Política

Milhões na campanha e limites nas urnas: Júlio e Mosabelle perdem força em Palmeira dos Índios

Ex-prefeito teve mais de R$ 1 milhão em receitas declaradas e quase repetiu a votação municipal da esposa em 2022; Mosabelle Ribeiro arrecadou quase sete vezes mais que na disputa anterior, mas perdeu votos

Redação 17/10/2026
Milhões na campanha e limites nas urnas: Júlio e Mosabelle perdem força em Palmeira dos Índios
Em linguagem de ringue político, a imagem de “sparring preferida” resume, como metáfora, a posição de Mosabelle na rivalidade com Júlio Cesar

A eleição de 2026 expôs os limites dos projetos de Júlio Cezar (PSD) e Mosabelle Ribeiro (UB), representantes de dois grupos tradicionais da política de Palmeira dos Índios. Com recursos expressivos para suas campanhas, ambos disputaram uma cadeira na Câmara dos Deputados e terminaram sem conquistar o mandato. O resultado impõe a reorganização de suas bases para 2028, em um cenário municipal que ganhou novas lideranças.


Júlio, candidato pelo PSD, foi o mais votado para deputado federal em Palmeira, com 11.198 votos, à frente dos 6.227 de Mosabelle. O ex-imperador ganhou em 156 das 170 urnas de Palmeira. Mosabelle venceu em 11 seções A vantagem de 4.971 votos mostra que conserva uma base importante no município. Em Alagoas, entretanto, somou 20.099 votos e ficou como suplente. Cerca de 55,7% de sua votação estadual veio de Palmeira. Já Mosabelle, apenas 7.765 votos.


A campanha do ex-prefeito declarou R$ 1.014.000 em receitas, dos quais R$ 1 milhão teve origem no diretório nacional do PSD. As despesas contratadas informadas chegaram a R$ 591.130,17. São valores das contas parciais disponíveis no TSE, que distinguem o dinheiro recebido dos gastos registrados.


O porte financeiro e a trajetória de dois mandatos como prefeito davam condições para uma campanha com alcance mais amplo. A comparação com a candidatura de sua esposa, Karla Cavalcante, evidencia o crescimento limitado da base municipal: em 2022, disputando uma vaga de deputada estadual, ela recebeu 10.175 votos em Palmeira. Quatro anos depois, Júlio acrescentou 1.023 votos àquela marca, um avanço de aproximadamente 10%.


A comparação envolve candidatos, cargos e conjunturas diferentes, mas serve de referência para avaliar o potencial do grupo. A eleição estadual é mais pulverizada entre candidatos, enquanto a federal reúne menos concorrentes. Mesmo disputando pessoalmente e com seu grupo permanecendo à frente da Prefeitura, Júlio ficou próximo do patamar alcançado por Karla. Na leitura política, o crescimento modesto sustenta a avaliação de dificuldade de expansão e perda de potencial de mobilização.


Para Mosabelle, candidata pelo União Brasil, a distância entre dinheiro disponível e desempenho eleitoral foi ainda mais acentuada. Em 2022, sua campanha federal arrecadou R$ 416 mil. Em 2026, as receitas chegaram a R$ 2.851.470, aproximadamente 6,85 vezes o valor anterior - crescimento nominal de 585,4%. O aumento de quase sete vezes, portanto, refere-se à arrecadação.


Nas despesas contratadas, Mosabelle passou de R$ 399.932,42 em 2022 para R$ 2.138.112,06 nas contas parciais de 2026. O gasto declarado alcançou aproximadamente 5,35 vezes o registrado na campanha anterior. A ampliação dos recursos disponíveis reforçava a expectativa de uma candidatura capaz de expandir sua presença eleitoral.


As urnas, porém, registraram recuo. Em Palmeira, Mosabelle passou de 6.556 votos para deputada federal em 2022 a 6.227 em 2026, uma perda de 329, aproximadamente 5%. Em Alagoas, caiu de 9.079 para 7.765 votos: menos 1.314, retração de cerca de 14,5%. Perdeu também a liderança municipal para o cargo, conquistada quatro anos antes.


O contraste é o ponto central de seu balanço: a campanha ficou financeiramente maior, mas recebeu menos votos. Cerca de 80% de sua votação estadual continuou concentrada em Palmeira. O reforço da arrecadação e das despesas não se traduziu em expansão eleitoral nem na conquista do mandato federal.


O pleito também acrescentou um terceiro revés de Mosabelle diante de Júlio ou de seu grupo. Em 2020, ela perdeu a Prefeitura para o próprio Júlio. Em 2024, foi derrotada por Luísa Júlia Duarte, tia e sucessora apoiada pelo ex-prefeito. Em 2026, terminou atrás dele na votação municipal para deputado federal, embora os dois tenham ficado sem uma cadeira na Câmara.


Em linguagem de ringue político, a imagem de “sparring preferida” resume, como metáfora, a posição de Mosabelle nessa rivalidade: uma adversária recorrente que mantém o confronto em evidência, mas tem saído atrás nas disputas entre os dois campos. O histórico oferece ao grupo de Júlio um embate conhecido; a chegada de outras lideranças põe sua força à prova em um cenário menos previsível.


Enquanto os projetos federais dos dois adversários ficaram pelo caminho, Hugo Wanderley (MDB) foi eleito deputado estadual com 47.724 votos em Alagoas. Em Palmeira, recebeu 3.677 e liderou a disputa para a Assembleia Legislativa. Seu pai, Dr. Wanderley, obteve 14.540 votos no município como candidato ao Senado. Os resultados, em cargos distintos, demonstram a presença eleitoral da família. Ronaldo Medeiros, palmeirense da gema – é outro nome em crescimento na cidade com 2.657 votos, quase 8 vezes a mais do que na eleição anterior. Marcelo Victor aumentou o sarrafo em votos, 2.921 sufragios, mas sempre no patamar recorrente de outras eleições entre 2500 e3 mil votos.


O mais destacado, Hugo Wanderley passa a integrar as articulações locais com mandato parlamentar a partir de 2027, experiência como prefeito de Cacimbinhas e ex-presidente da AMA. Para 2028, sua atuação pode influenciar alianças, fortalecer lideranças e ampliar a disputa pela representação das demandas municipais.


Júlio conserva o vínculo com o grupo que administra a Prefeitura, sua tia é gestora e Mosabelle mantém sua base e alianças estaduais com o deputado Antônio Albuquerque e a esfinge JHC. Ambos, contudo, terão de rever estratégias. A rivalidade tradicional continua, mas os recursos empregados e os resultados de 2026 mostram que nenhum dos dois conseguiu o salto eleitoral pretendido para Brasília nem para 2028. A próxima disputa municipal exigirá mais do que repetir os confrontos do passado.


Os valores financeiros de 2026 são parciais, consultados nos arquivos oficiais do TSE em 11 de outubro, e poderão ser atualizados no fechamento das contas.