RJ em Foco
Fuzil desviado da PM há mais de 15 anos está entre os apreendidos com traficantes do CV na operação mais letal da história
Arma que desapareceu de batalhão foi apreendida em outubro na megaoperação no Alemão e na Penha, assim como munição comprada pela corporação e pelo Exército
Um fuzil desviado da Polícia Militar do Rio há mais de 15 anos está entre as armas apreendidas com traficantes durante a operação mais letal da história do país, nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro do ano passado. É o que revela uma análise feita pelo GLOBO em parceria com o Instituto Sou da Paz nos laudos periciais produzidos a partir do material apreendido na Operação Contenção, que também identificou munição desviada da PM fluminense e do Exército entre os cartuchos retirados das mãos dos criminosos.
Segredos do crime:
Em um saco de lixo:
O paradeiro do fuzil — modelo M964, calibre 7,62 e número de série 267049 — era desconhecido desde janeiro de 2010, quando uma vistoria constatou o sumiço de dez armas da reserva de material bélico do 16º BPM (Olaria), justamente o batalhão responsável pelo patrulhamento do Alemão. O armamento foi encontrado por agentes do Batalhão de Choque com o grupo de criminosos acusado de disparar contra o delegado Bernardo Leal Annes Dias, que foi baleado durante a operação e precisou ter a perna amputada.
Em depoimento, um dos policiais responsáveis pela apreensão afirmou que, no dia da operação, sua patrulha avançava por um beco na localidade da Vacaria, no Complexo da Penha, quando, por volta das 7h50, se deparou com os criminosos que atiravam na direção do delegado. Como não tinham um bom ângulo para responder aos disparos, os agentes lançaram bombas de gás lacrimogêneo contra os traficantes, que fugiram e se abrigaram em uma casa na Rua 29. A equipe seguiu o grupo e, após duas horas de troca de tiros, conseguiu chegar ao imóvel, onde um casal era mantido refém.
25 presos com 20 armas
Depois de uma breve negociação, os traficantes se renderam e toparam deixar a casa desarmados, sem camisa e de mãos dadas. “Sem esculacho. Nós tá na mão, tranquilidade. As armas estão lá em cima”, disse um dos criminosos filmados pela própria refém num vídeo que viralizou nas redes sociais.
Na casa, um homem foi encontrado morto e 25 suspeitos foram detidos, dois deles adolescentes. Mais da metade não era do Rio: 11 eram naturais da Bahia, quatro do Pará, um do Maranhão e um de Pernambuco. A busca no imóvel resultou na apreensão de um revólver e 19 fuzis — entre eles, o armamento desviado da PM, produzido pela Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel), estatal vinculada ao Exército, em Itajubá. A arma traz gravada numa parte em metal a inscrição “Estados Unidos do Brasil – 15 de Novembro de 1889”, o que indica tratar-se de um “patrimônio das forças de segurança pública”, segundo escreveu no laudo o perito responsável por analisar o fuzil.
Todos os 23 presos maiores de idade respondem pelos crimes de tráfico, associação para o tráfico, porte de armas, cárcere privado e tentativa de homicídio contra o delegado Bernardo Leal. O tiro que o atingiu fraturou o fêmur e rompeu a artéria e a veia femorais, provocando uma hemorragia tão grave que ele precisou receber 30 bolsas de sangue. Leal teve alta em dezembro do ano passado, após 47 dias internado. O governo do estado divulgou que custeará sua prótese. Ao todo, 117suspeitos e cinco policiais foram mortos na Operação Contenção.
Até hoje, nenhum policial foi responsabilizado pelo sumiço do fuzil apreendido com os traficantes — e a investigação aberta para apurar o extravio das dez armas também desapareceu. O Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado após um oficial do 16º BPM detectar, durante uma conferência realizada em janeiro de 2010, o desfalque de seis fuzis — quatro deles de calibre 7,62 e dois de calibre 5,56 —, além de três submetralhadoras e um revólver da unidade. A corregedoria chegou a identificar uma testemunha que afirmou, em depoimento, ter presenciado a venda de um fuzil da corporação por R$ 45 mil a milicianos da Zona Norte. A apuração, no entanto, não avançou.
Onze anos depois, a PM abriu uma nova investigação sobre o caso — dessa vez, para apurar o desaparecimento do próprio IPM sobre o sumiço das armas. Em 2024, o Ministério Público arquivou esse novo procedimento por “não haver elementos suficientes para o exercício responsável da ação penal”, sem localizar o inquérito inicial. Até hoje não se sabe onde estão as outras armas.
Também há cartuchos desviados de forças de segurança entre as munições apreendidas com os criminosos durante a Operação Contenção. Em meio ao material encontrado pelos agentes na casa onde o fuzil da PM foi localizado, havia um projétil do lote CYA19, adquirido pelo Exército. Outro cartucho comprado pelo órgão — do lote ETU03 — municiava o fuzil portado por Juan Matheus Bezerra dos Santos, preso durante a ação na Rua José Telino de Melo, no Complexo da Penha, após ser encontrado por policiais caído e baleado na perna, com a arma a tiracolo.
Lotes da força federal
Já com o baiano Luan Ferraz Leão da Silva e com o capixaba Cleyton Silvestre Pereira, presos em uma casa na Vacaria após trocarem tiros com policiais civis, os agentes encontraram cartuchos calibre 7,62 de dois lotes vendidos ao Exército, EGH61 e AJD18, além de um lote vendido à PM do Rio, o DZI45. Todos os projéteis estavam aptos a disparo, segundo a perícia. Não há, nos laudos, informação sobre se os cartuchos são originais ou se foram recarregados.
Questionada sobre se algum policial foi punido pelo extravio do fuzil encontrado com os traficantes, a Secretaria de Polícia Militar afirmou apenas que “a Corregedoria Geral abriu um Inquérito Policial Militar, o qual foi encaminhado para o Ministério Público”.Já o Exército, sobre os lotes encontrados durante a operação, informou que enviou a demanda para os setores responsáveis e não deu mais retorno.
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