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De piloto de jato a Mago da Sandálias, quem faz as rainhas brilharem? Viviane Araujo, Virginia Fonseca e mais representantes abrem segredos

Veteranas e novatas revelam quem são os súditos que compõem seu staff. Número geral supera 150 pessoas

Agência O Globo - 15/02/2026
De piloto de jato a Mago da Sandálias, quem faz as rainhas brilharem? Viviane Araujo, Virginia Fonseca e mais representantes abrem segredos
Viviane Araujo - Foto: Reprodução

Debaixo de um toró, desce do carro sem descer do salto. Para não se molhar, recebe a ajuda de Wander Fernandes, xará do . Uma não nasce da noite para o dia, nem deixa de enfrentar mau tempo. Sem o topete inconfundível do puxador da escola, o amigo e assistente da diva a acompanhou por mais de 20 carnavais, com reinado (sua primeira temporada na escola foi de 2004 a 2007) ou sem. Os dois cresceram juntos no Barreto, em Niterói, bem colado a São Gonçalo, bairro que abriga a quadra da vermelho e branco, representante das duas cidades na Sapucaí.

Júri elege 'Rainha das Rainhas'':

Beleza e samba no pé:

A seis quilômetros dali, no Flamengo, Viviane Araujo, a estrela à frente da bateria do Salgueiro, se arrumava num estúdio com cerca de dez pessoas, entre elas o marido, Guilherme Militão, o filho, Joaquim, e a assessora, Debora Martinez. Do lado de fora, na van, mais amigos esperavam para vê-la homenagear Rosa Magalhães no último ensaio antes do “dia D”. Entre as rainhas de bateria das 12 escolas, o número de integrantes de suas equipes, sem contar os que as agremiações cedem, supera 150. Há pilotos de jatinhos, requisitados por poderosas de agenda cheia como Sabrina Sato e , maquiadores, estilistas e muitos outros personagens em funções diversas.

Antiguidade é posto

As semelhanças entre Viviane Araujo, de 50 anos, e Juliana Paes, 46, vão além da experiência e das cores de suas escolas. As duas prezam por ter ao lado dezenas de pessoas de confiança e parcerias de longa data. Para Ju, seu braço direito é o amigo da juventude; com a atriz da novela “Três Graças” tem como seu porto seguro a dinda de Joaquim, de 3 anos.

Carnaval RJ 2026:

Antes da nobreza, a rainha de bateria da vermelho e branco de Niterói e o “amigo-até-debaixo-d’água” partilharam mil perrengues; atravessar os arredores da maior avenida do Rio para chegar à mais conhecida passarela do carnaval do planeta foi moleza. Ainda que do carro tenham saído mais cinco pessoas carregadas com roupas e equipamentos.

— Está todo mundo aqui para me ajudar – disse, sem perder o bom humor, a rainha com cerca de 20 súditos para fazê-la brilhar no carnaval, entre assessores, empresária, estilista, fisioterapeuta para cuidar da lombar e mais sete pessoas trabalhando só na fantasia da grife Dolce & Gabbana que usará.

Viviane, hoje à frente de uma corte variada e interestadual, lembra como foi simbólica a sua primeira vez na Sapucaí, em 1995, antes de ir para o Salgueiro:

— Foi na Beija-Flor. Milton Cunha era o carnavalesco. Ele perguntou: “Você tem um biquíni branco? Põe o biquíni e usa esse arquinho!”. Naquele dia, foi um amigo do meu pai, que era policial, que me levou para a quadra — diz a rainha, lembrando os improvisos.

Nada que remeta à enorme estrutura que tem, por exemplo, Sabrina Sato, passageira frequente de jatinhos para se equilibrar entre os carnavais de Rio e São Paulo. Bem antes de pisar na Avenida, ela abriu alas como rainha de bateria e garota propaganda: de ensaio fotográfico temático, fantasias antecipando referências da Vila Isabel, vídeos para a internet, programa de TV (“Carnaval da Sabrina”, no GNT) e série para as redes sociais.

Quinze anos depois, a disposição só aumentou. Às vésperas da publicação desta reportagem, dia de fotos, a apresentadora chegou às 4h50 em casa. E acordou às 6h20 para arrumar Zoe, sua filha, de 6 anos.

— Era carnaval na escola dela! Voltei e dormi um pouquinho — soltou, antes da entrevista.

Sua primeira vez no carnaval da Vila, que neste ano homenageia Heitor dos Prazeres, foi em 2011, ano em que as redes sociais eram mato e no streaming não havia programas lançados de maneira tão veloz quanto uma escola atrasada para encerrar o desfile.

— Era tudo muito mais intuitivo. Não existia o que eu tenho hoje. Era maquiador, cabeleireiro, stylist, alguém ajudando na fantasia e a equipe da escola — diz a rainha da azul e branco, que hoje, por baixo, tem uma equipe que supera 40 pessoas trabalhando só em seu carnaval do Rio; algumas fazem o carioca e o paulista.

Sem sentir o peso do costeiro e de outras “responsas” da Avenida, ela ainda agregou uma colega de posto ao seu escopo de trabalho. Em 2026, Mayara Lima, rainha da , passou a ser agenciada por Sato. Com uma equipe mais enxuta, a carioca tem dez súditos, um deles o "Mago das Sandálias", Seu Pedro, que faz o calçado impecável: com conforto e sem risco de queda para a passista.

Uma rainha raiz, de comunidade e experiente, tem súditos que a sustentam além das plumas e paetês ou da imagem. É o caso da da Mangueira, que acumula com o posto de rainha de bateria o de presidente da Mangueira do Amanhã, e de Bianca Monteiro, da Portela, fundadora da Oficina Paulo da Portela, iniciativa voltada à valorização do samba em Madureira, e diretora cultural do Filhos da Águia, escola de samba mirim.

— Estou com 38 anos, poder fundar a oficina é devolver às pessoas tudo o que fizeram por mim. São dez anos à frente da bateria; a gente acaba querendo se ver em outro lugar — diz a representante da azul e branco de Oswaldo Cruz, que uma equipe de nove pessoas para cuidar de sua imagem e de seu corpo no carnaval.

Fabiola Andrade, rainha de bateria da Mocidade, tinha três pessoas em sua equipe há três carnavais; hoje, o número quadruplicou. Para a gaúcha que samba à frente dos ritmistas na verde e branco que homenageará Rita Lee são imprescindíveis também os seguranças que fazem sua escolta. Seu marido, o contraventor Rogério Andrade, segue preso no Mato Grosso do Sul. No Rio, a rainha se dedica intensamente ao samba e é acolhida pela comunidade de Padre Miguel.

— O que mais me marca é o carinho. As pessoas vibram, torcem, se emocionam. Esse amor é o que me move e me dá ainda mais força. Para eu brilhar, não pode faltar minha energia e minha verdade. Eu preciso estar feliz, conectada com a bateria e sentindo aquele momento — explica.

Entre os de confiança das rainhas, não tem bobo da corte. É preciso tato para lidar com contratempos e imprevistos — os súditos de Bianca Monteiro levam sandálias reservas, linha e costura para a Sapucaí — e cuidado com a saúde. No camarim antes de atravessar a Sapucaí, soltou:

— Faço muito “cárdio” para estar em forma na Sapucaí, e acho ótimo, porque é uma preparação para tudo, né?

Ela mostra a cicatriz de uma cirurgia que fez no joelho esquerdo, em 2018, e costuma recorrer à fisioterapia e à massagem.

— Faço uma preparação especial para não sobrecarregar o joelho, que de vez em quando precisa de uma drenagem.

Virgínia Fonseca, estreante na Grande Rio, vem forte com seu bordão, “Bora pra cima”, com ânimo para encarar até o que rainhas e musas de toda folia passam: quedas ou corpo mais à mostra do que o planejado e a força de uma equipe de mais de 20 pessoas em seu apoio. A fantasia terá 70% da roupa com transparência.

— Se tiver imprevistos vamos com imprevistos mesmo. Só enfrentando nossos medos é que alcançamos feitos inesquecíveis.

Outra novata na Sapucaí é Mileide Mihaile, influenciadora digital maranhense de 36 anos, que estará na Unidos da Tijuca. Desde o pré-carnaval, vem sendo acompanhada por dez pessoas:

— E tenho ainda na assessoria de imprensa três profissionais: um em Fortaleza, um em São Paulo, onde moro atualmente, e contratei uma especializada para o carnaval do Rio.

Colaborou: Naiara Andrade, do Jornal Extra