Política
PDT apoia Lula no Brasil, mas sobe no palanque do PL de Bolsonaro em Alagoas
Partido que decidiu nacionalmente apoiar a reeleição do presidente contra o avanço da extrema-direita fecha, no Estado, aliança com a legenda que disputa o Planalto com Flávio Bolsonaro
O eleitor alagoano terá diante de si uma das composições mais improváveis das eleições de 2026: PDT e PL estarão juntos no mesmo palanque em Alagoas.
De um lado, o PDT, partido que há menos de um mês decidiu oficialmente apoiar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro, o PL, legenda que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência da República e representa o projeto eleitoral nacional do bolsonarismo em 2026.
Em Brasília, estarão em campos adversários.
Em Alagoas, serão aliados.
Não se trata de uma interpretação sobre aproximações de bastidores. A aliança está escrita nas atas partidárias apresentadas neste sábado, 15 de agosto.
A Federação União Progressista relaciona entre os integrantes da coligação de JHC tanto o Partido Liberal quanto o Partido Democrático Trabalhista.
O PSDB/Cidadania de JHC faz a mesma coisa, ratificando uma aliança formada por PSDB/Cidadania, União Progressista, PL, PDT, Democracia Cristã, Renovação Solidária, Podemos e Avante.
E, para não deixar qualquer dúvida, o próprio PL aprovou por unanimidade a participação na coligação ao lado do PDT.
PDT nacional: Lula e combate à extrema-direita
O contraste se torna ainda maior quando se observa o discurso adotado nacionalmente pelo PDT.
Em 20 de julho, a Convenção Nacional do partido aprovou por unanimidade apoio à reeleição de Lula. Na comunicação oficial sobre a decisão, a legenda afirmou que o posicionamento colocava o trabalhismo contra o avanço da extrema-direita nas eleições deste ano.
Do outro lado da disputa presidencial está justamente o PL.
A legenda oficializou em 25 de julho a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência. Na convenção, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, atribuiu a Jair Bolsonaro papel central no crescimento da legenda e vinculou a escolha de Flávio à decisão do ex-presidente.
Ou seja: o PDT pede votos para Lula no Brasil enquanto divide palanque, chapa e coligação com o partido de seu principal adversário presidencial em Alagoas.
E a aliança não é apenas figurativa
PDT e PL não aparecem juntos apenas numa relação protocolar de partidos.
Os dois participam efetivamente da composição da chapa majoritária.
O PL ficou com a primeira suplência de Arthur Lira ao Senado, entregando a posição a Luiz Romero.
Já o PDT ganhou espaço na chapa de Marina JHC. A ata da União Progressista determina que a segunda suplência da candidata ao Senado caberá ao PDT.
E a ata do PSDB/Cidadania vai além: dá nome ao acordo e registra Ronaldo Lessa como segundo suplente de Marina JHC.
Portanto, não é apenas uma aliança eleitoral genérica.
PL e PDT estão distribuindo entre si espaços na mesma estrutura de poder montada em torno de JHC, Arthur Lira e Marina JHC.
O palanque que pode constranger o PDT nacional
A fotografia política que poderá sair de Alagoas durante a campanha tem potencial para extrapolar as divisas do Estado.
Enquanto a direção nacional pedirá voto para Lula e enfrentará eleitoralmente Flávio Bolsonaro, dirigentes do PDT alagoano poderão aparecer em atos de campanha dividindo palco com lideranças do PL e candidatos de uma coligação que incorporou formalmente a legenda bolsonarista.
A situação ganha ainda mais peso porque a eleição presidencial está polarizada justamente entre Lula e Flávio Bolsonaro. Levantamentos divulgados nesta semana mostram os dois como protagonistas da corrida presidencial e próximos num eventual segundo turno.
É nesse ambiente que o acordo alagoano poderá chamar atenção nacional.
O PDT terá que explicar como pretende defender, ao mesmo tempo, Lula contra o projeto nacional do PL e uma coligação estadual construída com o próprio PL.
Em Alagoas, a ideologia coube na mesma ata
As alianças estaduais nem sempre reproduzem as coligações nacionais, e a legislação eleitoral permite arranjos diferentes nos estados. Mas política não se resume à possibilidade jurídica de uma composição.
Há também coerência política, discurso e identidade perante o eleitor.
E é aí que está o ponto delicado para o PDT.
Há menos de um mês, a direção nacional apresentou a escolha de Lula como uma decisão relacionada à defesa da democracia e ao enfrentamento da extrema-direita.
Agora, em Alagoas, o partido está oficialmente sentado à mesma mesa eleitoral do PL.
No plano nacional, PDT e PL tentarão derrotar um ao outro.
No plano estadual, pedirão voto para a mesma chapa.
É a peculiar matemática da política alagoana de 2026: Lula e Bolsonaro não cabem no mesmo palanque nacional, mas seus partidos couberam na mesma ata em Alagoas.
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