Política
De duas vezes governador a segundo suplente de Marina: o prêmio de consolação imposto a Ronaldo Lessa
Ex-governador, ex-prefeito, ex-deputado e atual vice-governador termina acomodado na última cadeira da chapa de Marina JHC; no arranjo de Arthur Lira e JHC, uma das maiores biografias políticas de Alagoas virou segunda suplência
Há maneiras elegantes de encerrar uma trajetória política. E há o que fizeram com Ronaldo Lessa na montagem da chapa de JHC e Arthur Lira.
Duas vezes governador de Alagoas, ex-prefeito de Maceió, ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-vereador, ex-vice-prefeito da capital e atual vice-governador do Estado, Ronaldo terminou a costura eleitoral de 2026 destinado à segunda suplência de Marina Cândia, Marina JHC.
A informação não vem de especulação de bastidor.
Está na ata do próprio PSDB/Cidadania e do próprio PDT.
Na relação oficial apresentada à Justiça Eleitoral, a ordem é esta:
Marina JHC, candidata ao Senado;
Eudócia Caldas, primeira suplente;
Ronaldo Lessa, segundo suplente.
Para uma carreira política do tamanho da de Ronaldo Lessa, é difícil chamar isso de promoção.
Parece muito mais um prêmio de consolação.
De governador a reserva da reserva
Ronaldo Lessa não é um personagem periférico da política alagoana.
Sua trajetória começou como deputado estadual, passou pela Câmara de Vereadores de Maceió, pela Prefeitura da capital, pelo Governo de Alagoas durante dois mandatos e pela Câmara dos Deputados. Mais recentemente, foi vice-prefeito de Maceió e, em 2022, elegeu-se vice-governador na chapa de Paulo Dantas.
É um currículo que atravessa mais de quatro décadas da história política do Estado.
Pois essa biografia termina, pelo menos no desenho eleitoral apresentado neste sábado, atrás de Marina JHC, que nunca exerceu mandato eletivo, e atrás de Eudócia Caldas, que chegou ao Senado na condição de suplente de Rodrigo Cunha.
Ronaldo não será candidato ao Senado.
Não será primeiro suplente.
Será segundo suplente.
Na linguagem menos cerimoniosa da política: a reserva da reserva.
Marina leva uma senadora e um ex-governador na reserva
A composição chega a ser politicamente insólita.
Marina JHC encabeça uma chapa na qual os dois nomes colocados atrás dela possuem currículos institucionais muito superiores ao seu.
Na primeira suplência está uma senadora da República.
Na segunda, um homem que governou Alagoas duas vezes.
Ronaldo Lessa foi governador entre 1999 e 2006 e depois exerceu mandato de deputado federal entre 2015 e 2019. Hoje ocupa a Vice-Governadoria de Alagoas.
No entanto, na engenharia política produzida para 2026, toda essa trajetória valeu a ele a última posição de uma chapa senatorial.
O PDT entrou na aliança e Ronaldo recebeu a sobra
A situação fica ainda mais simbólica quando se observa como a vaga foi construída.
A ata da União Progressista, comandada por Arthur Lira, não chegou sequer a mencionar Ronaldo Lessa pelo nome. Apenas determinou que a segunda suplência de Marina caberia ao PDT.
Depois, a ata do PSDB/Cidadania preencheu o espaço: o escolhido foi Ronaldo.
Ou seja, primeiro se decidiu qual partido ficaria com a última cadeira.
Depois apareceu o ex-governador para ocupá-la.
E há algo ainda mais curioso.
A ata do PL, apresentada dez minutos depois da do PSDB/Cidadania, nem sequer assegura a vaga ao PDT. O documento afirma que a segunda suplência de Marina poderá ser indicada por “qualquer outro partido coligado”.
Ronaldo Lessa, portanto, surge formalmente como segundo suplente no documento do PSDB, mas nem todas as atas da própria coligação lhe dão a mesma segurança política.
O tamanho do cargo mede o tamanho do aliado
Na política, espaços de chapa também servem para medir força.
Arthur Lira ficou como candidato titular ao Senado.
O PL recebeu a primeira suplência de Arthur, com Luiz Romero.
Marina JHC ganhou a outra candidatura ao Senado.
Eudócia Caldas ficou como sua primeira suplente.
Para o PDT sobrou a segunda suplência.
E para Ronaldo Lessa, consequentemente, sobrou essa cadeira.
É difícil imaginar uma demonstração mais evidente da perda de protagonismo de um político que já comandou o Estado.
O homem que um dia ocupou o Palácio República dos Palmares agora precisará torcer para Marina ser eleita e, depois, para que Marina e sua primeira suplente deixem definitivamente o Senado para que ele possa alcançar a cadeira.
É uma sucessão de condições improváveis para alguém que já recebeu diretamente do eleitorado alagoano a chave do Governo do Estado duas vezes.
Lessa já foi maior que os donos da chapa
Existe também uma crueldade histórica nessa fotografia.
Quando Ronaldo Lessa governava Alagoas, muitos dos personagens que hoje determinam a composição da chapa ainda construíam suas próprias carreiras.
Lessa já tinha sido deputado, vereador, prefeito e governador.
Hoje, entretanto, o centro decisório é outro.
Arthur Lira organiza sua candidatura ao Senado.
JHC disputa o Governo.
Marina JHC recebe uma candidatura ao Senado.
Eudócia ocupa a primeira suplência.
E Ronaldo Lessa aparece no fim da fila.
Essa ordem diz muito mais do que qualquer discurso sobre prestígio.
O PDT pagou caro para entrar
Para o PDT, a composição também é desconfortável.
Nacionalmente, o partido decidiu apoiar Lula e se posicionar contra o campo político representado pelo bolsonarismo. Em Alagoas, entrou numa coligação com o PL e recebeu como espaço justamente a segunda suplência de Marina.
E quem foi colocado ali não é um quadro desconhecido.
É provavelmente o nome de maior peso histórico que o PDT alagoano poderia apresentar.
Ronaldo Lessa aparece no próprio cadastro da Câmara dos Deputados como filiado ao PDT em sua passagem pelo Congresso, e a Vice-Governadoria o identifica como atual vice-governador do Estado.
O PDT entregou sua história à composição.
Recebeu uma segunda suplência.
Um final pequeno para uma biografia grande
Ronaldo Lessa pode aceitar a composição por disciplina partidária, estratégia eleitoral ou conveniência política. Essa é uma decisão dele.
Mas o significado político do lugar reservado ao ex-governador independe da justificativa.
Arthur Lira será candidato ao Senado. Marina JHC será candidata ao Senado. Eudócia Caldas será primeira suplente. E Ronaldo Lessa, duas vezes governador de Alagoas, ficará como segundo suplente.
É uma hierarquia impossível de ignorar.
O homem que já governou os alagoanos foi colocado atrás da esposa de JHC e da mãe de JHC.
Para uma das maiores biografias políticas ainda em atividade no Estado, o arranjo desenhado neste sábado não parece homenagem.
Parece despedida.
E das pequenas.
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