile da campeã Viradouro ou no da rebaixada Acadêmicos de Niterói deixou lições para os próximos carnavais. Fora da Sapucaí também. A festa atraiu seis milhões de turistas brasileiros e estrangeiros, segundo o governo do estado. Essa bem-vinda multidão se esbaldou, aqueceu a economia do estado e contou com reforço na segurança: a Polícia Militar mobilizou efetivo de 12.500 agentes. Alguns deles, fantasiados, fizeram prisões infiltrados nos blocos. Mesmo assim, teve gente que veio de longe para participar da folia e virou estatística nos índices de criminalidade do Rio.
— Já é errado roubar, mas não precisava me machucar — lamentou.
A amiga Adele sofreu a mesma abordagem, mas conseguiu recuperar o telefone — ao contrário de Eva. O episódio envolvendo turistas estrangeiros não foi o único naquela madrugada.
Delegacia lotada
Na mesma segunda-feira, uma equipe do GLOBO ficou duas horas na Delegacia de Atendimento Especial de Apoio ao Turismo (Deat), no Leblon. Entre 15h40 e 17h40, 23 estrangeiros passaram pela unidade. A delegacia ficou lotada toda a tarde, com atendimentos que chegaram a durar três horas. A cena já havia se repetido no dia anterior.
Os casos apontam um padrão: abordagem por trás, ação rápida, fuga de bicicleta ou motocicleta e atuação em grupo para impedir a reação da vítima. Foi o que aconteceu também com a finlandesa Tuija Mäntynen, que caminhava pela Glória em direção ao Catete, na Zona Sul, quando um homem puxou o cordão robusto que trazia no pescoço, arrebentando-o e levando o celular preso a ele.
— Eu não vi o homem vindo por trás. Quando percebi ele já tinha levado meu celular. Havia muita gente ao redor, mas acho que ficaram com medo — lembrou Tuija.
Da última sexta-feira à terça-feira de carnaval, a Polícia Militar prendeu 458 pessoas em flagrante por furtos e roubos — número 15% maior do que o verificado no mesmo período do ano passado — e apreendeu 74 adolescentes. A corporação ainda recuperou 97 celulares e apreendeu 53 armas de fogo, além de 111 simulacros. A Polícia Civil informou que todas as ocorrências registradas na Deat, que funciona 24 horas, são apuradas com instauração de procedimentos e diligências para identificar os autores.
— O recado é que o Rio é um local seguro para o turista e para o morador. O turista não vem para um local que considera inseguro — afirmou o secretário de Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes.
O planejamento de segurança vem trazendo resultados nos últimos grandes eventos na cidade. Mesmo assim, o impacto de um crime flagrado, gravado em celular e publicado nas redes sociais é grande. Um vídeo, confirmado pela PM, mostra uma turista sendo derrubada por uma rasteira em plena Avenida Chile, no Centro, enquanto outro homem sai correndo com o celular dela. De acordo com a corporação, o caso ocorreu no domingo de carnaval, e três suspeitos foram presos com um telefone, um carregador, um relógio e 5 euros. A vítima reconheceu os objetos.
Epicentro do agito nos dias de folia, a Lapa onde as francesas Eva e Adele passaram por apuros também reservou uma surpresa ruim para as escocesas Abby Sue, de 21 anos, e Kaythlin McAcllister, de 27. Foram dois ataques em menos de cinco minutos. Abby teve o celular arrancado enquanto tentava ajudar um casal embriagado usando um aplicativo tradutor.
— Passou um menino correndo e puxou o telefone. Após cinco minutos, um homem tentou levar a bolsa de Kaythlin, que conseguiu segurar — contou Abby.
‘Não pode baixar a guarda’
O londrino Croydon, que preferiu não informar o sobrenome, relatou situação semelhante. Na última sexta-feira, um homem tentou arrancar o celular de sua mão, mas ele não o largou. Já na madrugada de segunda-feira, ao emprestar o telefone para um amigo chamar um carro de aplicativo, perto dos Arcos da Lapa, teve o aparelho levado:
— Não pode baixar a guarda nem por um segundo — reconheceu.
A lista é comprida como a fila na delegacia. O israelense Shahar Izhaky, de 22 anos, perdeu o celular ao tentar localizar o motorista de aplicativo que o levaria da Lapa ao hotel, em Copacabana. Um homem de moto puxou o aparelho e fugiu.
Na Pedra do Sal, o inglês Ollie Waldran, de 21 anos, guardou o celular no bolso e, em segundos, notou seu sumiço. Dias depois, sofreu uma tentativa de golpe na Praia de Ipanema: ao comprar um mate por R$ 15, o vendedor teria digitado R$ 1.500 na máquina, mas a cobrança não foi concluída.
O holandês Finn de Groot, de 24 anos, contou ter sido seguido por um grupo em um bloco de Botafogo:
— Senti uma mão no meu bolso. Abriram o zíper e puxaram meu celular.
Já alemão Marco, que prefere omitir o sobrenome, disse ter sido vítima de fraude ao comprar um cigarro.
— O vendedor disse que não tinha passado e pediu para tentar de novo. Ao conferir o aplicativo do banco, vi cobranças de R$ 3 mil e R$ 2 mil. Quando ele notou que eu estava conferindo, saiu correndo.
A polonesa Maja Dopiera, de 21 anos, deu mais sorte: Ao tentar tirar uma foto, teve o celular puxado e saiu correndo atrás do suspeito.
— Quando virei a esquina, uma policial o pegou com meu aparelho.
A cabo Munique, do 5º BPM (Praça da Harmonia), perseguiu e prendeu o homem. Na Deat, ele foi identificado como Erick Vieira Figueiredo.
Como a maioria dos casos ocorreu no Centro — inclusive um ataque a quatro francesas na dispersão do Sambódromo —, a PM reforçou a segurança na região.
Apesar dos episódios, a maioria dos turistas não pretende alterar os planos.
— O Rio é maravilhoso — disse Shahar.
Colaboraram Amanda Rosa e Bia Leão
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